Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Se o mundo inteiro é um palco,


onde está o público sentado?
^^



Sempre acontece sempre em repetição nada serena
faço e desfaço um pouco em lixo e rasteiro o poema que te envio.
A ti primeiro.

Depois aquela parte
que não digo por pudor.
Isto é arte, apenas arte

apenas ódio, ou amor?
Já não distingo - ao que se chega!
um verso maior de um menor

alguns perfeitos. Que pena!
diz-me a voz interior
rasgo-os, levo-os à cena?


[Helga Moreira]

^^

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Sessão pipoca - Imagine



Imagine que não há paraíso
É fácil se você tentar
Nenhum inferno abaixo de nós
Acima de nós apenas o céu
Imagine todas as pessoas
Vivendo para o hoje

Imagine não existir países
Não é difícil de fazê-lo
Nada pelo que matar ou morrer
E nenhuma religião também
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz

Você pode dizer
Que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Espero que um dia
você se junte a nós
E o mundo, então, será como um só

Imagine não existir posses
Me pergunto se você consegue
Sem necessidade de ganância ou fome
Uma irmandade de homens
Imagine todas as pessoas
Compartilhando todo o mundo

Você pode dizer
Que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Espero que um dia
Você se juntará a nós
E o mundo, então, será como um só


[Composição: John Lennon]


^^

(...)
É um vento que diz:
Não se pode sair duma casa vazia.
Tudo o que alguma vez aconteceu
acontece para sempre.



[Benjamin Prado]


^^

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A rigidez dos gestos parados


Porque o tempo é invisível perdi
o poder de te nomear

se algum dia voltares não vais reconhecer
o grau zero das nossas despedidas:

conhecer por antecipação o cenário
silencioso onde alguém fala palavras
que não ouves

tens em ti a rigidez dos gestos parados
entre os silêncios


[Maria Sousa]


^^

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Dos Mundos


Deus criou este mundo. O homem, todavia,
Entrou a desconfiar, cogitabundo...
Decerto não gostou lá muito do que via...
E foi logo inventando o outro mundo.

[Mário Quintana - Espelho Mágico]
^^

domingo, 5 de dezembro de 2010

Permissão


Sou construída por emoções secretas.
Podem até comentar sobre mim,
mas me capturar...
Só com minha permissão!


[Martha Medeiros]


^^

Aatini Al-nay


Me dê a flauta e cante
A imortalidade vive numa música
E mesmo depois que tivermos perecido
A flauta continuará seu lamento.

[shakira]


^^

sábado, 4 de dezembro de 2010

Louco, sim


Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.


Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?


[Fernando Pessoa]



^^

Sessão pipoca - Eu não esqueço nada



Vejo você de tão longe
Que só eu sei que é você
Só eu sei te ver

Lembro de tudo que houve
De tudo o que ia haver
Do que não foi nada
Dentro dos nadas que havia

Porque eu não esqueço nada
A não ser de te esquecer
Nem ao meio-dia
Nem de madrugada
Eu não esqueço nada
Eu não esqueci

Nem o alivio do fim
Nem o delírio do começo
Nem um dia comum

Você me trata tão bem
Mantém meu coração ferido
Vou lhe fazer um pedido
Não fique perto de mim


[Composição: George Israel / Paula Toller]



^^

(...) A infância vem da eternidade.
Depois só a morte magnífica
— Destruição da mordaça:
E talvez já a tivesse entrevisto
Quando brincavas com o pião
Ou quando desmontaste o besouro. Entre duas eternidades
Balançam-se espantosas
Fome de amor e a música: Rude doçura
Ultima passagem livre.
Só vemos o céu pelo avesso.

[Murilo Mendes - Poesia de Liberdade]

^^

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Por um triz



Brandiu assim o ferro quente
E seu rosto em minha mente
Foi queimando feito cicatriz

Do corpo estreito quase ausente
O cheiro ardido e transparente
Era certo da questão o xis

Que o líquido fermente
Se separem as sementes
Ponham-se os pingos nos ís

Que a lente do amor aumente
Faça em presença o que é ausente
Porque só se vive por um triz

Só o amor pode juntar
O que o desejo separou
Não poderia ontem se
Vestir de amanhã

Só o amor pode apagar
O que o desejo rasurou
Inventaria ontem
Pra existir amanhã



[Composição: Samuel Rosa – Rodrigo F. Leão]
^^

Pousa a mão na minha testa


Não te doas do meu silêncio:
Estou cansado de todas as palavras.
Não sabes que eu te amo?
Pousa a mão na minha testa:
Captarás numa palpitação inefável o sentido da única palavra essencial


- Amor


[Manuel Bandeira]


^^

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010


Acordo com o teu nome nos
meus lábios — amargo beijo

esse que o tempo dá sem
aviso a quem não esquece.

[Maria do Rosário Pedreira - Nenhum nome depois]

^^

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A chave do meu coração...


Se o mundo é mesmo parecido com o que vejo.
prefiro acreditar no mundo do meu jeito.
E você estava esperando voar
Mas como chegar até as nuvens com os pés no chão?

O que sinto muitas vezes faz sentido
E outras vezes não descubro o motivo
Que me explica porque é que não consigo ver sentido

No que sinto, no que procuro e desejo que faz parte do meu mundo.

O arco-íris tem sete cores
E fui juiz supremo
Vai, vem embora, volta...
Todos têm, todos têm suas próprias razões.

Qual foi a semente que você plantou?
Tudo acontece ao mesmo tempo
Nem eu mesmo sei direito o que está acontecendo
E daí, de hoje em diante, todo dia vai ser o dia mais importante

Se você quiser alguém pra ser só seu
É só não se esquecer eu estarei aqui.


Ou então não terás jamais a chave do meu coração. ( ♥ )


[Legião Urbana]

^^

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A súbita Revelação da Fragilidade Humana


As rotinas do trabalho ocultam a nossa verdade. Mas elas não podem impedir nem que a tarde chegue, com suas cores de adeus, e nem que o outono chegue(...). Se prestarmos atenção e ouvirmos o que nos dizem, ficaremos sábios. Por que sabedoria é isto: contemplar o Abismo, sem ser destruído por ele.

[Rubens Alves - O retorno e terno]


^^

Difícil Poema de Amor


Separo-me de ti nos solstícios de verão, diante da mesa do juiz supremo dos amantes. Para que os juízes me possam julgar, conhecerão primeiro o amor desonesto infinito feito de marés ambulantes de espinhos nas pálpebras onde as ruas são os pontos únicos do furor erótico e onde todos os pontos únicos do amor são ruas estreitíssimas velocíssimas que se percorrem como um fio de prumo sem oscilação.

Ontem antes de ontem antes de amanhã antes de hoje antes deste número-tempo deste número-espaço uma boca feita de lábios alheios beijou. Precipício aberto: ele nada revela que tu já não saibas. Porque este contágio de precipícios foste tu que mo comunicaste maléfico como um pássaro sem bico.

Num silêncio breve vestiu-se a cidade. Muito bom-dia querido moribundo. Sozinho declaraste a terceira grande paz mundial quando abrindo os olhos me deste de comer cronometricamente às mil e tantas horas da manhã de hoje.

Deito-me cedo contigo o meu sono é leve para a liberdade acordas-me só de pensares nela. As casas e os bichos apoiam-se em ti. Não fujas não te mexas: vou fixar-te para sempre nessa posição.

Que há? Abrem-se fendas no ar que respiro vejo-lhe o fundo. Tens os olhos vasados. Qual de nós os dois "quero-Te" gritou?

Bebe-me espaçadamente encostada aos muros. Se és poeta que fazes tu? Comes crianças jogas ases sentado és uma estátua de pé a cauda de um cometa.

Mães entretanto vão parindo. Os filhos morrerão ainda? Entregas-te a
cálculos. Amas-me demais.
Confesso: não sei se sou amada por ti.

Virás
quando houver uma fala indestrutível devolvida à boca dos mais vivos. Então
virás
vivo também. Sempre esperei ver-te ressuscitado. Desiludiste-me.

E iremos com o plural de nós nos leitos menores onde o riso, onde o leito do rio é um filho entre os dois. Que farei de teus braços de meus cabelos benignos que faremos?

Nasci-te da minha pele com algumas fêmeas te deitei por vezes.
Conheces-me.
Não me tens amor

Grave esta corda cortada agudo seixo me ataste aos olhos para me
afundar.

Só por grande angústia me condenas à morte se de mim te veio a cidade e os minúsculos objectos que já amaste ou que irás amar um dia espero.
Ah a cratera o abismo eléctrico!

Por isso o teu novo amor será comigo mais perigoso que este imaculado com mais visco de amor cópula mortal.

Calo-me.
Reparei de repente que não estavas aqui. Pus-me a falar a falar. Coisas de mulher desabitada. Sei que um dia desviarei sem ti os passeios rectos esvaziarei os gordos manequins falantes. A razão é uma chapa de ferro ao rubro: se acredito na tua morte começo o suicídio.

Enquanto penetrantemente te espero a luz coalhou. Os pássaros coalharam enquanto te espero. O leite enquanto te espero coalhou. Haverá outro verbo?
Submersa, muito distante de qualquer inferno de um paraíso qualquer existo eu.

Existirão tais palavras?

É a altura de escrever sobre a espera. A espera tem unhas de fome, bico calado, pernas para que as quer. Senta-se de frente e de lado em qualquer assento. Descai com o sono a cabeça de animal exótico enquanto os olhos se fixam sobre a ponta do meu pé e principiam um movimento de rotação em volta de mim em volta de mim de ti.

Nunca te conheci - assim explico o teu desaparecimento. Ou antes: separei-me de ti no solstício de um verão ultrapassado. As mulheres viajavam pela cidade completamente nuas de corpo e espírito. Os homens mordiam-se com cio. Imperturbável pertenceste-me. Assim nos separamos.

Não calhasse morrer um de nós primeiro que o outro porque ambos ao mesmo tempo será impossível enquanto não houver relógios que meçam este tempo e as horas fielmente se adiantarem e atrasarem.

Alguma vez pretendi dizer-te o que quer que fosse? Falava por paixão por tibieza por desgosto por claridade por frio por cansaço nunca por pretender dizer o que quer que fosse.

Não me desculpo. Se já me cai o cabelo se já não sinto os ombros é porque o amor é difícil ou a minha cabeça uma pedra escura que carrego sobre o corpo a horas e desoras ostentando-a como objecto público sagrado purulento. O odor que as pedras têm quando corpos. O apocalipse de tudo quando amamos. O nosso sangue em pó tornado entornado.

O teu amor espreita o meu corpo de longe. De longe por gestos
lhe respondo. Tenho raízes nos vulcões ternuras íntimas medos reclusos beijos nos dentes.

A pobreza surge dentro de nós embora cautelosos deitados de manhã e de tarde ou simplesmente de noite despertos. Ambos meu amigo estamos sentados neste momento perfeitamente incautos já. Contemplamos um país e sentamo-nos e vestimo-nos e comemos e admiramos os monumentos e morremos.

Inventei a nossa morte em toda a impossível extensão das palavras.
Aterrorizei-me segundos a fio enquanto em corpo nu ouvindo-me adormecias devagar.

Com a precaução de quem tem flores fechadas no peito passeei de noite pela casa. Um fantasma forçou uma porta atrás de mim. Gemendo como um animal estrangulado acordei-te.

Enterro o meu terror como um alfange na terra. Porque é preciso ter medo bastante para correr bastante toda a casa celebrar bastantes missas negras atravessar bastante todas as ruas com demónios privados nas esquinas.

Só o amor tem uma voz e um gesto mesmo no rosto da ideia que me impus da morte.
És tu tão único como a noite é um astro.

Sobre a poeira que te cobre o peito deixo o meu cartão de visita o meu nome profissão morada telefone.

Disse-te: Eis-me.
E decepei-te a cabeça de um só golpe.

Não queria matar-te. Choro. Eis-me! Eis-me!


[Luiza Neto Jorge]


^^

domingo, 28 de novembro de 2010

Aquele Abraço


O Rio de Janeiro
Continua lindo
O Rio de Janeiro
Continua sendo
O Rio de Janeiro
Fevereiro e março

(...)

Meu caminho pelo mundo
Eu mesmo traço
A Bahia já me deu
Régua e compasso
Quem sabe de mim sou eu
Aquele Abraço!
Prá você que me esqueceu
Ruuummm!
Aquele Abraço!
Alô Rio de Janeiro
Aquele Abraço!
Todo o povo brasileiro
Aquele Abraço!

[Composição: Gilberto Gil]


^^