Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

Redes Sociais

https://www.facebook.com/danielle.manhaes --- Instagram: @danielle.manhaes @danielle.manhaes_psi

sábado, 22 de maio de 2010

Acordar, Viver


Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.
Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?
Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a terra e sua púrpura demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?
Ninguém responde, a vida é pétrea.

[C. Drummont de Andrade]


^^

Esta cidade que habita


Existe um rasto de silêncio pelas
ruas desta cidade onde moro. O meu corpo
tece horas já e nada se apaga como antes.

Onde estou, o frio é incessante e
às minhas mãos queimam-se fotografias como
se o passado não existisse mais.

De hoje em diante, irei apagar-me
em cada dia, para que nada reste dentro de mim
ou dentro da garrafa vazia.

Por isso te vejo a desaparecer
rapidamente, como um dente-de-leão ao vento
da minha voz, ao agredir-te sem que te
doa ou marque para sempre.

E para que os dias passem, bebo-me
de dentro das mãos. Como um vinho verde
que me corre no corpo e assim a visão do mundo
é mais carente - o frio que sinto é da
cidade.

Nada mais existe por aqui que me prenda
ou que me faça ficar. Visto a mala para
pensar na partida, carrego-me pela porta até
ao jardim que se estende lá fora, sem luz sem sol
nem calor.

Os meus pés já não caminham porque
não sabem. Porque todas as cartas me ensinaram
que a maneira como se pisa um ladrilho é igual
à de pisar um rosto

mesmo que de tal não se goste.

Por isso perco os sentidos nesta cidade
sem polícia e sem refúgios - como se fosse eu
o último a perder-me nas ruas labirínticas e
planas onde o vento me espalha a memória como
água em papel.


[Sérgio Xarepe]

^^

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Simples desejo


Que tal abrir a porta do dia, dia
Entrar sem pedir licença
Sem parar pra pensar,
Pensar em nada…

Legal ficar sorrindo à toa, toa
Sorrir pra qualquer pessoa
Andar sem rumo na rua

Pra viver e pra ver
Não é preciso muito
Atenção, a lição
Está em cada gesto
Tá no mar, tá no ar
No brilho dos seus olhos
Eu não quero tudo de uma vez
Eu só tenho um simples desejo

Hoje eu só quero que o dia termine bem
Hoje eu só quero que o dia termine muito bem...

[Composição: Daniel Carlomagno e Jair Oliveira]

^^

E a tua ferida, onde está?




Pergunto onde fica,
em que lugar se oculta a ferida secreta
para onde foge todo o homem
à procura de refúgio
se lhe tocam no orgulho, se lho ferem?

Esta ferida
— que fica assim transformada em foro íntimo —
é que ele vai dilatar, vai preencher.

Sabe encontrá-la, todo o homem,
ao ponto de ele próprio ser a ferida,
uma espécie de secreto
e doloroso coração.

Se observarmos o homem ou a mulher
que passam com olhar rápido e voraz
— e também o cão, o pássaro, uma panela —
a velocidade do olhar é que nos mostra,
ela própria e com rigor máximo,
que ambos são a ferida
onde se escondem mal sentem o perigo.

O quê?
Já lá estão, já os conquistou
— deu-lhes a sua forma —
e para ela a solidão:
lá estão inteiros no retesar de ombros
em que passam a concentrar-se,
com toda a vida a confluir na ruga maldosa da boca,
e contra a qual nada podem nem querem,
pois dela é que sabem esta solidão absoluta,
incomunicável — este castelo da alma —
para serem a própria solidão.

[Jean Genet]

^^

quinta-feira, 20 de maio de 2010


Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

[Eugénio de Andrade]

^^
Vacila e treme o homem que entra neste verso. Não usa roupa ou adereços, não corta as unhas dos pés, e sai-lhe do queixo uma cauda de pêlo comprido que lhe tapa o sexo. Mantém o braço esquerdo erguido e fala com a mão. Articula um diálogo perfeito, faz duas vozes, a dele próprio e outra feminina e doce. E na sua diz nunca te deixarei, na outra diz serei sempre tua. Quando se cansa de falar, leva a mão à testa e pestaneja sobre ela.
O poeta que tem um homem nu num verso, não sabe o que há de fazer. Fica paralisado enquanto ouve a conversa dele com a sua mão na sua voz diz:


dá-me por esta noite a carne ainda quente de um beijo,
uma pedra de fogo que possa incendiar outra pedra,
dois remos para navegar águas escuras,
águas tão densas como as que nascem da montanha,
um rio, meu amor, dá-me por esta noite um rio
que comece no teu corpo de neve,
atravesse o tempo, a luz vertiginosa,
e se afogue nos meus olhos.


na outra voz responde:


Eu dou-te o nome do silêncio, uma
casa onde possas habitar até que
a morte nos restitua, um livro para
me escreveres o sol claríssimo, as
azeitonas fazendo o virgem óleo.


O poeta chora. Lê a biografia do homem e compreende. Foi ele quem guardou o último suspiro da amada na mão que lhe amparava o rosto. Desde então, conversa com ela para suportar.

[Alice Macedo Campos, o ciclo menstrual da noite]


^^

terça-feira, 18 de maio de 2010

Sessão pipoca - Gypsy



Partiu meu coração na estrada
Passei fins de semana costurando as partes de volta
Lápis e bonecas passaram por mim
Andar a pé fica muito chato quando você aprende a voar

Não é o tipo que volta pra casa
Tire a blusa e quem sabe o que você pode encontrar
Não vou confessar todos os meus pecados
Você pode apostar todas tentando, mas você não pode ganhar sempre

Porque eu sou uma cigana, você vem comigo?
Eu poderia roubar suas roupas e usá-las se elas servissem em mim
Nunca fiz acordos, exatamente como um cigano
E eu não vou recuar porque a vida já me mordeu
E eu não vou chorar, sou jovem demais para morrer se você for desistir de mim
Porque eu sou uma cigana

Eu não posso esconder o que fiz
Cicatrizes me lembram o quão longe que eu vim
A quem possa interessar
Só corra com uma tesoura quando você quiser se machucar

E eu digo
Ei você, você não é tolo. Se você diz que não
Não é assim que a vida acontece
As pessoas temem o que eles não sabem
Venha para o passeio
Venha para o passeio

Porque eu sou uma cigana, você vem comigo?
Eu poderia roubar suas roupas e usá-las se elas servissem em mim
Nunca fiz acordos, exatamente como um cigano
E eu não vou recuar porque a vida já me mordeu
E eu não vou chorar, sou jovem demais para morrer se você for desistir de mim
Porque eu sou uma cigana

[Shakira]


^^

segunda-feira, 17 de maio de 2010

A vitória nossa de cada dia


Olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gaffe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingénuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer pelo menos não fui tolo e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.

[Clarice Lispector]


^^

domingo, 16 de maio de 2010


(...)

Eu quis o perigo
E até sangrei sozinho(a)
Entenda!
Assim pude trazer
Você de volta pra mim
Quando descobri
Que é sempre só você
Que me entende
Do início ao fim.

E é só você que tem
A cura pro meu vício
De insistir nessa saudade
Que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.

Nos deram espelhos
E vimos um mundo doente
Tentei chorar e não consegui.

[Legião Urbana]


^^

Saudade - de quem já partiu...

A saudade é o limite da presença,
estar em nós daquilo que é distante,
desejo de tocar que apenas pensa,
contorno doloroso do que era antes.
Saudade é um ser sozinho descontente
um amor contraído, não rendido,
um passado insistindo em ser presente
e a mágoa de perder no pertencido.
Saudade, irreversível tempo, espaço
da ausência, sensação em nós premente
de ser amor somente leve traço
num sonho vão de posse permanente.
Saudade, desterrada raiz, vida
que se prolonga e sabe que é perdida.


[Lupe Cotrim]


A senhora que foi duas vezes mãe...
duas vezes carinho...
duas vezes amor...
duas vezes compreensão...
o que mamãe fez por mim, você fez por ela também..
A senhora que foi exemplo de paz, de amor e de afeto...

Em seus lábios sempre encontrei
palavras de alívio para todos os sofrimentos.
E é reconfortante saber que a terei sempre presente no meu coração...

Obrigada por tudo!
Conselhos, exemplo de vida a copiar. Colo. O sorriso em seu semblante. Sinceridade. Proteção.

Em minhas lembranças estarão presentes todos os momentos de ternura, a sua necessidade de UNIÃO... De ver a família reunida... Obrigada pelos seus 87 anos de vida. Obrigada pelos elogios e incentivos. Obrigada por permitir todos os beijos e abraços apertados que eu pude te dar nessa vida.




Meu coração é só saudade, saudade, saudade... de ti, vovó.


Danni^^

sábado, 15 de maio de 2010


Suspensos na saudade
(moldada a medo)

deslizam pelo silêncio espelhos
em tons monocromáticos

criam sonhos desconexos
em pontas dos pés

onde a morte das abelhas envelhece as sombras
e peixes vermelhos brilham na violência do vento

delírios electrificados onde a luz canta baixinho
e as imagens dançam em desordem

é difícil acordar no interior da noite
(pintada em tons de sonho)
quando a luz amadurece nos corpos adormecidos

mergulhando num abismo de abelhas e peixes
sonhos cambaleando pela dor da respiração
numa ressaca onde acordo e apago memorias

ouvindo ainda restos da tua voz
perfumando o silencio.

[eue]


^^

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Um louco de Juízo

Que é loucura: ser cavaleiro andante
ou segui-lo como escudeiro?
De nós dois, quem o louco verdadeiro?
O que, acordado, sonha doidamente?

O que, mesmo vendado,
vê o real e segue o sonho
de um doido pelas bruxas embruxado?

Eis-me, talvez, o único maluco,
e me sabendo tal, sem grão de siso,
sou — que doideira — um louco de juízo.

[Carlos Drummond de Andrade - (Quixote e Sancho, de Portinari, 1974)]

^^

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A Guerra Que Aflige Com Os Seus Esquadrões o Mundo



A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
É o tipo perfeito de erro da filosofia.
A guerra, como tudo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.

Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do universo por nós.
Tendo por conseqüência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer-alterar.

Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.
Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer cousas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.

A química direta da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.

A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.

Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as cousas pré-humanas, mesmo no homem!
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!

[Fernando Pessoa]

^^

quarta-feira, 12 de maio de 2010

A hora da partida


A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.

[Sophia de Mello Breyner Andresen]


^^

Chocolate


Chocolate, chocolate, chocolate
Eu só quero chocolate... Só quero chocolate
Não adianta vir com guaraná pra mim
É chocolate que eu quero beber...

Não quero chá, não quero café
Não quero coca-cola, me liguei no chocolate
Eu me liguei, só quero chocolate
Não adianta vir com guaraná pra mim
É chocolate que eu quero beber

Chocolate, chocolate, chocolate
Eu só quero chocolate.... Só quero chocolate
Não adianta vir com guaraná pra mim
É chocolate que eu quero beber.
[Marisa Monte]

^^

terça-feira, 11 de maio de 2010

A Miragem


Ah, se pudéssemos contar as voltas que a vida dá
Pra que a gente possa encontrar um grande amor...
É como se pudéssemos contar todas estrelas do céu,
os grãos de areia desse mar, ainda sim...

Pobre coração o dos apaixonados
que cruzam o deserto em busca de um oásis em flor.
Arriscando tudo por uma miragem,
pois sabem que há uma fonte oculta nas areias.
Bem aventurados os que dela bebem,
porque para sempre serão consolados.

Somente por amor a gente põe a mão
no fogo da paixão e deixa se queimar,
somente por amor, movemos terra e céus,
rasgando sete véus, saltamos no abismo sem olhar pra trás,
somente por amor...
e a vida se refaz e a morte não é mais pra nós.

[Marcus Viana]

^^

domingo, 9 de maio de 2010

Feliz dia das mães!!



^^
Segundo a Wikipédia a adolescência é a fase do desenvolvimento humano que marca a transição entre a infância e a idade adulta. Com isso essa fase caracteriza-se por alterações em diversos níveis - físico, mental e social - e representa para o indivíduo um processo de distanciamento de formas de comportamento e privilégios típicos da infância e de aquisição de características e competências que o capacitem a assumir os deveres e papéis sociais do adulto.


Hoje lá no Céu, contarei como foi essa fase de desenvolvido vivida por mim. Nos mínimos detalhes... Entre aqui e confira!


^^