Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

Redes Sociais

https://www.facebook.com/danielle.manhaes --- Instagram: @danielle.manhaes @danielle.manhaes_psi

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Um manto de Ternura

Dizer-te, meu amigo,
que, à uma da manhã
e desta noite,
está lindo o nevoeiro

que um manto de sossego
assim inteiro
eu desejava dar-te
- e ter comigo.

Enviava-te um frasco,
se pudesse,
fechado em carta azul,

ou por fax de sol
(não fora o medo que o sol
o desfizesse)

Assim, mando daqui
esta espessura
de cheiro muito branco
e muito belo:

um manto de ternura
dobrado num novelo,
que chegue
até aí.


[Ana Luísa Amaral]

^^

O Laço de Fita

Não sabes, criança? 'Stou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita.

Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente qu'enlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
O laço de fita.

Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro
Num laço de fita.

E agora enleada na tênue cadeia
Debalde minh'alma se embate, se irrita...
O braço, que rompe cadeias de ferro,
Não quebra teus elos,
Ó laço de fita!

Meu Deusl As falenas têm asas de opala,
Os astros se libram na plaga infinita.
Os anjos repousam nas penas brilhantes...
Mas tu... tens por asas
Um laço de fita.

Há pouco voavas na célere valsa,
Na valsa que anseia, que estua e palpita.
Por que é que tremeste? Não eram meus lábios...
Beijava-te apenas...
Teu laço de fita.

Mas ai! findo o baile, despindo os adornos
N'alcova onde a vela ciosa... crepita,
Talvez da cadeia libertes as tranças
Mas eu... fico preso
No laço de fita.

Pois bem! Quando um dia na sombra do vale
Abrirem-me a cova... formosa Pepital
Ao menos arranca meus louros da fronte,
E dá-me por c'roa...
Teu laço de fita.


[Castro Alves]

^^

terça-feira, 13 de abril de 2010

As casas


Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
Elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
Respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas...

[Ruy Belo]

^^

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Quem?



Um raio de luz lançou toda a doçura num sono.

Quem o dormiu antes do tempo?


[Ingeborg Bachmann]
^^

Estradas

São outras as paisagens quando alguém
as vê pelas janelas do seu próprio coração ou quando
com esse coração
a própria estrada está comprometida.

[Luís Miguel Nava]

^^

domingo, 11 de abril de 2010


Sendo com o seu ouro, aurífero,
o corpo é insurrecto.
Consome-se, combustível,
no sexo, boca e recto.

Ainda antes que pegue
aos cinco sentidos a chama,
por um aceso acesso
da imaginação
ateiam-se à cama
ou a sítio algures,
terra de ninguém,
(quem desliza é o espaço
para o corpo que vem)

labaredas tais
que, lume, crepitam
nos ciclos mais extremos,
nas résteas mais íntimas,
as glândulas, esponjas
que os corpos apoiam,
zonas aquáticas
onde os órgãos boiam.

No amor, dizendo acto de o sagrar,
apertado o corpo do recém-nascido
no ovo solar,
há ainda um outro
corpo incluído,

mas um corpo aquém
de ser são ou podre,
um repuxo, um magma,
substância solta,
com pulmões.

Neste amor equívoco
(ou respiração),
sendo um corpo humano,
sendo outro mais alto,
suspenso da morte,
mortalmente intenso,
mais alto e mais denso,

mais talhado é o golpe
quando o põem em prática
com desassossego na respiração
e o sossego cru de quem,
tendo o corpo nu,
a carne ardida,
lhe pede o ladrão
a bolsa ou a vida.

[Luiza Neto Jorge]
^^

O que Excita e o que faz Broxar

X



Uma mania masculina realmente, é de broxar as mulheres: usar as cuecas até que elas não possam mais ser definidas como tais. Afinal, por que será que para certos homens as cuecas são uma das únicas coisas que duram pra sempre? Alguns falam que esse apego tão forte acontece por uma questão prática, já que quanto mais a cueca for usada, mais confortável ela se tornará (ficando mais macia, se adequando à pele, não apertando mais, e por aí vai...) Outros dizem que é uma questão de economia. Afinal, para que gastar com cuecas novas se já tem as suas de estimação? ¬¬
Uma dica pra não virar um homem broxante: Seja precavido! Um homem esperto é aquele que está sempre preparado, afinal, nunca se sabe quando alguém vai te ver de cueca. E mais, você poderá curtir também as preliminares, ao invés de tirá-la correndo para esconder embaixo da cama. Gente, se a cueca está péssima, imagine só o resto, kkkkk... É Broxante meeeesmo! Eca! =/


Cheiro de homem - Que os homens usem perfume eu concordo e incentivo, mas que seja o perfume certo. Homem tem cheiro mais fechado, perfume marcado. Nada dessa coisa unissex, adocicada ou cítrica demais. O melhor mesmo é cheiro de banho misturado com suor, cheiro de pele quando acorda. Nossa isso me deixa doida. Adoro pescoço e nuca, morder e contar segredinhos no ouvido sentindo esse cheiro bom... =)


Cinema pornô tradicional no motel - com cenas de sexo explícito de gosto duvidoso, definitivamente, não me agrada. Aquela gritaria toda, caras e bocas no estilo “sou vulgar, estou fingindo, e daí?” ¬¬ Não é nada sensual, exagero demais força uma coisa que deveria ser natural, me broxa na hora. Cadê o controle desta porcaria de tv? Desliga isso, já!



Educação - Bom dia. Boa tarde. Obrigado. Por favor. São palavrinhas mágicas, não apenas no dia-a-dia, mas para meu instinto. Se vier acompanhado de um sorriso então, já vai me dando vontade de fazer carinho, dar beijinho, um monte de "inho"... ai, ai!



Enrolação - Homem enrolado é o fim do mundo. Deu 1 mês de convivência e o cara não tomou atitude? Tô fora. Admito, eu gosto que o convite para sair venha dele na primeira vez. Se eu preciso convidar para um simples encontro, imagina para as demais coisas? E ele pode ter certeza que eu não vou ser fresca não... Se eu quero, quero. Se não quero, deixo isso bem claro.


Inteligência - Senhor de um bom papo, que te deixa livre para falar desde bobagens cheios de humor até filosofias clássicas ou contemporâneas.¬¬ Um homem sem medo de dizer que não sabe e disposto a ensinar o que sabe. Que compartilha seu conhecimento. E que nunca me dirá asneiras absurdas como: "Um dia irei à Nova York, meu sonho é conhecer a Europa.” Na boa - Inteligência é sim afrodisíaco.


Lingerie bege – existe coisa mais broxante do que isso? É broxante pra quem usa, e pra quem vê. Já pensou na H, o cara tira a roupa da parceira, crente que vai dá de cara com meia e cinta-liga, vermelha ou branca (minhas cores preferidas), mas, dá de cara com aquela coisa sem cor, sem graça, sem estilo, sem nada? Depois, o relacionamento não dá certo, ainda fica se perguntando: onde foi que eu errei?...


Ousadia - Homem gentil e educado que, do nada, chega e fala alguma ousadia ao pé do ouvido me deixa de perna bamba. Um olhar safado quando só você pode vê-lo. ¬¬ Um toque ousado. Um "inocente" beijo de canto de boca. São pequenas ousadias que fazem toda a diferença...



Frescura - Gosto de seduzir e adoro ser seduzida. Hora um, hora outro. E se ele é cheio de frescura, não me toques, isso não pode, nem aquilo, aquilo outro também não, eu dou logo cartão vermelho. Melhor um bruto que topa minhas loucuras que um fresco que me deixa na mão. Pronto, falei.


Pagar a conta – Acho bacana dividir a conta, meu lema é esse. Mas, quando o homem se antecipa e nem deixa a mulher saber quanto foi o gasto, é excitante. Acho gentil, cortês, másculo, passa uma sensação de “eu estou no comando da situação, baby”. E eu? Adoooro ser dominada! (oi? Ninguém ouviu isso, né?!) ¬¬


Pressa – A mocinha conhece “o” homem encantador em um momento em que estava carente e blá, blá, blá... Um tempo depois, resolveram transar e aí a “Cinderela” descobre o fiasco: ele gozava em cinco minutos e a deixava na mão, literalmente. Ahhh... Fala sério! Chega por hoje!

Sem mais para o momento.



Danni^^

sexta-feira, 9 de abril de 2010


Que dias tão cheios de água! E de frio!
Recordas-te das bilhas de barro? Das nossas avós.
E da água fresquinha? Dominasse eu o poder e estes dias
teriam maior moradia numa parte dos dias de muito calor.
E de humidade.
Esta minha ambição de reter o sol na eira. E a chuva no nabal.
Coisas!

Estive a contar as mensagens trocadas. Noite adentro.
Quantas. Tantas. Muitas. Famintas. Sedentas. Sôfregas.
E não respondi à última porque a senti húmida. Molhada.
E porque me adentravas.
Coisas. Loucas!

Numa noite ou numa tarde destas, de chuva e de frio,
podíamo-nos cobrir com uma manta virtual e quentinha.
E fazer soar e suar. Como o calor húmido que nos sufoca.
E nos cola à pele.
Coisas loucas. De um doido!

Os planos e as expectativas perturbam-me quando
me meço no tempo. Pela frente, já me faltam dias.
Não sofro na espera quando quero a descoberta.
Mas neste hoje não há muito lugar a amanhãs.
Coisas loucas de um doido. Adivinho!

Eu sou especial? Nem penses nisso. Adão de carne e ossos.
E algures uma alma. Que ama. Que sente. E se ressente.
Coisas loucas de um doido adivinho. De sensações!

A tua e a minha vontade. As duas.
Mas da minha sei eu. E tu também.
Coisas loucas de um doido adivinho de sensações. E de desejos!

Que dia tão cheio de humidade!
Não foi assim toda esta noite?
Tão molhada e tão húmida?
[Mateo]
^^

terça-feira, 6 de abril de 2010


Tu já me arrumaste no armário dos restos
eu já te guardei na gaveta dos corpos perdidos
e das nossas memórias começamos a varrer
as pequenas gotas de felicidade
que já fomos.
Mas no tempo subjectivo
tu és ainda o meu relógio de vento
a minha máquina aceleradora de sangue
e por quanto tempo ainda
as minhas mãos serão para ti
o nocturno passeio do gato no telhado?

[Isabel Meyrelles]

^^

domingo, 4 de abril de 2010




Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

[Vinícius de Moraes]

^^

quarta-feira, 31 de março de 2010


Aquele dia amanheceu como outros tantos...
Era um dia puro, luminoso, chamando à vida.
Mas tinha havido tantas manhãs assim
e o presságio da Natureza em festa tantas vezes tinha mentido!...
E contudo, aquela manhã foi a manhã verdadeira,
e o Sol não brilhou em vão, o mar não foi inutilmente belo,
porque foi, amor, a manhã em que nascemos um para o outro!


[Adolfo Casais Monteiro]


^^

segunda-feira, 29 de março de 2010

Vida


Pelas ruas da cidade pessoas andam no vai e vem
Vem o cair da tarde, vão nos seus passos como reféns
De uma vida sem saída, vida sem vida, mal ou bem
Pelos bancos desses parques ninguém se toca sem perceber
Que onde o sol se esconde o horizonte tenta dizer
Que há sempre um novo dia, a cada dia, em cada ser
Não é preciso uma verdade nova, uma aventura
Para encontrar nas luzes que se acendem um brilho eterno
E dar as mãos, e dar de si, além do próprio gesto
E descobrir feliz que o amor esconde outro universo

Pelos becos, pelos bares, pelos lugares que ninguém vê
Há sempre alguém querendo uma esperança, sobreviver
Cada rosto é um espelho de um desejo de ser, de ter
Não é preciso uma verdade nova, uma aventura
Para encontrar nas luzes que se acendem um brilho eterno
E dar as mãos, e dar de si, além do próprio gesto
E descobrir feliz que o amor esconde outro universo

Cada rosto é um espelho de um desejo de ser, de ter
Talvez quem sabe por esta cidade passe um anjo
E por encanto abra suas asas sobre os homens
E dê vontade de se dar aos outros sem medida
A qualidade de poder viver vida, vida,
Vida, vida.

[Compositor: Fábio Júnior]


^^

domingo, 28 de março de 2010

Soneto da Amizade



Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...

[Vinicius de Moraes]

Clique aqui para ir ao Céu Aberto...

^^

sexta-feira, 26 de março de 2010


Eu pouco sei de ti mas este crime
torna a morte ainda mais insuportável.
Era novembro, devia fazer frio, mas tu
já nem o ar sentias, o próprio sexo
que sempre fora fonte agora apunhalado.
Um poeta, mesmo solar como tu, na terra
é pouca coisa: uma navalha, o rumor
de abril podem matá-lo - amanhece,
os primeiros autocarros já passaram,
as fábricas abrem os portões, os jornais
anunciam greves, repressão, dois mortos na
primeira página,
o sangue apodrece ou brilhará
ao sol, se o sol vier, no meio das ervas.
O assassino, esse seguirá dia após dia
a insultar o amargo coração da vida;
no tribunal insinuará que respondera apenas
a uma agressão (moral) com outra agressão,
como se alguém ignorasse, excepto claro
os meretíssimos juízes, que as putas desta espécie
confundem moral com o próprio cu.
O roubo chega e sobra excelentíssimos senhores
como móbil de um crime que os fascistas,
e não só os de Salò, não se importariam
de assinar.
Seja qual for a razão, e muitas há
que o Capital a Igreja e a Polícia
de mãos dadas estão sempre prontos a justificar,
Pier Paolo Pasolini está morto.
A farsa, a nojenta farsa, essa continua.

[Eugénio de Andrade]

^^

quarta-feira, 24 de março de 2010


Tu disseste para eu guardar o silêncio neste quarto. Para que nada dissesse, nem o teu nome. O teu corpo ondulava e eu aceitei a ausência. Disseste para eu nada pedir, para não nomear, não ter nenhuma palavra, nem exclamação, nem sorrisos, para não estar morta também. Para te responder com as mãos, silenciosas, os dedos a baterem-te como a chuva, tão de leve.

Estás suspenso, leve e suspenso e quente, portanto vivo, que surpresa! Só te envolves no berço, sem palavras, como antes delas, com o rosto amado a devolver-te um sinal de reconhecimento. Voltas a fechar os olhos, aninhas-te nos meus braços como se não me visses nunca, como se eu não existisse fora desse abraço por dentro. O meu cheiro como uma palavra acariciando a criança em ti, toda, e a curva da nuca abandonada. O peso tímido da tua cabeça a furar-me a pele, a quebrar-me o peito. Mordes a memória do leite, mexes os lábios, dói-me a secura. Não digo nada, o queixume é já desejo. Tem de ser plano e eterno este tempo, como se a morte pudesse roubá-lo se o dissesse. Não me pedes nada, e nem ousas a violência.

Ocultas tudo para que seja como antes do sono, um mergulho lento, desmembrado, com a aprovação de todos. Os lábios são doces, não procuram, conhecem a felicidade, provam com a língua, provam mais, redondos, enrolados, enormes como o quarto, com a cama que se afunda e nos leva, líquidos, desfeitos um no outro, numa celebração comum, silenciosa, não nomeada. Um abraço sem gestos, só um equilíbrio ténue, frágil.

Escorregamos sem esforço, não sei onde caímos, é a tua memória que nos guia, é o meu silêncio, todo o consentimento e o dom do teu acolhimento para que tudo aconteça longe daqui, sem eu nunca saber onde me levas e vou.

[Lídia Martinez, Um adeus perfeito]


^^

terça-feira, 23 de março de 2010


Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.

[Paul Éluard]


^^

domingo, 21 de março de 2010

O outono chegou


Vem ver-me antes que morra de amor – o sangue
arrefece dentro do meu corpo e as rosas desbotam
nas minhas mãos. Da minha cama ouço a tempestade
nos continentes; e já quis partir, deixar que o vento
levasse a minha mala por aí;
fiz planos de correr mundo
para te esquecer – mas nunca abria a porta.

Vem ver-me enquanto não morro, mas vem de noite –
a luz sublinha a agonia de um rosto e quero que me recordes
como eu podia ter sido. Da minha cama vejo o sol
tatuar as costas do meu país; e já sonhei que o perseguia,
que desenhava o teu nome no veludo da areia e sentia
a vida a pulsar nessa palavra como o músculo tenso
escondido sob a pele
– mas depois acordava e não ia.

Vem ver-me antes que morra, mas vem depressa –
os livros resvalam-me do colo e o bolor avança
sobre a roupa. Da minha cama sinto o perfume das folhas
tombadas nos caminhos. O Outono chegou.
E o quarto
ficou tão frio de repente.
E tu sem vires. Agora
quero deitar-me no tapete de musgo do jardim e ouvir
bater o coração da terra no meu peito. Os vermes
alimentam-se dos sonhos de quem morre. E tu não vens.

[Maria do Rosário Pedreira, O canto do vento nos ciprestes]

^^

Uma nova astrologia



Semana astrológica no Céu. Entre aqui e confira!
^^

sexta-feira, 19 de março de 2010

Aparição Amorosa




Doce fantasma, por que me visitas
como em outros tempos nossos corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.
.
Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.
.
Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto... o quê? a massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.
Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma idéia platônica no espaço?
.
O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me, suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.
.
Tua visita ardente me consola.
Tua visita ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola."
.
.
[Carlos Drummond de Andrade]
^^