Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Estoy Aquí


Aquí estoy,
desnuda,
sobre las sábanas solitarias
de esta cama donde te deseo.

Veo mi cuerpo,
liso y rosado en el espejo,
mi cuerpo
que fue ávido territorio de tus besos;
este cuerpo lleno de recuerdos
de tu desbordada pasión
sobre el que peleaste sudorosas batallas
en largas noches de quejidos y risas
y ruidos de mis cuevas interiores.

Veo mis pechos
que acomodabas sonriendo
en la palma de tu mano,
que apretabas como pájaros pequeños
en tus jaulas de cinco barrotes,
mientras una flor se me encendía
y paraba su dura corola
contra tu carne dulce.

Veo mis piernas,
largas y lentas conocedoras de tus caricias,
que giraban rápidas y nerviosas sobre sus goznes
para abrirte el sendero de la perdición
hacia mi mismo centro,
y la suave vegetación del monte
donde urdiste sordos combates
coronados de gozo,
anunciados por descargas de fusilerías
y truenos primitivos.

Me veo y no me estoy viendo,
es un espejo de vos el que se extiende doliente
sobre esta soledad de domingo,
un espejo rosado,
un molde hueco buscando su otro hemisferio.

Llueve copiosamente
sobre mi cara
y sólo pienso en tu lejano amor
mientras cobijo
con todas mis fuerzas,
la esperanza.

[Gioconda Belli]

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Autopsicografia


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

[Fernando Pessoa - Cancioneiro]

^^

*

.
Assim fremente e nua,
a luz só pode ser dos girassóis.
.
[Eugênio de Andrade]


^^

domingo, 15 de novembro de 2009


O tempo corre nas paredes livremente
mas não toma a direcção da morte: ela esteve aqui
desde o princípio, uma vocação adormecida
debaixo do estuque.

A manhã nasce viciada nos brandos venenos
que os móveis destilam, haverá pombas
sobre o parapeito, o senhorio arrastará o chinelo
sob um eco que caminha pelo tecto.
Nada poderá perturbar a fluência da penumbra
nos cantos para onde se varre a casa
aos domingos. A pele respira tenuamente mas não posso falar
em tristeza. Este é o meu endereço, um lugar composto
para a submergência.

[Rui Pires Cabral]

Assunto Polêmico no Céu!

Aborto e Sexualidade

A Céu Aberto - da Boca


Clique em cima da imagem e confira esse tema!

^^

sábado, 14 de novembro de 2009

Eu quero um amor Infinito!


Eu quero, eu quero, eu queroooo!
Como faço pra conseguir essa camisa liiiiiiiiiiinda de doer do meu time do coração?
Por favor! Alguém me ajuda???
^^
No bairro do amor há quem pergunte a sorrir:
será que ainda cá estamos no fim do verão?


Talvez pelo avesso deste mundo deserto eu seja só um atalho fingido. Ao passar de cada pé sou apenas um fôlego cansado. Que desaprendeu como gemer. Um novelo de sentimentos calejados que depois se guarda no canto escondido de uma gaveta sem uso. Porque realmente me magoam as esquinas inquietas. Não estava escrito precisar de ti - assim - a cada instante. Estaria contorcida se não pudesse mais dobrar as palavras. Se não as tivesse por dentro de mim – e se numa impaciência qualquer não conseguisse soprá-las e torná-las mais leves – nesta desordem pacífica. Ouço-me ao ouvido. E relembro com alguma tristeza o pouco que rodopiei nesses abraços. Não é que vá sarar a ferida agora. Afinal esqueço o rumo a cada letra que soletro a custo. Porque contigo rompi as costuras da boca. Há muito que me esmago com os pés e tu não sabes. Não é que te vá socorrer ou te devolva o brilho aos olhos. Não é que me tornes mais solta: serei sempre um navio sem ancoradouro. Mas aqueço-te as mãos sem me deixar derreter. Não é que eu valha a pena: porque sou feita de aflições que me roubam as forças. Lavo o sono com água gelada e – mesmo suspensa – vivo a cansar-me e cresço a tropeçar. Sou desassossego. Mas não fraquejo ao pé de ti. E passas por mim – de dentro para fora – sem me sentires na pele. E eu afogo-me num batimento cardíaco derradeiro. Preparo-me para ser um sorriso espontâneo numa alma que morre aos pedaços. Mas isso eu continuo a pagar – em prestações amortizadas – com estas dores abafadas e fundas. Não sei se hei-de temer o teu rosto encostado ao meu. Não é que te vá segurar nos braços. Porque repeti os gestos num calendário de folhas dobradas e esperei – em segredo – dias mais coloridos que anotei sem pensar a marcador fluorescente também sem perceber que a rotina me sabotava o mínimo esforço. Vivo sem me ver. Talvez seja tempo de voltar atrás sem mágoa ou de seguir em frente sem medo – de sufocar por dentro – de sacudir o corpo de uma só vez. Aqui a noite chega primeiro. E eu não tenho vontades: sou dona de umas mãos vazias. Enquanto tento em vão o equilíbrio dou-me conta de um caminho ainda por decidir. Mas distraí-me: enrolei-me em fios de promessas adiadas. E sem querer trago-te comigo – naquele bolso desobediente onde me cabem os sonhos – aconchegado no peito.

[Jorge Palma]

^^

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

*Engano


"Eu já não choro enquanto engano o tempo. Se olhar para trás sem reparar com atenção nas minhas mãos vazias sei que - depois de tudo - consigo escrever palavras verdadeiras. São só uns dedos finos a quererem tocar-te. Umas mãos que te recordam à força de tanto serem apertadas. Se olhar para trás ainda tenho a música a despertar-me o sono e o teu carro à minha espera. Só não te tenho a ti. Tenho – imbuída – uma terna lembrança daquelas noites contigo. Ainda hoje quando sorrio – sem razão – olho em volta e espero reconhecer-te no meio da multidão. Mas tu nunca lá estás para me ver. Se olhar para trás corro o risco de me apaixonar cegamente mas sei que o meu caminho nunca foi traçado e também nunca te alcançou. Eu já não choro quando penso em ti. Tu – para mim – sempre foste as palavras bonitas. E se não há espaço na tua vida para mim eu não aguento fingir. Porque se olhar para trás sou uma folha em branco. Culpa minha, assumo. Recuso-me a ter um passado. Mas sobrou a música para me lembrar o quanto te quero. E essa será sempre a minha maldição. Tanto como escrever-te sem te sentir. És - no fim das contas - uma fraude piedosa a distrair-me de mim e dos dias sem cor que me perseguem."

[autor desconhecido]

^^

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

[...]

A sua infância foi um país ocupado por entidades detestáveis que impediam as árvores de lhe falar. (Mais tarde, na adolescência, imaginou que engravidara de um limoeiro – ou foi o perfume do seu sexo que o sonhou, ou foi o perfume do seu sexo que foi sonhado, talvez pelo limoeiro.)

Nunca pôde amuar, como as flores se fecham com a noite. Obrigavam-na a sorrir educada, perfiladamente, espetavam-lhe duas bofetadas e obrigavam-na a levantar a cabeça, a erguer os olhos pesados de choro, e a gordura das lágrimas caía-lhe pela face e ouvia-se no chão.

A sua infância é um país ocupado até hoje.

(A sua vida pareceu-lhe sempre uma longa convalescença. Ou qualquer coisa que lhe foi emprestada. Uma presença emprestada – para quê? A existência parecia-lhe apenas um estado sólido da tristeza mais absoluta. Ou talvez lhe faltasse apenas paciência para viver. Vive por engano? Se morreu, quer saber. Se vive, quer saber. Espera um sinal de si própria. Espera algo que, dentro dela, arda mais alto do que ela. Um signo que, ao erguer-se, toque e faça girar uma constelação.)

[Nuno Rocha Morais]


^^

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Cemitério dos Poetas...


Há pessoas que põem palavras nos nossos sentimentos. Parecem-se com os poetas. Mas depois, de surpresa, abandonam os nossos sonhos pé ante pé ou de pantufas. Não sei... Na verdade, decepcionam-nos (devagarinho) e, quando damos por isso, apagam-se dentro de nós. Deixam de ser preciosas e, por tudo o que valeram. Partem, portanto, para uma terra de ninguém, muito distante do sítio onde vivem os génios da lâmpada, o Pai Natal, as fadas e os duendes. E por lá ficam. Mais ou menos errantes.

Imagino esse lugar, onde se acotovelam tantas pessoas que nos disseram tanto, como um Purgatório, com a particularidade de lá não se ser promovido, com facilidade, até ao Céu. É verdade que essas pessoas não se transformam num inferno dentro de nós, embora, por vezes, surjam, ora como um vulto ora como uma silhueta ou, até mesmo, como uma estrela cadente que, atravessando o nosso coração, já não provoca um arrepio (muito menos, um calafrio, que são aqueles sentimentos impetuosos que nos desabotoam a cabeça e nos deixam a arder de paixão e a tremer de medo, ao mesmo tempo).

Afinal, não são nem amigos nem amores. Transformam-se num museu? Numa arqueologia de todos os amores, por exemplo? Às vezes, nem nisso. Infelizmente. Se fosse assim, estáticas ou em pequenos pedaços de histórias, empoeirados, seguravam-se no nosso coração. O que não acontece às pessoas que foram perdendo a magia...

Este não sei para onde (eu sei que, dito assim, custa só de pensar) é uma espécie de cemitério de poetas dentro de nós. Um lugar de silêncio que convida a espreitar para o que sentimos. Com surpresa e com dor, ao descobrirmos que, ao contrário do que sempre desejámos, há relações — luminosas — que foram morrendo para nós. Às vezes, assusta. Afinal, não é simpático descobrirmos que mora em nós alguém que, não sendo o Capitão Gancho, tenha ajudado a morrer (de inanição, por exemplo) quem trouxe poesia, ou luz, ou um insustentável rebuliço ao que sentimos... Às vezes, atormenta. Porque magoa descobrirmos que — mesmo quando nos imaginamos a dar a sala mais espaçosa do nosso coração — também nós, dentro de algumas, vivemos sem viver, errantes, nesse não sei onde de alguém, entre os seus amigos e os seus amores. Às vezes ainda, somos tocados pelos galanteios da vida e, levados pelo entusiasmo, imaginamos que, se desejarmos com muita força, algumas das pessoas que guardamos no nosso cemitério de poetas ressuscitam e regressam, cheias de luz, para surpresa do Pai Natal ou das fadas (que, sendo mágicos, parecem viver num mundo de bolas coloridas de sabão). Eu sei que também entre as pessoas há quem pareça mágico mas intocável. Como eles. Mas não se esqueça: esse é o cais de embarque que, de surpresa, nos pode levar (sem volta) para o cemitério dos poetas.

[Eduardo Sá]

^^

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Eu ouso a paixão
não a recuso

Escuto os sentidos sem o medo por perto
troco a ternura da rosa
ponho a onda no deserto

A tudo o que é impossível
abro e rasgo o coração
Debaixo coloco a mão
para colher o incerto

Desembuço o amor
no calor da emboscada
infrinjo regras e impeço

Troco o sonho dos deuses
por um pequeno nada

Desobedeço ao preceito
e desarrumo a paixão
Teço e bordo o meu avesso
e desacerto a razão

[Maria Teresa Horta]

^^

O que é esperança?


O que é a esperança? Um animal com penas, pensei. Preferia ser capaz de a descrever de um modo menos obtuso. Ser capaz de pôr num dia a eternidade a germinar lentamente, isso sim, seria uma das formas da esperança reconhecível.
Alguém, com passos ágeis, procura dominar o desgosto que nos trouxe a esta sala. Procura apaziguar a biologia, os fluxos e refluxos que a animam, a prometida destruição. Alguém vigia por turnos a instabilidade da vida. Tem por ofício prognósticos humildes, uma cronologia de sábios gestos que o uso torna incertos e verdadeiros ou verdadeiros e incertos (a ordem dos termos tornou-se arbitrária).
A esperança é uma hipótese que anotamos no caderno mais próximo, esse que está em cima da mesa aguardando uma visita de acaso.

[Luís Quintais]
^^

segunda-feira, 9 de novembro de 2009


... Acordas distante e próximo e cantas-me o cântico sem fundo...
E amo-te amo-te sem saber o objecto amado...
E contudo tudo é amor incoerente e real...
...
E eu sei o que é amar e ser amada meus olhos limpos
não dizem adeus...


[Matilde Rosa Araújo, Voz nua]


^^

domingo, 8 de novembro de 2009

Hoje é meu dia lá no Céu...

E hoje é um dia muito especial, teremos muitas comemorações, e um tema maravilhoso...


Você não vai ficar de fora dessa, vai?
Então, essas imagens são só uns aperitivos do rola lá no Céu...
http://aceuabertodaboca.blogspot.com/?zx=6ea98226b6d57164

^^

(...)

Te quiero a las diez de la mañana, y a las once, y a las doce del día. Te quiero con toda mi alma y con todo mi cuerpo, a veces, en las tardes de lluvia. Pero a las dos de la tarde, o a las tres, cuando me pongo a pensar en nosotros dos, y tú piensas en la comida o en el trabajo diario, o en las diversiones que no tienes, me pongo a odiarte sordamente, con la mitad del odio que guardo para mí.

Luego vuelvo a quererte, cuando nos acostamos y siento que estás hecha para mi, que de algún modo me lo dicen tu rodilla y tu vientre, que mis manos me convencen de ello, y que no hay otro lugar en donde yo me venga, a donde yo vaya, mejor que tu cuerpo. Tú vienes toda entera a mi encuentro, y los dos desaparecemos un instante, nos metemos en la boca de Dios, hasta que yo te digo que tengo hambre o sueño.

Todos los días te quiero y te odio irremediablemente. Y hay días también, hay horas, en que no te conozco, en que me eres ajena como la mujer de otro. Me preocupan los hombres, me preocupo yo, me distraen mis penas. Es probable que no piense en ti durante mucho tiempo. Ya ves. ¿Quién podría quererte menos que yo, amor mío?

[Jaime Sabines]


^^

♪ Vamos todos cantar de C♥ração... ♪


O meu Vascão está de volta à 1ª divisão, de onde nunca devia ter saído... 2010: o retorno.
Meu coração é só alegria!!!... tum, tum, tum, tum...

Por isso eu canto de felicidade:


Vamos todos cantar de cração
A Cruz de Malta é o meu pendão
Tu tens o nome de um heróico português
Vasco da Gama, a tua fama assim se fez

Tua imensa torcida é bem feliz
Norte e sul, norte e sul deste país
Tua estrela, na terra a brilhar
Ilumina o mar ...


^^

sábado, 7 de novembro de 2009


Falarei menos que um peixe, amor,
das líquidas emoções ou desejo serpenteado
sobre o que começa junto as rotas umbilicais.
Não me procures no rumo do vento
no cansaço da lua asfixiante, no mistério
ritmo da noite voltada para disponibilidade
de um sexo tecido de felicidade.
Diz-me com ternura imensa, a dor profana
a finitude do prazer de te descobrir
procuradamente na suavidade duma errância
com que te inicio no embrulho do teu calor
langoroso.
É um orvalho matinal que te rega
um suspiro húmido com sabor a algas
dos teus seios fugidios, ardente abandono
lascivo amanhecer.
Na carta que sustenta este ardor
sôfrego desejo me embala a fadiga
de te possuir com secreta evasão,
sentida excitação de me deixar aprisionar
no excesso fantasmagórico da sublimação
primitiva da vida e do amor que germina.

[Américo Teixeira Moreira, O corpo restituído]
^^

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O que me espanta
não é a morte
mas a vida, diga-se
a subvida da sobrevida.
O que me espanta
é a inércia do corpo
seu cego apetite
sob a alma inapetente.
O que me espanta
é o fôlego de fera
hibernando na crise
gelo sem primavera.
O que me espanta
é a resistência masoquista
que entre a ferida e o nada
do nada se acovarda
e resigna-se à ferida.

[Astrid Cabral]

^^

quinta-feira, 5 de novembro de 2009


Sinto falta de ti
do riso pelas tardes
(a tua boca um sol)
do sabor a maçã
(a tua língua um beijo)
do cheiro a malvasia
(o teu corpo um perfume)
do segredo de ficarmos calados
suspensos num olhar
a acender o rosto
a devorar a boca
a incendiar o corpo.

[Maria Aurora de Carvalho - Homem, Discurso amoroso]

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

*Solto-me ao passar pelo mundo*


Quando amanhece penso:
Encontro-te no vento
virás abraçar-me como os ramos da árvore
e chegaremos ao coração da cidade

Ao meio-dia sei:
A distância do meu corpo ao teu grito
corresponde à do teu sopro ao meu ouvido -
eis a anatomia do silêncio

De tarde fico exausta:
Circulo pelas ruas e roço-me nas praças

À noite adormecemos:
Será que te lembras? Será que me lembro?

Amanhã alegro-me de novo:
Imagino a floresta, parto o espelho
e recomeço a ir ao teu encontro.

[Teresa Balté]

^^