Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

De frente para o espelho
em pequenos gestos de algodão,
tiro a maquilhagem gasta de um dia gasto.
desfaço-me em cuidados e acabo a
derramar o que existe por dentro dos olhos.
dispo a roupa suja no meu quarto sujo.
sem cuidados, atiro-a para o chão.
deixo as feridas expostas, pode ser que sarem
amparadas pela noite.
deito-me a esperar um sono nu.
acordo com as pálpebras inchadas.
[Michael Grey]
^^

Mi táctica



Mi táctica es
mirarte
aprender como sos
quererte como sos

mi táctica es
hablarte
y escucharte
construir con palabras
un puente indestructible

mi táctica es
quedarme en tu recuerdo
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
pero quedarme con vos

mi táctica es
ser franco
y saber que sos franca
y que no nos vendamos
simulacros
para que entre los dos
no haya telón
ni abismos

Mi estrategia es
en cambio
más profunda y más
simple

Mi estrategia es
que un día cualquiera
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
por fin me necesites.

[Mario Benedetti]

^^




terça-feira, 3 de novembro de 2009

Aqueles que têm nome e nos telefonam
um dia emagrecem - partem
deixam-nos dobrados ao abandono
no interior duma dor inútil muda
e voraz.

Arquivamos o amor no abismo do tempo
e para lá da pele negra do desgosto
pressentimos vivo
o passageiro ardente das areias - o viajante
que irradia um cheiro a violetas nocturnas

Acendemos então uma labareda nos dedos
acordamos trêmulos confusos - a mão queimada
junto ao coração.

E mais nada se move na centrifugação
dos segundos - tudo nos falta.

Nem a vida nem o que dela resta nos consola
e a ausência fulgura na aurora das manhãs
e com o rosto ainda sujo de sono ouvimos
o rumor do corpo a encher-se de mágoa.

Assim guardamos as nuvens breves os gestos
os invernos o repouso a sonolência
o vento
arrastando para longe as imagens difusas
daqueles que amámos mas não voltaram
a telefonar.

[Al Berto]

^^

O meu Quarto Interior


Este Estio foi diferente de tudo quanto ela pudesse recordar. Não que lhe acontecessem muitas coisas dignas de evocar em pensamentos ou palavras – era antes uma sensação de mudança. Andava sempre excitada. De manhã, impaciente por pular da cama abaixo e dar começo ao dia. E à noite, detestava a ideia de ter de voltar para a cama. (...) Mas – fizesse o que fizesse – a música nunca a largava. Umas vezes trauteava entre dentes, a andar; outras escutava, calada, as melodias que lhe subiam de dentro. Havia música de toda a espécie nos seus pensamentos. Uma parte que ela tinha ouvido na telefonia, outra que trazia em mente sem que a tivesse ouvido em parte alguma. À noite, tão depressa os irmãozitos iam para a cama, ela ficava livre. Era a melhor parte do seu dia. Quando andava sozinha e no escuro aconteciam muitas coisas. Logo depois da ceia corria para fora de casa. Não podia falar a ninguém do que fazia à noite, e quando a mãe a interrogava, ela respondia com a primeira história que parecesse verosímil. Mas a mor parte das vezes, se alguém a chamava, fugia como se não ouvisse. (...) As noites estavam prodigiosas e nem tempo havia para pensar em medos. Quando se via na escuridão, era na música que ela pensava. Andando pelas ruas cantava para si própria. E era como se a cidade inteira escutasse aquela voz, sem saber que era a voz de Mick Kelly. Aprendeu muita coisa a respeito de música naquelas noites estivais de liberdade. Nos bairros ricos da cidade, onde passeava, todas as casas tinham rádio. Com as janelas abertas, podia-se ouvir da rua que era uma maravilha. Passado tempo até já conhecia quais as casas que sintonizavam para os programas que ela gostava de ouvir. Essa foi a parte mais real e autêntica de todo esse Verão, escutar a música dos rádios e ficar sozinha em trevas a meditá-la. (...) Mick sentou-se nos degraus e pousou a cabeça nos joelhos. Depois entrou no Quarto Interior. Para ela era como se houvesse dois quartos – o interior e o exterior. A escola e a família e as coisas que aconteciam todos os dias pertenciam ao quarto de fora. Mister Singer estava em ambos. Os países estrangeiros, a música e os planos e projectos pertenciam ao Quarto Interior. E as canções em que ela pensava também. E a Sinfonia. Quando ela estava sozinha no Quarto Interior voltava-lhe à memória a música que tinha ouvido durante a noite da festa. Era como uma grande flor que se abria dentro dela. Durante o dia, por vezes, ou quando acabava de acordar, pela manhã, vinha-lhe de repente à lembrança um novo trecho da Sinfonia. Então tinha que ir para o Quarto Interior e escutá-la muitas vezes para tentar juntar esse trecho aos que já tinha de memória. O Quarto Interior era um lugar inteiramente privado, só dela. Podia estar no meio duma sala de gente e ainda assim fazer de conta que estava fechada à chave por dentro.

[Carson McCullers]

^^

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

*

Vem embora comigo, disse ele, vamos viver numa ilha deserta.
Eu disse, eu sou uma ilha deserta.
Não era o que ele tinha em mente.

[Margaret Atwood]

^^

Minhas mãos

.
Minhas mãos não são minhas mãos
são pássaros rasando a tua pele nua
.
.
são voos planados descobrindo céus
imagens loucas de total candura
.
.
.
Minhas mãos somente
inventam barcos e partem à procura
das tuas mãos nas minhas.

[Bernardete Costa]

^^

domingo, 1 de novembro de 2009

"...Mudar de Céu, Mudar de Ar..."

Anda, vem jantar, vem comer, vem beber, farrear
Até chegar lumiar
E depois deitar no sereno
Só pra poder dormir e sonhar
Pra passar a noite
Caçando sapo
Contando caso
De como deve ser lumiar

Acordar lumiar sem chorar, sem falar, sem querer
Acordar em lumiar
Levantar e fazer café
Só pra sair, caçar e pescar
E passar o dia
Moendo cana
Caçando lua
Clarear de vez lumiar

Amor lumiar pra viver, pra gostar, pra chover
Pra tratar de vadiar
Descansar os olhos, olhar e ver
E respirar
Só pra não ver o tempo passar
Pra passar o tempo
Até chover
Até lembrar
De como deve ser lumiar

Anda, vem jantar, vem dormir, vem sonhar pra viver
Até chegar lumiar
Estender o Sol na varanda até queimar
Só pra não ter mais nada a perder
Pra perder o medo
Mudar de céu
Mudar de ar
Clarear de vez lumiar

[Composição: Beto Guedes]

^^

sábado, 31 de outubro de 2009

Semana que Vem

Amanhã eu vou revelar
Depois eu penso em aprender
Daqui a uns dias eu vou dizer
O que me faz querer gritar
Aaaahhhhhh!!

Não deixe nada pra depois
Não deixe o tempo passar
Não deixe nada
Pra semana que vem
Porque semana que vem
Pode nem chegar

Esse pode ser o último dia
De nossas vidas
Última chance de fazer
Tudo ter valido a pena

Diga sempre tudo
O que precisa dizer
Arrisque mais
Pra não se arrepender
Nós não temos
Todo tempo do mundo
E esse mundo
Já faz muito tempo...

O futuro, o presente
E o presente já passou...
O futuro, o presente
O presente já passou...

[Composição: Pitty]

^^

*Eu

"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo..."

[Raul Seixas]
^^

sexta-feira, 30 de outubro de 2009



Afundei-me na banheira e descobri que as lágrimas
não se misturam com a água quente perfumada
com sais de banho... a espuma fica por cima e as
lágrimas caem como pedras em charcos de água.
A água quente a correr na banheira não me aquece.
Se o meu coração for já uma pedra vou ao fundo
e sei que não me ouvirás chorar por ti.




[Felisbela Fonseca]

^^

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

(...)


Vens de repente com a voracidade
de um pássaro nocturno que não chamei
e a porta fecha-se sobre as minhas ancas
e a noite bebe o hálito que largas na minha pele
enquanto os espelhos escondem o rasto
de todos os segredos que guardavas

Por momentos o amor desenha-se desta única maneira
mas eu sei que és apenas um inquilino temporário
habitando o meu corpo as horas que roubaste
em ondas de culpa e sombra

E sei também que hás-de sair de mim
como de um povo inimigo
procurando um gesto de perdão que não existe
e o amor torna-se subitamente num lugar incómodo
tenho pressa dirás tenho pressa
e a noite fecha-se do lado dos dedos
que procuram ainda o lugar do sono

Fica comigo peço mas tu não me ouves
e eu sei que vou voltar a esperar por ti na vida que me resta
e em todas as vidas e em todas as mortes
até ao dia em que difinitivamente
despeças o teu corpo do meu
e eu repita fica comigo e tu
desapareças

Como quem esteve só à espera
de ventos favoráveis

[Alice Vieira]
^^

quarta-feira, 28 de outubro de 2009


Quero definir-te o que é este sentimento: o que pertence à esfera daquilo que a razão não domina, ou simplesmente nasce da noite, e de tudo o que a envolve. Falo de uma íntima relação entre os seres, de emoções que se transmitem para além de palavras e conceitos, de um encontro de corpos na esfera do segredo.

Dir-me-ás: "Para que precisas de uma explicação para o amor?"
Mas é a sua inutilidade que me interessa; a dádiva, o simples dizer que as coisas são assim porque são, e para além disso tudo se complica. Podes, então, rir do que te digo; ou simplesmente dizer-me que as palavras nada substituem, e que tudo o que elas nos dão está a mais. Mas o amor pertence-nos. Não o podemos deitar fora; nem fingir que não existe, como não existe
o infinito, a transcendência, a abstracção divina, para quem só crê no concreto. É verdade que o amor não se vê: o que vejo são os teus olhos, a ternura súbita das suas pálpebras, e o que elas abrem e escondem numa hesitação de luz.

Eis, então, o que define este sentimento: um intervalo, uma distracção do tempo, a divina abstracção do infinito na transcendência do real.

[Nuno Júdice]

^^

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A tua Ausência


Pelas paredes cheira ainda à tua pele cutânea.

Mas desde que te foste
estar aqui é oco, cansativo, uma espera.
E às vezes
(como se tivéssemos chorado)
respirar custa.

Sobretudo nada apetece.
Sair para a rua? Ir então em frente a repetir os passos
passear nas avenidas a espaçar as horas
dispersar a espera?

Tudo cinzento. Choverá?
Aqui é que não fico. No quarto onde dormimos
o espaço sobra, e cada coisa já morreu ou está a mais.

Em toda a casa uma violência subterrânea:
a tua ausência.


[João Habitualmente]
^^

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O teu abraço cala-me as maiores tristezas...


O teu abraço cala-me as maiores tristezas. Não há silêncio meu que te assuste nem suspiro algum que não saibas de cor. Contigo não preciso esconder o medo. Muito menos fingir. Posso encolher-me no teu peito e deixar cair todas as lágrimas: irás secá-las com beijos. É assim que gosto de respirar o teu cheiro: encostada a ti. Não quero que me enchas de sonhos – sabes bem que os tenho comigo se não tos conto. Basta-me saber quanto os respeitas e estou certa de que continuaremos a não saber dançar a mesma canção. Mas eu só preciso que tu me entendas. Que continues a admirar-me a transparência e os olhos brilhantes. Que passeies comigo de mão dada à beira daquele jardim e me puxes para ti quando me julgares perdida. Eu não posso perder-te de vista. Não quero. Porque preciso de ti: tu sabes. Será por isso que não vais embora? Não foges e nem sequer te acobardas. Ficas sempre do outro lado do espelho pronto a alertar-me ao mínimo sinal de emergência. A poesia dentro de ti – ainda que duvides disso – faz-se de verdade e coragem. Não te sabes escrever de outra maneira. Não é necessário. Eu agradeço baixinho a seguir-te de perto e a pensar para mim que és a pessoa mais especial que conheço.


[mãos dadas e jardins ao sol]

^^

domingo, 25 de outubro de 2009

Um dia desses...


Um dia desse
Num desses
Encontros casuais
Talvez a gente
Se encontre
Talvez a gente
Encontre explicação...
Um dia desses
Num desses
Encontros casuais
Talvez eu diga:
-Meu amigo
Pra ser sincera
Prazer em vê-lo!
Até mais!...
[Trecho da música: Pra ser Sincero]
[Composição: Humberto Gessinger]
De qualquer modo dança,
De qualquer modo sente.
De qualquer modo o corpo contém o dia.
De qualquer modo as cores e o músculo.
De qualquer modo o coração.
De qualquer modo sempre no fundo a memória.
De qualquer modo sem teorias.
De qualquer modo com a teoria da poética que é não existir teoria e
só existir poética
De qualquer modo a ciência atrapalha um pouco mas não totalmente.
De qualquer modo curiosidade.
De qualquer modo coleccionar montanhas.
De qualquer modo acabar quando o ritmo exige que se continue
O ritmo exige coisas que não devemos aceitar obedecer ser escravos.

[Gonçalo M. Tavares]
^^

sábado, 24 de outubro de 2009

Vem comigo, vem?





Tenho um lugarzinho divinamente bonito para te mostrar. Um lugar muito escondido, tal como um pensamento se esconde dentro de um pensamento, na floresta verde, modesta, silenciosa. Uma ravina amena e branda aonde nunca ninguém vai.
É um lugar tão quente, enterrado por entre as árvores, tão docemente oculto, é aí que imagino que gostaria de te beijar, com beijos íntimos, brandos, doces e demorados, com beijos que proíbem todas as palavras, mesmo as mais belas e mais perfeitas.
É um lugar tão delicado e remoto que não vem mencionado em nenhum guia de viagens. Um pequeno trilho, serpenteando por entre a vegetação espessa, conduz à ravina, ao lugar fabuloso onde te quero mostrar, a ti, quanto te amo, onde quero prestar o meu culto, a ti, meu anjo.
Neste pequeno reduto, os braços entrelaçam-se como se tivessem vontade própria, e os lábios tocam-se como se tivessem vontade própria.
Não sabes ainda como eu beijo bem...
Vem então ao lugar onde nada existe para além do restolhar amável das árvores altas, aí ficarás a saber. Não direi uma palavra, e também tu não dirás uma palavra, ficaremos os dois em silêncio, só as folhas murmurarão levemente e a luz doce do sol irromperá através das graciosas ramadas.
Oh, como será mudo, como será mudo o momento em que os nossos lábios se juntarão com fome e sede amorosa, como será doce o momento em que nos amaremos na ravina silenciosa e amável. Amar-nos-emos e trocaremos carícias até que chegue a noite, e com ela as estrelas com brilho de prata e a divina lua. Nada teremos a dizer um ao outro, pois tudo será apenas um beijo, um beijo infinito, continuado, arrebatador, por horas e horas a fio. Quem quer amar já não quer falar, pois quem quer falar já não quer amar. Oh, vem comigo ao lugar sagrado e oculto da acção, ao lugar da prática, onde tudo se perde em concretização, onde tudo se afoga e morre no amor. Os pássaros cantarão à nossa volta com chilreios alegres, e à noite seremos rodeados por um silêncio divino. Aquilo a que chamam mundo ficará atrás das nossas costas, e nós os dois, cativos do desejo, seremos filhos da terra e sentiremos o que é viver, sentiremos o que é existir. Quem não ama não existe, não está aqui, está morto. Quem tem vontade de amar levanta-se dos mortos, e só quem ama está vivo.

[Robert Walser]

^^

sexta-feira, 23 de outubro de 2009


Uma aragem, leve depois de um dia
de multo calor.
Faltei ao emprego,
não fiz os deveres, não olhei para diante
nem para o lado, não fui
ao supermercado, não fiz
nem refiz abandonos.

Fiz de acaso, de imprevisto, não fui
à janela, não olhei o mar,
hoje, fiz todo o dia,
só isto.

[Helga Moreira]
^^

De ser o som do amor tão enleado
em cristalinas veias,
em palavras suaves, em recantos
que são gestos bem vivos e são letras
de irradiante lume,
havia este destino que era um lábio
a arder na vastidão de descobrir
o lugar onde ardia este esperar-te.

[João Rui de Sousa, Obra poética]

^^

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Mulher gorda na janela


Não há pressa nos seus olhos,
apenas o costume de estar só.
O seu olhar fixa as marcas que deixam os carros,
atenta em vão
ao que falta.
Apoia a cara no vidro frio
e repousa.
Olha as suas mãos redondas, pequenas,
toca nos seus seios grandes e quentes,
pensa nos seus pés e sorri maternalmente.
Corpulenta e doce como uma boa sopa,
murmura,
e no entanto está só.
Sabe que está fora mas não sabe de quê.
Ninguém percebe a sua paixão
pesada e gorda na janela.

[Beatriz Novaro]

^^