Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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terça-feira, 15 de setembro de 2009



As frésias desprendem o perfume
ao fim da tarde. Nesta casa
está tudo limpo e silencioso.
Sentada no sofá escrevo
ao pensar que te entreguei
o meu nome, alguma biografia,
a intimidade.

O sol vai e vem, conforme
as nuvens permitem. Sinto-me
talvez cansada, exausta
de desgosto pela tua partida.
Há um torpor, uma sonolência
e as minhas canetas,
o caderno. O amor sempre
presente.
Não devia lamentar-me,
tenho tudo e, no entanto,
ficou-me um buraco negro
no coração.

[Isabel de Sá, Repetir o poema]

^^

domingo, 13 de setembro de 2009


Não há castigo infinito. Não há dor infinita.
Um dia a gente termina para começar,
começa para terminar,
refaz o percurso como se nada tivesse acontecido antes.
Deixe-me apenas uma cadeira de palha,
para olhar com piedade o que fui
e me deslumbrar com as ruínas.

[Fabricio Carpinejar]

^^

Cada dia tenho menos uma letra,
uma boca e a mão para a dizer.
Fui colhendo a noite, palavras surdas,
o silêncio que a morte continua
sob a pele da madrugada.
Cada dia tenho menos um coração,
menos uma noite. Resta-me a memória
de abril dentro um copo de esquecimento,
o fundo da liberdade
que alguém bebeu de nós:
a canção morena da alegria,
o cravo ao rubro de fundir a paz.
Menos uma boca, uma criança
alada. Menos uma cidade onde a esperança
se cola ao rosto. Os meus passos presos
ao chão são menos o olhar que a manhã
oferece. Mas era uma vez e aconteceu
um dia, em todos os outros desse dia,
por muito tempo e ainda agora:
acordar, pôr o café na chávena
e barrar o pão com a liberdade.

[Rosa Alice Branco]

^^


Eu perco o sono e choro
Sei que quase desespero
Mas não sei por quê

A noite é muito longa,
Eu sou capaz de certas coisas
Que eu não quis fazer.

Será que alguma coisa,
Nisso tudo faz sentido?
A vida é sempre um risco,
Eu tenho medo do perigo.


Lágrimas e chuva
Molham o vidro da janela
Mas ninguém me vê
O mundo é muito injusto
Eu dou plantão nos meus problemas
Que eu quero esquecer

Será que existe alguém
Ou algum motivo importante
Que justifique a vida
Ou pelo menos este instante?


Eu vou contando as horas
E fico ouvindo passos
Quem sabe o fim da história
De mil e uma noites
De suspense no meu quarto.

[Kid Abelha]

^^

sábado, 12 de setembro de 2009



E quando a noite chega ao fim,
na hora funesta das putas e dos bêbados,
dos marginais, dos vagabundos;

quando chega a hora azeda da ressaca,
a boca amarga, o peito oprime,
o mundo todo é uma merda;

quando chega essa hora funesta,
fantasmas povoam as ruas,
o primeiro autocarro não vem,
barcos sonâmbulos perdem o cais,
a noite já não é noite
e a manhã indecisa não desponta

- ainda te amo mais, e mais, e mais,
desesperadamente, sem peso nem conta.

[José Carlos de Vasconcelos, Repórter do coração]


^^

*Água água


Menina sublunar, afogada,
que voz de prata te embala
toda desfolhada?

Tendo como um só adorno
o anel de seus vestidos,
ela própria é quem se encanta
numa canção de acalanto
presa ainda na garganta

[Olga Savary]

^^


Tinhas a pele arrepiada pelo sentimento. Os olhos rasos de contentamento. A vida trazias nas mãos abertas. E o fruto do nosso encontro era uma alma cheia de presente, sem medo do futuro e sem necessidade de olhar o passado.
Querias-me assim como eu te queria. Eternamente. Que era o mesmo que dizer, enquanto durasse. O nosso eterno era o momento, pleno, e não havia promessas feitas ao entardecer. O que dávamos estava em todos os gestos, em todos os olhares, no encontrar dos corpos. Nada de planos para o futuro, nada de palavras vãs para encher o vazio. Não existia o vazio.
Mas quando olhávamos para nós sentimo-nos cheios de mais. A sonhar o que não podíamos ter uma vida inteira. Não acreditávamos que a vida se desse assim, como uma fruta fresca em pleno verão. Estranho o destino humano. Tudo o que é bom demais faz-nos afastar, evitar. Nem sequer tocamos com o medo de estragar. Para que nada mude, não chegamos a viver tudo o que se oferece aos nossos olhos. E partimos antes mesmo de chegar.

[Ana Teresa Silva]

^^

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Jeito De Mato

De onde é que vem esses olhos tão tristes?
Vem da campina onde o sol se deita.
Do regalo de terra que teu dorso ajeita.
E dorme serena, no sereno e sonha.

De onde é que salta essa voz tão risonha?
Da chuva que teima, mas o céu rejeita.
Do mato, do medo, da perda tristonha.
Mas, que o sol resgata, arde e deleita.

Há uma estrada de pedra que passa na fazenda.
É teu destino, é tua senda.
Onde nascem tuas canções.
As tempestades do tempo que marcam tua história
Fogo que queima na memória
E acende os corações.

Sim, dos teus pés na terra nascem flores.
A tua voz macia aplaca as dores
E espalha cores vivas pelo ar.
Sim, dos teus olhos saem cachoeiras.
Sete lagoas, mel e brincadeiras.
Espumas, ondas, águas do teu mar...

[Paula Fernandes]

^^

Sobre esta página escrevo
teu nome que no peito trago escrito
laranja verde limão
amargo e doce o teu nome.

Sobre esta página escrevo
o teu nome de muitos nomes feito água e fogo lenha vento
primavera pátria exílio.

Teu nome onde exilado habito e canto mais do que nome: navio
onde já fui marinheiro
naufragado no teu nome.

Sobre esta página escrevo o teu nome: tempestade.
E mais do que nome: sangue. Amor e morte. Navio.

Esta chama ateada no meu peito
por quem morro por quem vivo este nome rosa e cardo
por quen livre sou cativo.

Sobre esta página escrevo o
teu nome: liberdade.

[Manuel Alegre, A Praça da Canção]

^^

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Ar Livre

Marco Guerra
A menina translúcida passa.
Vê-se a luz do sol dentro dos seus dedos.
Brilha em sua narina o coral do dia.

Leva o arco-íris em cada fio do cabelo.
Em sua pele, madrepérolas hesitantes
pintam leves alvoradas de neblina.

Evaporam-se-lhe os vestidos, na paisagem.
É apenas o vento que vai levando seu corpo pelas alamedas.
A cada passo, uma flor, a cada movimento, um pássaro.

E quando para na ponte, as águas todas vão correndo,
em verdes lágrimas para dentro dos seus olhos.

[Cecília Meireles]

^^

terça-feira, 8 de setembro de 2009


Estas serão as minhas últimas palavras aos teus sentidos,
serão o meu apelo derradeiro.
Tanto te disse, tanto te escrevi!
Como encontrar agora o período preciso, a perfeita expressão,
para te revelar este silêncio estranho que me começa a ungir
o exausto coração?!
Vieste-me na hora dadivosa, na hora imortal
da frutificação:
dei-te toda a doçura dos meus pomos
e voltaste-me as costas com prazer...
Mas eu bendigo essa tua fome
que saboreou os frutos que haviam de mais tarde apodrecer.
Foste a montanha azul que me atraiu os passos;
em cujas arestas agressivas
rasguei meus sonhos,
despenhando-me...

Porém, daqui, da alfombra deste
vale de desfalecimento,
como teus longes me seduzem ainda,
como me apareces belo,
que saudade de ti,
minha montanha azul!
Sou olhos e não tenho visão;
sou boca e tudo me parece insípido;
e meu tato não sente
os espinhos que colhe
na solidão em que me deixaste;
e em vão as rosas da primavera
abrem os lábios
ao meu olfato.

Só a tua lembrança
conserva vivo
um pouco de meu ser.

Só a tua saudade
prende-me ainda
à beleza da vida.

Onde estás?!
Onde estou?!

Sou um corpo
que espera a alma
para acabar de morrer.

[Gilka Machado]

^^

segunda-feira, 7 de setembro de 2009


Miras, con ojos luminosos,
mientras hablo, mis ojos. Los cabellos
son fuego y seda,
y el rosa laberinto del oído
desvaría en la noche,
acepta las razones que doy sobre una vida
que ha perdido la dicha y su mejor edad.
¿Cómo me ven tus ojos? Yo sé, porque estás cerca,
que mis labios sonríen,
y hay en mí delirante juventud.
Inocente me miras, y no quiero saber
si soy el más dichoso hipócrita.
Sería pervertirte decir
que quien ha envejecido es traidor,
pues ha dado la vida
o dado el alma,
no sólo por placer, también por tedio,
o por tranquilidad;
muy pocas veces por amor.

He acercado mis labios a los tuyos,
en su fuego he dejado mi calor,
y emboscado en la noche
iba espiando en ti vejez y desengaño.

[Francisco Brines]

^^

Eu não existo sem você


Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham pra você

Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
Eu não existo sem você

[Vinícius de Moraes]

^^

domingo, 6 de setembro de 2009

Sutilmente


E quando eu estiver
Triste
Simplesmente
Me abrace


E quando eu estiver
Louco
Subitamente
Se afaste


E quando eu estiver
Fogo
Suavemente
Se encaixe...


E quando eu estiver
Triste
Simplesmente
Me abrace


E quando eu estiver
Louco
Subitamente
Se afaste


E quando eu estiver
Bobo
Sutilmente
Disfarce...


Mas quando eu estiver
Morto
Suplico que não me mate não
Dentro de ti
Dentro de ti...


Mesmo que o mundo
Acabe enfim
Dentro de tudo
Que cabe em ti .



[Samuel Rosa]

^^

Coloquemos um lenço sobre o rosto. Não para o ocultar mas para que fique mais nítido o que vemos. Essa há-de ser a margem das nossas feições, a sua mais próxima brancura. A respiração nem o toca sequer. Outra brisa começava a atravessar o peito. Ela vem agora ao nosso encontro sem qualquer ruido, como se as mesmas folhas estivessem ausentes. Sabemos há muito que é assim. Depois o silêncio chega, porque foi sempre a ele que estas vozes pertenceram.

[Fernando Guimarães]
^^

*Nem sei bem se sou eu quem em mim sente...


Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.
.
O ar que respiro, este licor que bebo,
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.
.
Nem nunca, propriamente reparei,
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? Serei
.
Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.
.
.
[Álvaro de Campos]

^^

Domingo Irei

Domingo irei para as hortas na pessoa dos outros,
Contente da minha anonimidade.
Domingo serei feliz — eles, eles...
Domingo...
Hoje é quinta-feira da semana que não tem domingo...
Nenhum domingo. —
Nunca domingo. —
Mas sempre haverá alguém nas hortas no domingo que vem.
Assim passa a vida,
Sutil para quem sente,
Mais ou menos para quem pensa:
Haverá sempre alguém nas hortas ao domingo,
Não no nosso domingo,
Não no meu domingo,
Não no domingo...
Mas sempre haverá outros nas hortas e ao domingo!

[Álvaro de Campos]

^^

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

*Sobre a Minha Incapacidade de Expressão:

Hone

'É tudo aquilo que temos. Momentos com aqueles que amamos. (...)
estendemos as mãos e, às vezes, contra todas as possibilidades,
contra toda a lógica, tocamo-nos'
.
.
.
[Anatomia de Grey]
.
.
.
.
Talvez o amor não seja mais do que um certo silêncio.
os teus passos ao lado dos meus,
um fim de tarde num jardim do Porto,
confissões gravadas em troncos de árvores
e a certeza de que se da minha boca fechada há muito tempo
não ouves a palavra, posso ao menos desenhá-la nas tuas costas
enquanto me abraças e olhamos o rio em frente.
^^