Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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sábado, 12 de setembro de 2009



Tinhas a pele arrepiada pelo sentimento. Os olhos rasos de contentamento. A vida trazias nas mãos abertas. E o fruto do nosso encontro era uma alma cheia de presente, sem medo do futuro e sem necessidade de olhar o passado.
Querias-me assim como eu te queria. Eternamente. Que era o mesmo que dizer, enquanto durasse. O nosso eterno era o momento, pleno, e não havia promessas feitas ao entardecer. O que dávamos estava em todos os gestos, em todos os olhares, no encontrar dos corpos. Nada de planos para o futuro, nada de palavras vãs para encher o vazio. Não existia o vazio.
Mas quando olhávamos para nós sentimo-nos cheios de mais. A sonhar o que não podíamos ter uma vida inteira. Não acreditávamos que a vida se desse assim, como uma fruta fresca em pleno verão. Estranho o destino humano. Tudo o que é bom demais faz-nos afastar, evitar. Nem sequer tocamos com o medo de estragar. Para que nada mude, não chegamos a viver tudo o que se oferece aos nossos olhos. E partimos antes mesmo de chegar.

[Ana Teresa Silva]

^^

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Jeito De Mato

De onde é que vem esses olhos tão tristes?
Vem da campina onde o sol se deita.
Do regalo de terra que teu dorso ajeita.
E dorme serena, no sereno e sonha.

De onde é que salta essa voz tão risonha?
Da chuva que teima, mas o céu rejeita.
Do mato, do medo, da perda tristonha.
Mas, que o sol resgata, arde e deleita.

Há uma estrada de pedra que passa na fazenda.
É teu destino, é tua senda.
Onde nascem tuas canções.
As tempestades do tempo que marcam tua história
Fogo que queima na memória
E acende os corações.

Sim, dos teus pés na terra nascem flores.
A tua voz macia aplaca as dores
E espalha cores vivas pelo ar.
Sim, dos teus olhos saem cachoeiras.
Sete lagoas, mel e brincadeiras.
Espumas, ondas, águas do teu mar...

[Paula Fernandes]

^^

Sobre esta página escrevo
teu nome que no peito trago escrito
laranja verde limão
amargo e doce o teu nome.

Sobre esta página escrevo
o teu nome de muitos nomes feito água e fogo lenha vento
primavera pátria exílio.

Teu nome onde exilado habito e canto mais do que nome: navio
onde já fui marinheiro
naufragado no teu nome.

Sobre esta página escrevo o teu nome: tempestade.
E mais do que nome: sangue. Amor e morte. Navio.

Esta chama ateada no meu peito
por quem morro por quem vivo este nome rosa e cardo
por quen livre sou cativo.

Sobre esta página escrevo o
teu nome: liberdade.

[Manuel Alegre, A Praça da Canção]

^^

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Ar Livre

Marco Guerra
A menina translúcida passa.
Vê-se a luz do sol dentro dos seus dedos.
Brilha em sua narina o coral do dia.

Leva o arco-íris em cada fio do cabelo.
Em sua pele, madrepérolas hesitantes
pintam leves alvoradas de neblina.

Evaporam-se-lhe os vestidos, na paisagem.
É apenas o vento que vai levando seu corpo pelas alamedas.
A cada passo, uma flor, a cada movimento, um pássaro.

E quando para na ponte, as águas todas vão correndo,
em verdes lágrimas para dentro dos seus olhos.

[Cecília Meireles]

^^

terça-feira, 8 de setembro de 2009


Estas serão as minhas últimas palavras aos teus sentidos,
serão o meu apelo derradeiro.
Tanto te disse, tanto te escrevi!
Como encontrar agora o período preciso, a perfeita expressão,
para te revelar este silêncio estranho que me começa a ungir
o exausto coração?!
Vieste-me na hora dadivosa, na hora imortal
da frutificação:
dei-te toda a doçura dos meus pomos
e voltaste-me as costas com prazer...
Mas eu bendigo essa tua fome
que saboreou os frutos que haviam de mais tarde apodrecer.
Foste a montanha azul que me atraiu os passos;
em cujas arestas agressivas
rasguei meus sonhos,
despenhando-me...

Porém, daqui, da alfombra deste
vale de desfalecimento,
como teus longes me seduzem ainda,
como me apareces belo,
que saudade de ti,
minha montanha azul!
Sou olhos e não tenho visão;
sou boca e tudo me parece insípido;
e meu tato não sente
os espinhos que colhe
na solidão em que me deixaste;
e em vão as rosas da primavera
abrem os lábios
ao meu olfato.

Só a tua lembrança
conserva vivo
um pouco de meu ser.

Só a tua saudade
prende-me ainda
à beleza da vida.

Onde estás?!
Onde estou?!

Sou um corpo
que espera a alma
para acabar de morrer.

[Gilka Machado]

^^

segunda-feira, 7 de setembro de 2009


Miras, con ojos luminosos,
mientras hablo, mis ojos. Los cabellos
son fuego y seda,
y el rosa laberinto del oído
desvaría en la noche,
acepta las razones que doy sobre una vida
que ha perdido la dicha y su mejor edad.
¿Cómo me ven tus ojos? Yo sé, porque estás cerca,
que mis labios sonríen,
y hay en mí delirante juventud.
Inocente me miras, y no quiero saber
si soy el más dichoso hipócrita.
Sería pervertirte decir
que quien ha envejecido es traidor,
pues ha dado la vida
o dado el alma,
no sólo por placer, también por tedio,
o por tranquilidad;
muy pocas veces por amor.

He acercado mis labios a los tuyos,
en su fuego he dejado mi calor,
y emboscado en la noche
iba espiando en ti vejez y desengaño.

[Francisco Brines]

^^

Eu não existo sem você


Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham pra você

Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
Eu não existo sem você

[Vinícius de Moraes]

^^

domingo, 6 de setembro de 2009

Sutilmente


E quando eu estiver
Triste
Simplesmente
Me abrace


E quando eu estiver
Louco
Subitamente
Se afaste


E quando eu estiver
Fogo
Suavemente
Se encaixe...


E quando eu estiver
Triste
Simplesmente
Me abrace


E quando eu estiver
Louco
Subitamente
Se afaste


E quando eu estiver
Bobo
Sutilmente
Disfarce...


Mas quando eu estiver
Morto
Suplico que não me mate não
Dentro de ti
Dentro de ti...


Mesmo que o mundo
Acabe enfim
Dentro de tudo
Que cabe em ti .



[Samuel Rosa]

^^

Coloquemos um lenço sobre o rosto. Não para o ocultar mas para que fique mais nítido o que vemos. Essa há-de ser a margem das nossas feições, a sua mais próxima brancura. A respiração nem o toca sequer. Outra brisa começava a atravessar o peito. Ela vem agora ao nosso encontro sem qualquer ruido, como se as mesmas folhas estivessem ausentes. Sabemos há muito que é assim. Depois o silêncio chega, porque foi sempre a ele que estas vozes pertenceram.

[Fernando Guimarães]
^^

*Nem sei bem se sou eu quem em mim sente...


Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.
.
O ar que respiro, este licor que bebo,
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.
.
Nem nunca, propriamente reparei,
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? Serei
.
Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.
.
.
[Álvaro de Campos]

^^

Domingo Irei

Domingo irei para as hortas na pessoa dos outros,
Contente da minha anonimidade.
Domingo serei feliz — eles, eles...
Domingo...
Hoje é quinta-feira da semana que não tem domingo...
Nenhum domingo. —
Nunca domingo. —
Mas sempre haverá alguém nas hortas no domingo que vem.
Assim passa a vida,
Sutil para quem sente,
Mais ou menos para quem pensa:
Haverá sempre alguém nas hortas ao domingo,
Não no nosso domingo,
Não no meu domingo,
Não no domingo...
Mas sempre haverá outros nas hortas e ao domingo!

[Álvaro de Campos]

^^

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

*Sobre a Minha Incapacidade de Expressão:

Hone

'É tudo aquilo que temos. Momentos com aqueles que amamos. (...)
estendemos as mãos e, às vezes, contra todas as possibilidades,
contra toda a lógica, tocamo-nos'
.
.
.
[Anatomia de Grey]
.
.
.
.
Talvez o amor não seja mais do que um certo silêncio.
os teus passos ao lado dos meus,
um fim de tarde num jardim do Porto,
confissões gravadas em troncos de árvores
e a certeza de que se da minha boca fechada há muito tempo
não ouves a palavra, posso ao menos desenhá-la nas tuas costas
enquanto me abraças e olhamos o rio em frente.
^^

Quem vai queimar?

Encaixotem os livres
Desinfetem os cantos
Estuprem as mulheres
Brutalizem os homens
Despedacem os fracos
Enfeitem a moda
Sodomizem as crianças
Escravizem os velhos
Fabriquem as armas
Destruam as casas
Façam render a guerra
Escolham os heróis

E queimem as bruxas
Deixa queimar...
E queimem as bruxas
Quem vai queimar?

Empurrem conselhos
Forneçam as drogas
Engulam a comida
Disfarcem bem a culpa
Protejam a igreja
Perdoem os pecados
Condenem os feitiços
Decidam quem vai morrer
Contaminem a escola
Violentem os virgens
Aprisionem os livros
Escrevam a história

E queimem as bruxas
Deixa queimar...
E queimem as bruxas
Quem vai queimar?



Quem ordena a execução
Não acende a fogueira.

(Pai, rogai por nós)

[Pitty]

^^


Meu coração e eu
vivemos juntos
mas não lado a lado
e nunca nos vemos
o sangue é um acordo vivo
que nos ata.

[Ana Hatherly]
^^
A menina rompeu as paredes da Torre
e pairou no vale
esquecida de sombras e bolores.

Mas de repente lembrou-se.

Parecia mal
ser tão feliz assim
a ceifar com a sua foice
ervas e cores.

E então estendeu-se no jardim
a aproveitar para o remorso dos olhos
o orvalho das flores.


[José Gomes Ferreira]

^^
Hei-de um dia levar-te a ver o sol do qual
conheço todas as cores (amarelo etc) pensamos
que as coisas existem mas segunda-feira traz

linhas de voo à liberdade da imaginação. Por
um instante pensei no sol como algo eterno
desconhecido mas um dia (digo) um dia algum

hei-de levar-te a ver o rio. Fechamos os olhos
ao usual esquecemos a diferença mas alguém
sabe quantos quadros pintou Picasso ou Resende
ou Van Gogh? Quanto pesa a torre dos Clérigos?

Mas também: quantas são as cores do arco-íris?
A forma de todas as pedras? Não há desculpa
para a rotina nem remédio para o ritual. Hei-de
um dia levar-te a ver o sul o sol um dia.

[João Luís Barreto Guimarães]

^^
Lembro-me bem do seu olhar.
Ele atravessa ainda a minha alma.
Como um risco de fogo na noite.
Lembro-me bem do seu olhar.

(...)

Deve haver ilhas lá para o sul das coisas
onde sofrer seja uma coisa mais suave.
Onde viver custe menos ao pensamento,
e onde a gente possa fechar os olhos e adormecer ao sol
e acordar sem ter que pensar em responsabilidades sociais
nem no dia do mês ou da semana que é hoje.

Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender,
um coração exageradamente espontâneo
que sente tudo o que eu sonho como se fosse real,
que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta.

Canções tristes, como as ruas estreitas quando chove.

[Álvaro de Campos]


^^

quarta-feira, 2 de setembro de 2009


Sonharei, no teu seio calmo,
O sonho invisível do cego de nascença.

Dormirei, no teu cerrar de pálpebras,
Como um peixe desliza entre os ramos de árvore
Reflectidos na água.

Dormirei, nas tuas mãos pousadas no meu corpo,
O desejo de te acariciar sem perigo
- não vá tirar-te escamas, borboleta presa.

Dormirei, no teu sexo, a solidão do meu
Ao existir para que eu pense em ti.

Dormirei, na tua vida, a teimosia humana
De um sentido universal para as coisas connosco.

E se, depois, meu amor, formos estéreis,
Se a demora do tempo tiver tido um gesto abandonado,
E a morte, à nossa volta, um moleiro sem trigo,
O mundo que vier inveja-nos
E o nosso espírito há-de perdoar-nos.

[Jorge de Sena]

^^