Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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quinta-feira, 4 de junho de 2009

[...]

Honey

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"Entre gestos e baloiços entram-me
pelas palavras dentro as horas onde a infância
dorme na sombra do horizonte

algures, perdida entre uma sílaba
antecipada pelo som do riso
perco-me dos dias

a verdade? A verdade é um livro com imagens feitas de restos
e o tamanho das palavras, letra a letra
é o tamanho de quando o silencio era feito de gargalhadas

mas as letras não têm sabor
e com frio nos dedos, folheio as paginas
onde palavra a palavra a infância se perde
quando me devolvo ao dia, as gargalhadas apagam-se
ficando os baloiços cobertos pela transparência das lágrimas."

[eue]

^^

Danças com minh'alma?

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"Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas terras do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração."


[Fernando Pinto do Amaral]

^^

Inquietude

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... "Sou o corpo __________________________ o incêndio
só o fogo
______________________________________ me acalma"


[Maria Teresa Horta, Inquietude - Poesia Reunida]

Homens que são como lugares mal situados


"Homens que são como projectos de casas
Em suas varandas inclinadas para o mundo
Homens nas suas varandas voltadas para a velhice
Muito danificados pelas intempéries
Homens cheios de vasilhas esperando a chuva
Parados à espera
De um companheiro possível para o diálogo interior

Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens tão impreparados tão desprevenidos
Para se receber

Homens à chuva com as mãos nos olhos
Imaginado relâmpagos
Homens abrindo lume
Para enxugar o rosto para fechar os olhos
Tão impreparados tão desprevenidos
Tão confusos à espera de um sistema solar
Onde seja possível uma sombra maior."

"Um coração de sangue
Um coração de xisto e aço
Um coração angular e redondo
Como a pedra que te abre
Do interior do chão

Um coração solar
De granito
De carne
Curado da noite de nascença

Um coração de homem
Um coração de homem vivo
Um coração de criança ao colo
Interior
– Mais interior do que o sangue no coração que me darás –

Peço um coração
Nuclear."


Daniel Faria [Poesia]

^^


quarta-feira, 3 de junho de 2009

A casa do Mundo

2
"Aquilo que às vezes parece:
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.

Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.

Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirinéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.

Luzindo cheguei à porta.
interrompo os objetos de família, atiro-lhes
a porta
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente me lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.

Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins, nos tecidos sangúíneos.
É a casa do mundo:
desaparece em seguida."

[Luiza Neto Jorge]

Os Girassóis

Alina Manolache
"Às vezes ouves-me chorar
não é fácil deixar a tua mão
De quarto em quarto
quem espera
o terror de não haver ninguém
As paisagens alteram-se sem resolução
narrativas imortais desaparecem
e os girassóis assim
vulneráveis a desconhecidas ordens


Tu estás tão perto
mas sofro tanto
porque não vejo
como possa falar de ti
entre dois ou três séculos."

[José Tolentino Mendonça]


^^

Versos Soltos...

I guess I'm floating
"A noite acendeu as estrelas porque tinha medo
da própria escuridão."

"... O luar é a luz do sol que está sonhando..."

"A maior dor do vento é não ser colorido."
"Às vezes tudo se ilumina de uma intensa irrealidade
E é como se agora este pobre, este único,
este efêmero instante do mundo
Estivesse pintado numa tela,
Sempre..."

[Mário Quintana]

^^

Quando os pássaros são imagens
inquietas do frio, e as sombras
movimentos onde as despedidas
se repetem.
.
Desperto de diálogos que desfazem o sono
sei que para além da noite
há um inverno a dançar
nos meus medos.

[eue]

^^

Não sei


Não sei se era aqui que era suposto chegar, se era este o lugar, se era este o tempo. Cheguei à esquina onde a vida dobra, à foz dos atalhos onde os caminhos novos se fazem e sei que tenho pouco tempo para dar o primeiro passo, o derradeiro, aquele que fará com que tudo o que fica para trás faça sentido, mesmo que sejam só atalhos menores. Não tenho tempo para pensar e o precipício que se adivinha em cada passo errado faz-me engolir em seco, faz-me fechar os punhos com muita força, faz-me inspirar lentamente para conseguir manter convicções.

[Felisbela Fonseca]
^^

Estátua

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"Nas suas mãos a voz do mar dormia nos seus cabelos o vento se
esculpia
a luz rolava entre os seus braços frios e nos seus olhos cegos e
vazios boiava o rasto branco dos navios."

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

^^

terça-feira, 2 de junho de 2009

(...)

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...
"Encosto a cara às quimeras da infância, para exorcizar
a inocência perdida e rodopiar, sobre os sonhos, a valsa
solitária da criança que fui, quando as minhas mãos, nativas
do sol, eram aves de múltiplas cores.

Paro todos os relógios, para escutar a respiração dos dias.
E, como um actor que se esgota na personagem, rasgo
o cenário e danço, como um louco, em redor de malogros
entrelaçados nos meus pulsos. Tenho, em volta do pescoço,
uma lua transparente que me enrouquece a voz."

[Graça Pires]

^^

Caro leitor,

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"Venho desta forma solicitar ao leitor
uma cabeça de martelo
para que por caridade
me sejam arrancados das costas
todos os pregos que o tempo aí me pregou

Pregos para pendurar retratos
talvez de coisas tristes
talvez de coisas alegres

Peço-lhe que o faça com extrema delicadeza
de modo a que um dia
me seja possível coçar as costas
sem estar preocupado
com crostas ou cicatrizes

Venho pois caro leitor
pedir-lhe depurada mestria
ao arrancar-me todos os pregos
que a vida me pregou nas costas

Pregos veja-se bem
que têm servido tão-somente
para pendurar quadros
talvez de naturezas mortas
talvez de paisagens sem título

Não leve a mal o pedido
trata-se de caridade devida
ou não fosse também o caro leitor
um desses pregos
que o destino me pregou nas costas
com irrepreensível precisão."


[Antoni Tàpies]

^^

Ao meio

Graça Loureiro

"Olha, as coisas
Estão cortadas ao meio,
De um lado elas
Do outro o seu nome.

Há um vasto espaço entre elas,
Espaço para correr,
Para a vida.

Olha, tu estás cortado ao meio.
De um lado tu,
Do outro o teu nome.

Não sentes às vezes ou no sonho
Ou à margem do sonho,
Que na tua fronte
Assentam outros pensamentos,
Sobre as tuas mãos
Outras mãos?

Só por um instante foste compreendido
Fazendo o teu nome
Atravessar o teu corpo,
De um modo sonoro e doloroso,
Como o badalo de bronze
Através do vazio do sino. "

[Marin Sorescu]

^^

[...]

Alastair Magnaldo

"Atrás da minha janela há uma árvore
onde os pássaros marcam o tempo
na transparência do vento
sacodem-se as horas e por fim as imagens
evaporam-se nos contornos dos sonhos .

Entrego-me a um tempo concluído.

Faço tréguas com o passado fechando portas
ao silêncio da noite
mas o sol insiste em fazer Outonos
mesmo quando os dias são mudos."

[eue]

^^

As Palavras

Augusto Peixoto
"As palavras
cintilam
na floresta do sono
e o seu rumor
de corças perseguidas
ágil e esquivo
como o vento
fala de amor
e solidão:
quem vos ferir
não fere em vão,
palavras."


[Carlos de Oliveira]

^^

[...]

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"E é este o quarto onde costumo estar nas noites assim; o quarto onde costumo estar nas noites que não são bem assim; o quarto onde costumo estar todas as noites e onde nunca nada jamais acontece a não ser o estrépito do céu caindo à vez pelos telhados."


[António Gregório]
Uma história de desamor treze vezes


^^

segunda-feira, 1 de junho de 2009

[?]

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Desfolhar uma rosa
é poesia ou prosa?


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[...]

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"Os olhos ganham a intensidade das rugas todas a sombras se juntam como linhas de uma folha é neste tempo de sílabas murchas que nos olhos param imagens o outro lado dos olhos são pedacinhos de papel que rasguei num domingo."

[eue]

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Ver-te

Graça Loureiro
"Ver-te é como ter à minha frente todo o tempo
é tudo serem para mim estradas largas
estradas onde passa o sol poente
é o tempo parar e eu próprio duvidar mas sem pensar
se o tempo existe se existiu alguma vez
e nem mesmo meço a devastação do meu passado.
Quando te vejo e embora exista o vento
nenhuma folha nas múltiplas àrvores se move
ver-te é logo todas as coisas começarem é
tudo ser desde sempre anterior a tudo.
Ver-te é sem tu me veres eu sentir-me visto
sentir no meu andar alguma segurança mínima
caminhar pelo ar a meio metro da terra
e tudo flutuar e ser ainda mais aéreo do que o ar
ver-te é nem mesmo pensar que deixarei de ver-te."

[Ruy Belo]

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Então?







(...) Terás de amar os pés, mesmo que partidos ao meio, na destruição dramática dos seus vinte e seis ossos. (...) Toda a sua minuciosa anatomia de quem quer andar como quem canta. (...) Encontrar-lhe os lírios nas sequelas dos músculos. Dar-lhes corda. (...) Pô-los a pensar sobre os caminhos - dar-lhes caminhos. (...)


[Ana Salomé]



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