Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

Redes Sociais

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sábado, 1 de maio de 2010

S.I.N.A.I.S


Um dia escrevi que tudo é autobiografia, que a vida de cada um de nós a estarmos contando em tudo quanto fazemos e dizemos, nos gestos, na maneira como nos sentamos, como andamos e olhamos, como viramos a cabeça ou apanhamos um objeto no chão. Queria eu dizer então que, vivendo rodeados de sinais, nós próprios somos um sistema de sinais.

[José Saramago - Cadernos de Lanzarote, 1997]

^^

Reconhece-me pelos pés.
Os pés sabem tudo, todos os caminhos
– ou quase.

esta máquina (corpo)
se oferece em nova geografia:

Começa então pelos pés.

[Olga Savary]


^^

sexta-feira, 30 de abril de 2010

As Bolas de Sabão


As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as coisas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.
Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer coisa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.

[Alberto Caeiro]

^^

quinta-feira, 29 de abril de 2010

***

Não, não quero este decassílabo.
O que eu queria dizer era:
O segundo, não o tempo é implacável.
Tolera-se o minuto. A hora suporta-se.
Admite-se o dia, o mês, o ano, a vida,
A possível eternidade.
Mas o segundo é implacável.
Sempre vigiando e correndo e vigiando.
De mim não se condói, não para, não perdoa.
Avisa talvez que a morte foi adiada
Ou apressada
Por quantos segundos?

[Carlos Drummont de Andrade]

^^

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Onde está quem amamos


Onde está quem amamos quando amamos
outro corpo de fogo em movimento?
Pra que abismo corremos pra que enganos
quando as promessas são poeira ao vento?

De que matéria alheia mal tentamos
fugir quando a verdade mora dentro
de alguém a cujo céu nos entregamos
numa noite de sonho e de tormento?

Ainda somos humanos se traímos
por instinto um amor de tantos anos
e só àquele instante obedecemos?

Ainda somos humanos? Ou seremos
a febre que há no sangue quando vimos
de súbito morrer num corpo e vamos
em busca do inferno que merecemos?

Talvez por um momento então sejamos
sonâmbulos fantasmas do que fomos
reflectidos num espelho que não vemos

Ou talvez nesse corpo descubramos
a memória da alma que perdemos
pra sempre no momento em que transpomos
a fronteira dos gestos quotidianos
e ao sabor de um desejo destruímos
todas as intenções todos os planos,
em nome dos prazeres mais supremos
na noite em que deixamos de ser donos
do nosso próprio corpo e abandonamos
angústias e remorsos e partimos
em busca da manhã que não sabemos

Onde está quem amamos quando somos
mais do que humanos? Mais? Ou muito menos?

[Fernando Pinto do Amaral]

^^

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Sessão pipoca - Aonde quer que eu vá



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Pra sempre em Azul


A)- Já disse que estou cansada, farta desse argumento estúpido. Que me interessa a tua idade, os teus filhos, os teus oito netos e uma mulher que desde sempre te arrumou as camisas no lugar certo e te acompanhou na morte das tias, no casamento da Rita, no baptizado do João, te comprou a gravata a dar com o blazer. Estou-me nas tintas para esse caixote de fotografias, a aliança dobrada, o carro a meias, os juros acumulados na conta da reforma, o primeiro namoro, o único namoro, as noites de natal e os presentes sugeridos. Quero lá saber das amarras de trinta anos de um casamento igual ao de trinta milhões de outros, ou por acaso a tua magnífica ingenuidade te faz acreditar que és o único homem a quem acontece o fascínio da última viagem?

B)- Já pensaste que amanhã nem sequer resistiremos ao pó, que outros irão em romarias de alguma disponibilidade devidamente apontada, depositar um magro ramo de flores numa qualquer cidade de mortos, e que nem na memória dos filhos ultrapassamos a linha da dor que o tempo amortece?

C)- Já pensaste que ninguém recupera o brilho, o fulgor da pele, o fio do prazer, a sede do gesto, a alegria do coração a pular, a adolescência do amor?

D)- Eu sei, já me disseste vezes sem conta que és o filho pródigo do teu medo, o operário forçado da tua solidão partilhada, o elo inquebrável de uma imensa cadeia dourada e alcatifada pelos compromissos sociais, o patriarca frágil de um sistema de reformas velhas de mil anos, o homem com um passado ligado à relva do seu pequeno jardim.

E)- Mas também sei que me amas, que te revês na minha fuga ao tempo, que cresces no meu sonho onde o lugar do amor é só planícies e montanhas onde nenhuma casa nos espera, nenhum móvel para mudar, todos os silêncios podem ser sedução ou ponto final.

F)- E depois quem te pode garantir que na manhã seguinte ainda estarei ao teu lado para te dar o cigarro e dizer que são horas da assembleia geral, rir do teu pijama às riscas, irritar-me com a tua obsessão pela pasta de dentes meticulosamente espremida, dizer-te não te esqueças de telefonar à Zeca, e assistir ao teu nó de gravata bem comportado? E depois como terás a certeza da minha felicidade, eu tão jovem, tão acessível ao desejo, tão livre para escolher o restaurante, o perfume, o quadro, o sexo?

G)- Confessa António que te assusta a impotência, o desejo encolhido ao canto das virilhas, escondido entre duas pregas rugosas, amor talhado entre músculos flácidos, sem aquele arrojo juvenil de que tanto te orgulhaste aos vinte, trinta anos de pujança sexual.

H)- Confessa que tens medo do espelho, que fazes a barba a correr para não te defrontares com as rugas, o cansaço, os lábios secos, as maçãs do rosto descaídas, os dentes postiços, o cabeço completamente branco, o tempo a rir-se de ti e com ele o olhar cínico e acusador da mulher que abandonaste por uma miragem.

I)- Eu sei que já viste este filme e na altura até o achaste credível e elogiaste o realizador, o argumento, a representação, e na tua voz clara e pausada fizeste uma sinopse ao teu mais íntimo amigo, e ficaram os dois bebendo descafeínados, trocando opiniões muito analíticas, muito ilustradas por comentários tipo, pois é, a gente perde sempre o último combóio ou por medo ou subserviência ao que não é importante mas é funcional.

J)- E foram cada um para as suas moradias voltadas para o mar da serenidade conformada, para a conta a prazo da velhice a dois, cinco, ao cão, à bicicleta no canto da garagem.

K)- Eu sei que dois mais dois são quatro, que o mundo já era antes de mim, que a vida tem de ser gerida pelos polícias da normalidade, que tudo tem um preço, que o tempo tudo apaga, que há regras que valem e fazem o ouro, mas não quero saber. Aliás, ninguém quer saber de ninguém. É tudo mentira, António, tudo, nada resiste à claridade. Todos os contornos se desfazem contra a faca do irremediável e nenhum gume corta mais fundo que a vontade de ser, o terrível desejo de viver neste tempo enquanto os olhos vêem, o coração bate, a pele exige.

L)- O resto, é o que virá depois de mim, depois de nós, depois das sombras se coserem às escarpas da memória, e essa é tão breve que nem com sílabas de aço se passa à eternidade.

M)- Por isso insisto na autonomia de realizar o meu filme sem filtros especiais nem montagens em estúdios sofisticados. Construí o meu palco sobre o rio e todos os dias desaguo no vertiginoso estuário da coragem, doa a quem der, o último barco a passar há de ser o meu, nem que tenha todos os dias, todos os instantes de dobrar o cabo da angústia, porque sabes António, ao leme deste querer, mais do que eu manda o desejo de gritar, de acontecer.

N)- Quero lá saber do porta-chaves ou da máquina de lavar que já não lava, ou do imposto profissional, ou das férias em Itália, o teu fato precisa de ir para a lavandaria? E isso é importante? Amanhã é outra lua, deixa-me ler este artigo sobre moda, vai chover? Eu vou comprar um disco de Jazz. Sim, é tão bom passear na praia, perder o pé na areia, encontrá-lo cheio de cascas de búzios, mergulhar nua, correr contra o vento, chegar a casa e encontrar-te. És tão bonito assim, azul, azul até ao infinito. Amo-te.

O)- E é verdade, António, todos os filmes são possíveis. Isso, vamos sair, vamos ao cinema ver Bergman, melhor, vamos fazer amor... estava só a ver se te irritava, sabes como eu gosto de te acicatar, afinal, estamos tão velhos e gastos meu amor.

P)- Como foi bom envelhecer contigo... Aconchegar a noite na concha das tuas costas, beijar nos teus dedos a renda da ternura. Amo-te tanto, António. Fica comigo neste quadro.

[Isabel Mendes Ferreira, Ponto Final]

^^

domingo, 25 de abril de 2010

Metafísica do Estilo

Temos à escolha um ou outro dos hemisférios cerebrais; mas vamos por este, que é onde nascem os substantivos. Os adjetivos nascem no da esquerda. Descoberta minha, que ainda assim não é a principal, mas a base dela, como se vai ver. Sim, meu senhor, os adjetivos nascem de um lado, e os substantivos de outro, e toda a sorte de vocábulos está assim dividida por motivo da diferença sexual...

— Sexual?

Sim, minha senhora, sexual. As palavras têm sexo. Estou acabando a minha grande memória psico-léxico-lógica, em que exponho e demonstro esta descoberta. Palavra tem sexo.

— Mas, então, amam-se umas às outras?

Amam-se umas às outras. E casam-se. O casamento delas é o que chamamos estilo. Senhora minha, confesse que não entendeu nada.

[Machado de Assis - O cônego ou Metafísica do estilo, 1896]


^^

As Aparências Enganam


O admirável filósofo grego Platão (viveu de -428 a.C. até -348 a.C.) conta-nos que quando os homens viviam nas cavernas ainda temiam a natureza e seus fenômenos. Por isso, viviam trancafiados, procurando apenas solucionar seus problemas básicos de subsistência. O mito da caverna encontra-se no livro de Platão intitulado “A República”.

“Imaginemos um muro bem alto separando o mundo externo e uma caverna”. Na caverna existe uma fresta por onde passa um feixe de luz exterior. No interior da caverna permanecem seres humanos, que nasceram e cresceram ali.
Ficam de costas para a entrada, acorrentados, sem poder de locomoção, forçados a olharem somente a parede do fundo da caverna, onde são projetadas sombras de outros homens que, além do muro, mantêm acesa uma fogueira.
Os prisioneiros julgam que essas sombras sejam a realidade.
Um dos prisioneiros decide abandonar essa condição e fabrica um instrumento com o qual quebra os grilhões. Aos poucos vai se movendo e avança na direção do muro e o escala, com dificuldade enfrenta os obstáculos que encontra e sai da caverna, descobrindo não apenas que as sombras eram feitas por homens como eles, e mais além todo o mundo e a natureza.”


E o que tem a ver o Mito da Caverna com o post de hoje? Eu respondo: TUDO.

Muitas pessoas ao sentar na frente de seus monitores, acreditam que o mundo virtual é puro e verdadeiro. Acreditam em tudo que leem. Acham que as pessoas são o espelho daquilo que escrevem. Eu comparo a internet com a parede no fundo da caverna, onde são projetadas muitas sombras, imagens, mensagens ou seja, um mundo de ilusões. Quem projeta essas sombras são os(as) blogueiros(as) ou titulares de sites de relacionamentos. Os leitores são os prisioneiros que leem as fantasias, mensagens, sonhos e ilusões...
É claro que, existem pessoas que fazem de seus blogs um diário pessoal, e escrevem, realmente, tudo aquilo que sente, suas experiências no seu mundo real e projetam para nós leitores, o que realmente acontece em suas vidas. Existem aqueles que escrevem sobre política, economia, saúde, culinária, artes, acontecimentos do dia-a-dia,... ou seja assuntos impessoais, ou fazem desses assuntos impessoais, suas opiniões pessoais... ou seja, tem de tudo um pouco nesse mundo virtual.


Mas a pergunta é: Como saber o que é REAL ou VIRTUAL?

Eu por exemplo, na minha página de relacionamento,(o orkut) coloquei que moro na Espanha. Quem não me conhece, pode até acreditar, e nunca imaginar que a Espanha é o lugar que eu pretendo conhecer, e por isso eu "projetei esse sonho como se fosse realidade". Se eu quiser colocar que moro na Conchinchina eu coloco e pronto. Até por que, o orkut é meu, e eu escrevo o que eu quiser. Posso até colocar uma foto da Angelina Jolie e dizer que sou a esposa do Brad Pitt. E daí? ¬¬
O que não pode acontecer, mas acontece, são as pessoas acreditarem em verdade verossímel. Acharem que sabem tudo sobre nossas vidas, nossa personalidade, nossa intimidade, nossos sentimentos, pelo que está num site de relacionamento ou num texto de um blog. Mas, infelizmente, tem gente que acredita. Alguém me explica: como pode ser? Tsc,tsc, tsc,...
Será que as pessoas são tão ingênuas a esse ponto? Seria carência? Ignorância? Imaturidade? Ou falta de noção, mesmo?


Assim são os blogs, caros leitores. Quem foi que disse que tudo que escrevo são experiências vividas por mim? São pensamentos e sentimentos meus? E se for a história da vizinha? Do bêbado ali, no bar da esquina? Do colega de trabalho? Da prima distante? Do paciente esquizofrênico do hospital psiquiátrico em que estagio? Quem garante que este texto é meu? Quem garante que este blog existe? Quem garante que eu existo? Quem garante que tudo não passa de um sonho? Ou de uma imagem projetada num fundo da caverna?

As aparências enganam, e para não se iludir, o bom leitor deve ser questionador, deve ser aquele que consegue ler nas entrelinhas e sabe filtrar as informações que mais lhe apetece. Sabe diferenciar o mundo real do mundo virtual. Portanto, eu peço: Liberte-se da caverna que lhe aprisiona. Pare de se enganar. Existem vidas reais fora da caverna. E não idealize as pessoas baseando-se naquilo que elas escrevem. Em casos mais graves, eu diria até, patológico: Não julgue, muito menos rotule.
...
Acorda pra vida.
Fantasias são apenas fantasias, e só.

^^

sábado, 24 de abril de 2010

[...]


Pela noite à eterna dor se chega
cruel é a terra, diversa terra
quando teu rosto se esvai
e a névoa com voz de pranto
cai jamais leve sobre nós.

De breve uso, cresce no peito
uma tímida pálida alegria
precioso corpo luz, borboleta
de asas nítidas e tranquilas
que vigia o coração dos mortos.

Diz-me secretas brandas palavras
porque sou refúgio e escombro
de um vasto dia, áspero exílio
nas suaves sílabas de precisos
e curvos juncos, clarão sem sol.

Desce então pelo fulgor da luz
espírito suspenso em minhas mãos.
A espera é movimento cego.
Desce, sonâmbulo, extenso amor.

[Ana Marques Gastão]
^^

sexta-feira, 23 de abril de 2010


Quando os relógios batem tão perto
como dentro do próprio coração,
e as coisas com vozes débeis
perguntam umas às outras:

- Estás aí? -

Então não sou o mesmo que de manhã acordou,
a noite dá-me um nome
que nenhum daqueles a quem de dia falei
ouviria sem angústia -

Cada porta
cede dentro de mim...

[Rainer Maria Rilke]


^^

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O estranho nas entranhas

Não sei, não sei. Não devia de estar relembrando isto, contando assim o sombrio das coisas. Lenga-lenga! Não devia de. O senhor é de fora, meu amigo mas meu estranho. Mas, talvez por isto mesmo. Falar com o estranho assim, que bem ouve e logo longe se vai embora, é um segundo proveito: faz do jeito que eu falasse mais mesmo comigo.
[João Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas, 1956]

^^

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Ano de eleição, pede essa canção: Luís Inácio (300 Picaretas)


Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
São trezentos picaretas com anel de doutor
Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
São trezentos picaretas com anel de doutor
Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou

Eles ficaram ofendidos com a afirmação
Que reflete na verdade o sentimento da nação
É lobby, é conchavo, é propina e jeton
Variações do mesmo tema sem sair do tom

Brasília é uma ilha, eu falo porque eu sei
Uma cidade que fabrica sua própria lei
Aonde se vive mais ou menos como na Disneylândia
Se essa palhaçada fosse na Cinelândia
Ia juntar muita gente pra pegar na saída

Pra fazer justiça uma vez na vida
Eu me vali deste discurso panfletário
Mas a minha burrice faz aniversário
Ao permitir que num país como o Brasil
Ainda se obrigue a votar por qualquer trocado
Por um par se sapatos, um saco de farinha
A nossa imensa massa de iletrados
Parabéns, coronéis, vocês venceram outra vez
O congresso continua a serviço de vocês

Papai, quando eu crescer, eu quero ser anão
Pra roubar, renunciar, voltar na próxima eleição

Se eu fosse dizer nomes, a canção era pequena
João Alves, Genebaldo, Humberto Lucena....
De exemplo em exemplo aprendemos a lição
Ladrão que ajuda ladrão ainda recebe concessão
De rádio FM e de televisão

Rádio FM e televisão...

Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
São trezentos picaretas com anel de doutor
Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
São trezentos picaretas com anel de doutor
Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
São trezentos picaretas com anel de doutor
Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou
São trezentos picaretas com anel de doutor...

[Os paralamas do Sucesso]


^^

domingo, 18 de abril de 2010

Ainda Bem


Ainda Bem
Que você vive comigo
Porque senão
Como seria esta vida?
Sei lá, sei lá

Nos dias frios
Em que nós estamos juntos
Nos abraçamos sob o nosso conforto
De amar, de amar

Se há dores tudo fica mais fácil
Seu rosto silencia e faz parar
As flores que me manda são fato
Do nosso cuidado e entrega
Meus beijos sem os seus não dariam
Os dias chegariam sem paixão
Meu corpo sem o seu uma parte
Seria o acaso e não sorte

Neste mundo de tantos anos
Entre tantos outros
Que sorte a nossa heim?
Entre tantas paixões
Esse encontro nós dois
Esse amor

Entre tantos outros
Entre tantos séculos
Que sorte a nossa heim?
Entre tantas paixões
Esse encontro nós dois esse amor

Entre tantas paixões
Esse encontro nós dois esse amor...

[Compositora: Vanessa da Mata]

^^

Momento Cut Cut!!!

Eu confesso: Fui uma criança serelepe! ¬¬


Tão bom falar sobre a infância. Tempo que se era feliz e não sabia. Em pleno anos 80, meus únicos problemas eram o pneu furado da minha bicicleta de rodinha e os braços soltos das minhas bonecas. Quando eu era pequena, tinha uma energia fora do comum. Morava na mesma rua da casa da minha avó e alguns tios, que por sua vez, tinham em suas casas, uma média de 3 filhos. Ou seja, um monte de primos e primas e vizinhos e irmãos tudo junto e misturado, com a mesma faixa etária e uma só ideia fixa: brincar, brincar, brincar...

Das primas, eu era a mais velha da turma do meio, com isso eu tirava alguns proveitos em cima das pequenas...hehehe... Qual criança que não passa por uma fase perversa? Pois então, eu pegava emprestado as balas e pirulitos, e sempre dava um jeito da culpa não ser minha, por exemplo. ¬¬ Normal, né gente?! Toda criança gosta de guloseimas, as dos outros então, são mais docinhas...(oi?)

Na parede branquinha da casa da minha avó, eu brincava de aulinha, sendo que, eu era sempre a professora que ensinava o alfabeto aos alunos, escrevendo com vontade na parede com um pedaço de tijolo. Mas na hora do castigo, eram os pequenos que apagavam o "quadro negro". ¬¬

Todo dia, depois da escola, era sagrado: boneca com as primas, brincadeira de corda, elástico, amarelinha, pique-esconde, pique- bandeira, jogo de queimado, andar de bicicleta... Final de semana era sempre uma festa! Era uma gritaria só quando toda àquela criançada se juntava. Sem contar com as brigas, e o famoso "Tô de mal", que acabava logo após 5 minutos. A única coisa que interrompia, e, eu claro, fingia que não ouvia, era a voz aguda da minha mãe chamando:"Danieeeeeelle, Mileeeeena e Tiaaaaago, já pro baaaanhoooo!” (sempre nessa ordem) – Era impressionante como que, na mesma hora, todas as 'tias' apareciam e chamavam seus respctivos 'anjos', pra estragar a brincadeira. ¬¬

Lembro dos meus tombos históricos, (tadinho do meu joelho, como eu o maltratava) sobretudo, no dia em que me enfiei em baixo da pia da cozinha da casa da minha avó, quando brincava de pique-esconde, enquanto ela fazia café, ao sair do esconderijo, minha cabeça bateu no fundo do canecão de água fervendo, que virou e queimou as minhas costas. Foi aquele susto! Coisas de criança... mas, pelo menos, nunca quebrei nenhum ossinho... rsrs...

Outra coisa que eu adorava fazer era brincar de trocar papéis de carta. Como eu estudava em escola de freira, da alfabetização até a 8ª série, e nessa instituição, só tinha meninas, essa "febre", era geral. Por lá, as brincadeiras eram sempre leves, e tranquilas. ¬¬ Levava pra escola minha pasta "sagrada", (por que eram sagrados cada folha, não podia ter nenhum amassadinho) e trocava no recreio, na sala de aula escondida das irmãs, claro. Ô fase boa!!! Tenho minha pasta até hoje, acreditam? Estão meio amareladas, os meus papéis de carta, porém, impecáveis. rsrs...

E por fim, não posso deixar de contar essa: quando tinha uns 9 ou 10 anos, eu invoquei que queria ser "grande", adulta. Logo, brincar com os pequenos, já não me satisfazia. Queria passar batom, pintar as unhas, usar sapato alto, essas coisas. ¬¬ Então, eu ia pentelhar minhas primas mais velhas, que tinham em média seus 17, 18 anos. Vocês não imaginam o quanto essa blogueira que vos fala, sofreu nas mãos daquelas malvadas. Tadinha de mim! =/ Paguei todas as minhas malvadezas ao cubo. rsrs...

O que eu posso dizer com a boca cheia, é: eu tive infância! Soube aproveitar, e muito, essa fase tão linda, cheia de descobertas e encantamento... Um mundo tão inocente, tão grande e prazeroso, cheio de cor e com cheirinho de bolo de fubá da casa da vovó. Saudades que estarão guardadas para sempre no meu coração.

Bjs!!

Danni^^

sábado, 17 de abril de 2010

Só por dentro de ti


Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.

[David Mourão-Ferreira]


^^

sexta-feira, 16 de abril de 2010






Só mais uma menina entre outras
e o quadro negro onde escrever o teu nome a giz
como um erro ortográfico do coração.

Castigo.
Entre nós o alto muro do recreio
e a obrigação de permanecer só.

[Ana Salomé]

^^

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Tu não sabes Nada...

Tu não sabes nada
sobre a pele que há em mim
Há entre o coração e a pele cumplicidades para cujo entendimento apenas corpos como o dele às vezes contribuem. Olhando-o nos olhos não é fácil destrinçar do alcantilado coração a cama onde dormíamos, ao mais pequeno sopro o sol parece evaporar-se. Por esse coração, ainda que escarpado, era, no entanto, fácil alcançar a pele, o mar à força de bater na rocha ia ficando a pouco e pouco em carne viva.

Uma mulher encosta-se a um muro, encosta-se à memória. Veste de uma maneira simples, uma blusa, uma saia cobrindo os joelhos, talvez uns tamancos. Tem ainda, amarrado à cabeça, um lenço negro, negros aliás e brancos todos os tons em que se veste, negros os tamancos, um casaco de lã sobre a blusa, negras ainda algumas das riscas da saia, brancas as outras, como a blusa. Encosta-se ao muro aonde cola as costas, os ombros e depois uma das faces, assim é mais fácil ver-lhe o rosto. As mãos encostá-las-ia também se não segurasse um lenço branco. Aperta-o entre os dedos, fá-lo passar entre eles, uma pequena serpente. Ou então amarrota-o, faz das palmas das mãos uma concha onde o esconde, o lenço assim desaparece totalmente, apenas as mãos se vêem projectadas para a frente, dir-se-ia que rezam. Depois sempre ocultando o lenço, levam-no ao rosto novamente de perfil, tudo a preto e branco ainda, ou é o rosto que desce até às mãos, mergulha no lenço, talvez este e a língua se procurem, uma língua pelo lenço adiante, uma língua é provável que vermelha, não, é tudo ainda muito a preto e branco, é tudo ainda demasiado a preto e branco para permitir um pormenor vermelho.

Inquietam-me as dedadas
de deus rente à raiz da carne, ao indeciso
equilíbrio da alma
na balança, à cicatriz
azul do céu sobre o destino.

O mar pneumático, ao sabor
do qual contra os sentidos se nos fazem
e desfazem as ávidas lembranças,
assalta-me os sentidos, tenebrosas

crateras escavadas
no espírito e através
das quais, incandescentes, as imagens
do mundo sobre ele próprio se derramam

como uma lava espessa, esses sentidos
que, como aéreos
estigmas, nos imprimem
na carne a cicatriz do céu, a indecisa
maneira de as imagens

do mundo se guindarem
mais alto do que a alma ou o alento
de quem dentro de nós
aviva a sua chama. O que nos sai
do coração vem a ferver.

A carne, ao rés
da qual o céu se encurva, báscula
que deus deixou nos arredores
dum qualquer lugarejo

a encher-se de ferrugem, cicatriz
pesada, combustível, com raiz
nas mais profundas trevas, a carne âncora
submersa no destino, ergue-se a pique

de novo onde as lembranças
se fazem e desfazem
com todo o azul do céu
lá dentro a procurar rompê-la.

Sentados no convés, como se fosse
já noite e nos soubesse
o pão ao ranço da memória, contemplamos
os rudes marinheiros.

Depois que pela encosta procurámos
em vão uma escada de que o último
degrau fosse já dentro da memória,
suspenso na memória,

desfaz-se-nos dos ossos
a carne, com o seu quê de lírico e festivo,
em áreas portuárias onde o mar
nos sai do coração para galgar o molhe,

e, agora que começam
os anos a pesar
mais para trás que para a frente, acodem-nos
recônditas palavras aos ouvidos:

«Fecharam-se-te os olhos e eu fiquei de fora»,

«Nas tuas mãos começa o precipício».

[Luís Miguel Nava]

^^

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Um Amor Um Lugar


O meu amor é teu
O meu desejo é meu
O teu silencio é um véu
O meu inferno é o céu pra quem nao sente culpa de nada
E se nao for valeu
E se ja for Adeus
O dia amanheceu
Levante as mãos para o céu
E agradeça se um dia encontrar
Um amor, um lugar pra sonhar
pra que a dor possa sempre mostrar, algo de bom

Eu ainda lembro, eu ainda lembro
O dia em que eu te encontrei
Eu ainda lembro, eu ainda lembro
como era fácil viver
Ainda lembro, ainda lembro...
[Composição: Herbert Vianna]

^^

Um manto de Ternura

Dizer-te, meu amigo,
que, à uma da manhã
e desta noite,
está lindo o nevoeiro

que um manto de sossego
assim inteiro
eu desejava dar-te
- e ter comigo.

Enviava-te um frasco,
se pudesse,
fechado em carta azul,

ou por fax de sol
(não fora o medo que o sol
o desfizesse)

Assim, mando daqui
esta espessura
de cheiro muito branco
e muito belo:

um manto de ternura
dobrado num novelo,
que chegue
até aí.


[Ana Luísa Amaral]

^^

O Laço de Fita

Não sabes, criança? 'Stou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita.

Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente qu'enlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
O laço de fita.

Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro
Num laço de fita.

E agora enleada na tênue cadeia
Debalde minh'alma se embate, se irrita...
O braço, que rompe cadeias de ferro,
Não quebra teus elos,
Ó laço de fita!

Meu Deusl As falenas têm asas de opala,
Os astros se libram na plaga infinita.
Os anjos repousam nas penas brilhantes...
Mas tu... tens por asas
Um laço de fita.

Há pouco voavas na célere valsa,
Na valsa que anseia, que estua e palpita.
Por que é que tremeste? Não eram meus lábios...
Beijava-te apenas...
Teu laço de fita.

Mas ai! findo o baile, despindo os adornos
N'alcova onde a vela ciosa... crepita,
Talvez da cadeia libertes as tranças
Mas eu... fico preso
No laço de fita.

Pois bem! Quando um dia na sombra do vale
Abrirem-me a cova... formosa Pepital
Ao menos arranca meus louros da fronte,
E dá-me por c'roa...
Teu laço de fita.


[Castro Alves]

^^

terça-feira, 13 de abril de 2010

As casas


Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
Elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
Respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas...

[Ruy Belo]

^^

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Quem?



Um raio de luz lançou toda a doçura num sono.

Quem o dormiu antes do tempo?


[Ingeborg Bachmann]
^^

Estradas

São outras as paisagens quando alguém
as vê pelas janelas do seu próprio coração ou quando
com esse coração
a própria estrada está comprometida.

[Luís Miguel Nava]

^^

domingo, 11 de abril de 2010


Sendo com o seu ouro, aurífero,
o corpo é insurrecto.
Consome-se, combustível,
no sexo, boca e recto.

Ainda antes que pegue
aos cinco sentidos a chama,
por um aceso acesso
da imaginação
ateiam-se à cama
ou a sítio algures,
terra de ninguém,
(quem desliza é o espaço
para o corpo que vem)

labaredas tais
que, lume, crepitam
nos ciclos mais extremos,
nas résteas mais íntimas,
as glândulas, esponjas
que os corpos apoiam,
zonas aquáticas
onde os órgãos boiam.

No amor, dizendo acto de o sagrar,
apertado o corpo do recém-nascido
no ovo solar,
há ainda um outro
corpo incluído,

mas um corpo aquém
de ser são ou podre,
um repuxo, um magma,
substância solta,
com pulmões.

Neste amor equívoco
(ou respiração),
sendo um corpo humano,
sendo outro mais alto,
suspenso da morte,
mortalmente intenso,
mais alto e mais denso,

mais talhado é o golpe
quando o põem em prática
com desassossego na respiração
e o sossego cru de quem,
tendo o corpo nu,
a carne ardida,
lhe pede o ladrão
a bolsa ou a vida.

[Luiza Neto Jorge]
^^

O que Excita e o que faz Broxar

X



Uma mania masculina realmente, é de broxar as mulheres: usar as cuecas até que elas não possam mais ser definidas como tais. Afinal, por que será que para certos homens as cuecas são uma das únicas coisas que duram pra sempre? Alguns falam que esse apego tão forte acontece por uma questão prática, já que quanto mais a cueca for usada, mais confortável ela se tornará (ficando mais macia, se adequando à pele, não apertando mais, e por aí vai...) Outros dizem que é uma questão de economia. Afinal, para que gastar com cuecas novas se já tem as suas de estimação? ¬¬
Uma dica pra não virar um homem broxante: Seja precavido! Um homem esperto é aquele que está sempre preparado, afinal, nunca se sabe quando alguém vai te ver de cueca. E mais, você poderá curtir também as preliminares, ao invés de tirá-la correndo para esconder embaixo da cama. Gente, se a cueca está péssima, imagine só o resto, kkkkk... É Broxante meeeesmo! Eca! =/


Cheiro de homem - Que os homens usem perfume eu concordo e incentivo, mas que seja o perfume certo. Homem tem cheiro mais fechado, perfume marcado. Nada dessa coisa unissex, adocicada ou cítrica demais. O melhor mesmo é cheiro de banho misturado com suor, cheiro de pele quando acorda. Nossa isso me deixa doida. Adoro pescoço e nuca, morder e contar segredinhos no ouvido sentindo esse cheiro bom... =)


Cinema pornô tradicional no motel - com cenas de sexo explícito de gosto duvidoso, definitivamente, não me agrada. Aquela gritaria toda, caras e bocas no estilo “sou vulgar, estou fingindo, e daí?” ¬¬ Não é nada sensual, exagero demais força uma coisa que deveria ser natural, me broxa na hora. Cadê o controle desta porcaria de tv? Desliga isso, já!



Educação - Bom dia. Boa tarde. Obrigado. Por favor. São palavrinhas mágicas, não apenas no dia-a-dia, mas para meu instinto. Se vier acompanhado de um sorriso então, já vai me dando vontade de fazer carinho, dar beijinho, um monte de "inho"... ai, ai!



Enrolação - Homem enrolado é o fim do mundo. Deu 1 mês de convivência e o cara não tomou atitude? Tô fora. Admito, eu gosto que o convite para sair venha dele na primeira vez. Se eu preciso convidar para um simples encontro, imagina para as demais coisas? E ele pode ter certeza que eu não vou ser fresca não... Se eu quero, quero. Se não quero, deixo isso bem claro.


Inteligência - Senhor de um bom papo, que te deixa livre para falar desde bobagens cheios de humor até filosofias clássicas ou contemporâneas.¬¬ Um homem sem medo de dizer que não sabe e disposto a ensinar o que sabe. Que compartilha seu conhecimento. E que nunca me dirá asneiras absurdas como: "Um dia irei à Nova York, meu sonho é conhecer a Europa.” Na boa - Inteligência é sim afrodisíaco.


Lingerie bege – existe coisa mais broxante do que isso? É broxante pra quem usa, e pra quem vê. Já pensou na H, o cara tira a roupa da parceira, crente que vai dá de cara com meia e cinta-liga, vermelha ou branca (minhas cores preferidas), mas, dá de cara com aquela coisa sem cor, sem graça, sem estilo, sem nada? Depois, o relacionamento não dá certo, ainda fica se perguntando: onde foi que eu errei?...


Ousadia - Homem gentil e educado que, do nada, chega e fala alguma ousadia ao pé do ouvido me deixa de perna bamba. Um olhar safado quando só você pode vê-lo. ¬¬ Um toque ousado. Um "inocente" beijo de canto de boca. São pequenas ousadias que fazem toda a diferença...



Frescura - Gosto de seduzir e adoro ser seduzida. Hora um, hora outro. E se ele é cheio de frescura, não me toques, isso não pode, nem aquilo, aquilo outro também não, eu dou logo cartão vermelho. Melhor um bruto que topa minhas loucuras que um fresco que me deixa na mão. Pronto, falei.


Pagar a conta – Acho bacana dividir a conta, meu lema é esse. Mas, quando o homem se antecipa e nem deixa a mulher saber quanto foi o gasto, é excitante. Acho gentil, cortês, másculo, passa uma sensação de “eu estou no comando da situação, baby”. E eu? Adoooro ser dominada! (oi? Ninguém ouviu isso, né?!) ¬¬


Pressa – A mocinha conhece “o” homem encantador em um momento em que estava carente e blá, blá, blá... Um tempo depois, resolveram transar e aí a “Cinderela” descobre o fiasco: ele gozava em cinco minutos e a deixava na mão, literalmente. Ahhh... Fala sério! Chega por hoje!

Sem mais para o momento.



Danni^^

sexta-feira, 9 de abril de 2010


Que dias tão cheios de água! E de frio!
Recordas-te das bilhas de barro? Das nossas avós.
E da água fresquinha? Dominasse eu o poder e estes dias
teriam maior moradia numa parte dos dias de muito calor.
E de humidade.
Esta minha ambição de reter o sol na eira. E a chuva no nabal.
Coisas!

Estive a contar as mensagens trocadas. Noite adentro.
Quantas. Tantas. Muitas. Famintas. Sedentas. Sôfregas.
E não respondi à última porque a senti húmida. Molhada.
E porque me adentravas.
Coisas. Loucas!

Numa noite ou numa tarde destas, de chuva e de frio,
podíamo-nos cobrir com uma manta virtual e quentinha.
E fazer soar e suar. Como o calor húmido que nos sufoca.
E nos cola à pele.
Coisas loucas. De um doido!

Os planos e as expectativas perturbam-me quando
me meço no tempo. Pela frente, já me faltam dias.
Não sofro na espera quando quero a descoberta.
Mas neste hoje não há muito lugar a amanhãs.
Coisas loucas de um doido. Adivinho!

Eu sou especial? Nem penses nisso. Adão de carne e ossos.
E algures uma alma. Que ama. Que sente. E se ressente.
Coisas loucas de um doido adivinho. De sensações!

A tua e a minha vontade. As duas.
Mas da minha sei eu. E tu também.
Coisas loucas de um doido adivinho de sensações. E de desejos!

Que dia tão cheio de humidade!
Não foi assim toda esta noite?
Tão molhada e tão húmida?
[Mateo]
^^

terça-feira, 6 de abril de 2010


Tu já me arrumaste no armário dos restos
eu já te guardei na gaveta dos corpos perdidos
e das nossas memórias começamos a varrer
as pequenas gotas de felicidade
que já fomos.
Mas no tempo subjectivo
tu és ainda o meu relógio de vento
a minha máquina aceleradora de sangue
e por quanto tempo ainda
as minhas mãos serão para ti
o nocturno passeio do gato no telhado?

[Isabel Meyrelles]

^^

domingo, 4 de abril de 2010




Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

[Vinícius de Moraes]

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quarta-feira, 31 de março de 2010


Aquele dia amanheceu como outros tantos...
Era um dia puro, luminoso, chamando à vida.
Mas tinha havido tantas manhãs assim
e o presságio da Natureza em festa tantas vezes tinha mentido!...
E contudo, aquela manhã foi a manhã verdadeira,
e o Sol não brilhou em vão, o mar não foi inutilmente belo,
porque foi, amor, a manhã em que nascemos um para o outro!


[Adolfo Casais Monteiro]


^^

segunda-feira, 29 de março de 2010

Vida


Pelas ruas da cidade pessoas andam no vai e vem
Vem o cair da tarde, vão nos seus passos como reféns
De uma vida sem saída, vida sem vida, mal ou bem
Pelos bancos desses parques ninguém se toca sem perceber
Que onde o sol se esconde o horizonte tenta dizer
Que há sempre um novo dia, a cada dia, em cada ser
Não é preciso uma verdade nova, uma aventura
Para encontrar nas luzes que se acendem um brilho eterno
E dar as mãos, e dar de si, além do próprio gesto
E descobrir feliz que o amor esconde outro universo

Pelos becos, pelos bares, pelos lugares que ninguém vê
Há sempre alguém querendo uma esperança, sobreviver
Cada rosto é um espelho de um desejo de ser, de ter
Não é preciso uma verdade nova, uma aventura
Para encontrar nas luzes que se acendem um brilho eterno
E dar as mãos, e dar de si, além do próprio gesto
E descobrir feliz que o amor esconde outro universo

Cada rosto é um espelho de um desejo de ser, de ter
Talvez quem sabe por esta cidade passe um anjo
E por encanto abra suas asas sobre os homens
E dê vontade de se dar aos outros sem medida
A qualidade de poder viver vida, vida,
Vida, vida.

[Compositor: Fábio Júnior]


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