Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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sábado, 31 de outubro de 2009

Semana que Vem

Amanhã eu vou revelar
Depois eu penso em aprender
Daqui a uns dias eu vou dizer
O que me faz querer gritar
Aaaahhhhhh!!

Não deixe nada pra depois
Não deixe o tempo passar
Não deixe nada
Pra semana que vem
Porque semana que vem
Pode nem chegar

Esse pode ser o último dia
De nossas vidas
Última chance de fazer
Tudo ter valido a pena

Diga sempre tudo
O que precisa dizer
Arrisque mais
Pra não se arrepender
Nós não temos
Todo tempo do mundo
E esse mundo
Já faz muito tempo...

O futuro, o presente
E o presente já passou...
O futuro, o presente
O presente já passou...

[Composição: Pitty]

^^

*Eu

"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo..."

[Raul Seixas]
^^

sexta-feira, 30 de outubro de 2009



Afundei-me na banheira e descobri que as lágrimas
não se misturam com a água quente perfumada
com sais de banho... a espuma fica por cima e as
lágrimas caem como pedras em charcos de água.
A água quente a correr na banheira não me aquece.
Se o meu coração for já uma pedra vou ao fundo
e sei que não me ouvirás chorar por ti.




[Felisbela Fonseca]

^^

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

(...)


Vens de repente com a voracidade
de um pássaro nocturno que não chamei
e a porta fecha-se sobre as minhas ancas
e a noite bebe o hálito que largas na minha pele
enquanto os espelhos escondem o rasto
de todos os segredos que guardavas

Por momentos o amor desenha-se desta única maneira
mas eu sei que és apenas um inquilino temporário
habitando o meu corpo as horas que roubaste
em ondas de culpa e sombra

E sei também que hás-de sair de mim
como de um povo inimigo
procurando um gesto de perdão que não existe
e o amor torna-se subitamente num lugar incómodo
tenho pressa dirás tenho pressa
e a noite fecha-se do lado dos dedos
que procuram ainda o lugar do sono

Fica comigo peço mas tu não me ouves
e eu sei que vou voltar a esperar por ti na vida que me resta
e em todas as vidas e em todas as mortes
até ao dia em que difinitivamente
despeças o teu corpo do meu
e eu repita fica comigo e tu
desapareças

Como quem esteve só à espera
de ventos favoráveis

[Alice Vieira]
^^

quarta-feira, 28 de outubro de 2009


Quero definir-te o que é este sentimento: o que pertence à esfera daquilo que a razão não domina, ou simplesmente nasce da noite, e de tudo o que a envolve. Falo de uma íntima relação entre os seres, de emoções que se transmitem para além de palavras e conceitos, de um encontro de corpos na esfera do segredo.

Dir-me-ás: "Para que precisas de uma explicação para o amor?"
Mas é a sua inutilidade que me interessa; a dádiva, o simples dizer que as coisas são assim porque são, e para além disso tudo se complica. Podes, então, rir do que te digo; ou simplesmente dizer-me que as palavras nada substituem, e que tudo o que elas nos dão está a mais. Mas o amor pertence-nos. Não o podemos deitar fora; nem fingir que não existe, como não existe
o infinito, a transcendência, a abstracção divina, para quem só crê no concreto. É verdade que o amor não se vê: o que vejo são os teus olhos, a ternura súbita das suas pálpebras, e o que elas abrem e escondem numa hesitação de luz.

Eis, então, o que define este sentimento: um intervalo, uma distracção do tempo, a divina abstracção do infinito na transcendência do real.

[Nuno Júdice]

^^

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A tua Ausência


Pelas paredes cheira ainda à tua pele cutânea.

Mas desde que te foste
estar aqui é oco, cansativo, uma espera.
E às vezes
(como se tivéssemos chorado)
respirar custa.

Sobretudo nada apetece.
Sair para a rua? Ir então em frente a repetir os passos
passear nas avenidas a espaçar as horas
dispersar a espera?

Tudo cinzento. Choverá?
Aqui é que não fico. No quarto onde dormimos
o espaço sobra, e cada coisa já morreu ou está a mais.

Em toda a casa uma violência subterrânea:
a tua ausência.


[João Habitualmente]
^^

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O teu abraço cala-me as maiores tristezas...


O teu abraço cala-me as maiores tristezas. Não há silêncio meu que te assuste nem suspiro algum que não saibas de cor. Contigo não preciso esconder o medo. Muito menos fingir. Posso encolher-me no teu peito e deixar cair todas as lágrimas: irás secá-las com beijos. É assim que gosto de respirar o teu cheiro: encostada a ti. Não quero que me enchas de sonhos – sabes bem que os tenho comigo se não tos conto. Basta-me saber quanto os respeitas e estou certa de que continuaremos a não saber dançar a mesma canção. Mas eu só preciso que tu me entendas. Que continues a admirar-me a transparência e os olhos brilhantes. Que passeies comigo de mão dada à beira daquele jardim e me puxes para ti quando me julgares perdida. Eu não posso perder-te de vista. Não quero. Porque preciso de ti: tu sabes. Será por isso que não vais embora? Não foges e nem sequer te acobardas. Ficas sempre do outro lado do espelho pronto a alertar-me ao mínimo sinal de emergência. A poesia dentro de ti – ainda que duvides disso – faz-se de verdade e coragem. Não te sabes escrever de outra maneira. Não é necessário. Eu agradeço baixinho a seguir-te de perto e a pensar para mim que és a pessoa mais especial que conheço.


[mãos dadas e jardins ao sol]

^^

domingo, 25 de outubro de 2009

Um dia desses...


Um dia desse
Num desses
Encontros casuais
Talvez a gente
Se encontre
Talvez a gente
Encontre explicação...
Um dia desses
Num desses
Encontros casuais
Talvez eu diga:
-Meu amigo
Pra ser sincera
Prazer em vê-lo!
Até mais!...
[Trecho da música: Pra ser Sincero]
[Composição: Humberto Gessinger]
De qualquer modo dança,
De qualquer modo sente.
De qualquer modo o corpo contém o dia.
De qualquer modo as cores e o músculo.
De qualquer modo o coração.
De qualquer modo sempre no fundo a memória.
De qualquer modo sem teorias.
De qualquer modo com a teoria da poética que é não existir teoria e
só existir poética
De qualquer modo a ciência atrapalha um pouco mas não totalmente.
De qualquer modo curiosidade.
De qualquer modo coleccionar montanhas.
De qualquer modo acabar quando o ritmo exige que se continue
O ritmo exige coisas que não devemos aceitar obedecer ser escravos.

[Gonçalo M. Tavares]
^^

sábado, 24 de outubro de 2009

Vem comigo, vem?





Tenho um lugarzinho divinamente bonito para te mostrar. Um lugar muito escondido, tal como um pensamento se esconde dentro de um pensamento, na floresta verde, modesta, silenciosa. Uma ravina amena e branda aonde nunca ninguém vai.
É um lugar tão quente, enterrado por entre as árvores, tão docemente oculto, é aí que imagino que gostaria de te beijar, com beijos íntimos, brandos, doces e demorados, com beijos que proíbem todas as palavras, mesmo as mais belas e mais perfeitas.
É um lugar tão delicado e remoto que não vem mencionado em nenhum guia de viagens. Um pequeno trilho, serpenteando por entre a vegetação espessa, conduz à ravina, ao lugar fabuloso onde te quero mostrar, a ti, quanto te amo, onde quero prestar o meu culto, a ti, meu anjo.
Neste pequeno reduto, os braços entrelaçam-se como se tivessem vontade própria, e os lábios tocam-se como se tivessem vontade própria.
Não sabes ainda como eu beijo bem...
Vem então ao lugar onde nada existe para além do restolhar amável das árvores altas, aí ficarás a saber. Não direi uma palavra, e também tu não dirás uma palavra, ficaremos os dois em silêncio, só as folhas murmurarão levemente e a luz doce do sol irromperá através das graciosas ramadas.
Oh, como será mudo, como será mudo o momento em que os nossos lábios se juntarão com fome e sede amorosa, como será doce o momento em que nos amaremos na ravina silenciosa e amável. Amar-nos-emos e trocaremos carícias até que chegue a noite, e com ela as estrelas com brilho de prata e a divina lua. Nada teremos a dizer um ao outro, pois tudo será apenas um beijo, um beijo infinito, continuado, arrebatador, por horas e horas a fio. Quem quer amar já não quer falar, pois quem quer falar já não quer amar. Oh, vem comigo ao lugar sagrado e oculto da acção, ao lugar da prática, onde tudo se perde em concretização, onde tudo se afoga e morre no amor. Os pássaros cantarão à nossa volta com chilreios alegres, e à noite seremos rodeados por um silêncio divino. Aquilo a que chamam mundo ficará atrás das nossas costas, e nós os dois, cativos do desejo, seremos filhos da terra e sentiremos o que é viver, sentiremos o que é existir. Quem não ama não existe, não está aqui, está morto. Quem tem vontade de amar levanta-se dos mortos, e só quem ama está vivo.

[Robert Walser]

^^

sexta-feira, 23 de outubro de 2009


Uma aragem, leve depois de um dia
de multo calor.
Faltei ao emprego,
não fiz os deveres, não olhei para diante
nem para o lado, não fui
ao supermercado, não fiz
nem refiz abandonos.

Fiz de acaso, de imprevisto, não fui
à janela, não olhei o mar,
hoje, fiz todo o dia,
só isto.

[Helga Moreira]
^^

De ser o som do amor tão enleado
em cristalinas veias,
em palavras suaves, em recantos
que são gestos bem vivos e são letras
de irradiante lume,
havia este destino que era um lábio
a arder na vastidão de descobrir
o lugar onde ardia este esperar-te.

[João Rui de Sousa, Obra poética]

^^

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Mulher gorda na janela


Não há pressa nos seus olhos,
apenas o costume de estar só.
O seu olhar fixa as marcas que deixam os carros,
atenta em vão
ao que falta.
Apoia a cara no vidro frio
e repousa.
Olha as suas mãos redondas, pequenas,
toca nos seus seios grandes e quentes,
pensa nos seus pés e sorri maternalmente.
Corpulenta e doce como uma boa sopa,
murmura,
e no entanto está só.
Sabe que está fora mas não sabe de quê.
Ninguém percebe a sua paixão
pesada e gorda na janela.

[Beatriz Novaro]

^^

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Resposta ao tempo

Batidas na porta da frente
É o tempo
Eu bebo um pouquinho
Prá ter argumento

Mas fico sem jeito
Calado, ele ri
Ele zomba
Do quanto eu chorei
Porque sabe passar
E eu não sei

Num dia azul de verão
Sinto o vento
Há fôlhas no meu coração
É o tempo

Recordo um amor que perdi
Ele ri
Diz que somos iguais
Se eu notei
Pois não sabe ficar
E eu também não sei

E gira em volta de mim
Sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro
Sozinhos

Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto

E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Prá tentar reviver

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer

[Composição: Aldir Blanc/Cristovão Bastos]
^^

Guardas tudo de mim
– não sei se entendes
a ternura da dádiva –
também não te pergunto…
para quê?

O meu amor é isto:
desejar-te em segredo
pouco esperar do que vier de ti
e nada te pedir.

[Maria Aurora Carvalho Homem]

^^

terça-feira, 20 de outubro de 2009




Dedos quietos que crescem
pele nua
brincadeiras como o amor
pêndulo solto de sonhos
lógicas sacudidas
olhar de só-assim
modos de chegar como sementes
manobras de artesão contra o ego
desafio do «eu»
nudez de pele
de mãos
e (sob os teus olhos)
invenção de um sólido espanador de tristezas.

[Ondjaki, Materiais para confecção de um espanador de tristezas]

^^

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Não Quero


Não quero alguém que morra de amor por mim...
Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando.
Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.
Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim...
Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível...
E que esse momento será inesquecível...
Só quero que meu sentimento seja valorizado.
Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre...
E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.
Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém...
E poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto.
Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho...
Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente importa, que é meu sentimento...
E não brinque com ele.
E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo.
Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe... Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem humildade e paz.
Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro dia, e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos, talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.
Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas...
Que a esperança nunca me pareça um "não" que a gente teima em maquiá-lo de verde e entendê-lo como "sim".
Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder dizer a alguém o quanto ela é especial e importante pra mim, sem ter de me preocupar com terceiros...
Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.

[Mário Quintana]
^^

O perigo dos espelhos é exporem-se os ossos.
A luz reflui através das omoplatas, distribui-se
pelos flancos, concentra-se nos pés.
De alto a baixo somos vivas candeias acesas.
Entramos na obscuridade com o fascínio
de um dom próprio.
Não possuímos um deus, mas duas mãos lisas
e uma boca de vidro – e uma voz
que vai morrer.

Fazer estalar a amnésia, pouco a pouco,
ou de um só golpe. Ninguém acorda
senão numa sala de pânico.
Levas o dedo à ferida: uma fechadura.
E, rodando o dedo, há por baixo
uma tulipa aberta,
decifrada.
Podias amar concretamente esta dolorosa,
solitária investigação dos interiores,
as malhas soltas da luz.

Porque o mundo é um contínuo acto de costura.
Rompemos com o mistério apenas para
que se teça um mais alto e apaixonante enigma.
Tudo o que nos fulmina, cresce devagar.
Entende-se que seja assim, trôpego, o existir?
Não, não temos uma súbita iluminação,
mas recantos e recantos, penumbras
– e uma voz exausta que vai
morrer.

[Vasco Gato]
^^

Adiantamento





Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã, E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma... Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido
e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

[Álvaro de Campos]
^^

domingo, 18 de outubro de 2009


Há na intimidade um limiar sagrado,
encantamento e paixão não o podem transpor -
mesmo que no silêncio assustador se fundam
os lábios e o coração se rasgue de amor.

Onde a amizade nada pode nem os anos
da felicidade mais sublime e ardente,
onde a alma é livre, e se torna estranha
à vagarosa volúpia e seu langor lento.

Quem corre para o limiar é louco, e quem
o alcançar é ferido de aflição.
Agora compreendes porque já não bate
sob a tua mão em concha o meu coração.


[Anna Akhmátova]

^^
Os melhores anos da minha vida
passaram comigo ausente, passaram
numa corrente subterrânea.
Não me apercebi de nada, distraído
com a queda das folhas,
a densa mistura de pão e desordem.

Estava tudo em aberto, mas eu não sabia
senão de pequenas querelas,
e tímidos passos à toa, sempre à espera
de não ter futuro. Sentado, como um pobre,
sobre o poço de petróleo,
eu media com tesouras as semanas,
misturava-me com livros, ansiava
pelo dia em que deixasse de sangrar.

Os melhores anos da minha vida troquei-os
por isto.


[José Miguel Silva]
^^

Não digas ao que vens. Deixa-me
adivinhar pelo pó nos teus cabelos
que vento te mandou. É longe a
tua casa? Dou-te a minha: leio nos

teus olhos o cansaço do dia que te
venceu; e, no teu rosto, as sombras
contam-me o resto da viagem. Anda,

vem repousar os martírios da estrada
nas curvas do meu corpo - é um
destino sem dor e sem memória. Tens

sede? Sobra da tarde apenas uma
fatia de laranja - morde-a na minha
boca sem pedires. Não, não me digas
quem és nem ao que vens. Decido eu.

[Maria do Rosário Pedreira]

^^

sábado, 17 de outubro de 2009

Horas profundas, lentas e caladas,
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas…

Ouço as olaias rindo desgrenhadas…
Tombam astros em fogo, astros dementes.
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata pelas estradas…

Os meus lábios são brancos como lagos…
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras…

Sou chama e neve branca e misteriosa…
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

[Florbela Espanca]

^^

Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe que respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

foram os gestos contundentes; tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,
mas as sílabas caiam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.

[Maria do Rosário Pedreira]

^^



sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Recadinho:


"Dê a quem você ama
asas para voar
raízes para voltar
e motivos para ficar"

Por hoje é só!...
^^
Despi-me toda:
dos dedos ao ventre,
da minha pele à tua,
do meu pulsar à tua mão.
Estendi-me,
a oferenda dos deuses:
palpitante, morna,
balbuciando segredos.
E puseste as mãos
em concha, como ninhos,
e sentiste o fogo
e fechaste os olhos.
A luz brilhante cega
quando não a esperamos.

[Lourdes Espínola]

^^

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

En las horas de amortiguada luz, y música,
en las alegres noches de nuestra juventud,
velamos hasta que el alba llega,
y en el humo se quedan las palabras
que la sombra golpea,
las palabras borradas que fueron nuestra vida.

Hace tiempo que callo,
y son tristes las noches de nuestra juventud,
y el alba llega muerta.
Rodeado de frío vuelvo a la hostil ciudad,
y el clandestino amor me despide furtivo
desde las rotas sombras de los descampados,
y el día se alza lívido
como si sólo un muerto lo hubiese de habitar.

Con el recuerdo sólo de tu vida, porque fuiste mi vida,
qué abandonado estoy,
¿Y a quién le contaré lo que ahora siento?

[Francisco Brines]

^^

Na Nossa Casa

Quando anoiteceu
Nenhuma luz na nossa casa se acendeuAonde você estava?
Aonde estava eu?

Se tudo parecia nada, ainda assim...

O nada era mais do que o que você deixou no fim.

Quando aconteceu

Quando algo em que a gente acreditava se perdeu

Por onde você andava?

Por que não me socorreu?

Não é o fim do mundo é só o fim de tudo que fomos nós
Sem flutuar e sem tocar o fundo
Sempre sós.
[Composição: Herbet Vianna]
^^

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Batons e Cerejas


Recebi por email este texto, entretanto, me 'enviaram' sem autoria. Mas, mesmo assim, compartilho com vocês:

"Deixaste o batom vermelho em cima da mesa. Sempre quis dizer que o teu batom vermelho me fazia lembrar cerejas. Tu fazias-me lembrar cerejas. Sabias a cerejas. Penso que é um elogio. Afinal, quem não gosta de cerejas? E, no entanto, nunca te disse. Não te disse muita coisa.
Olho para o relógio. Já passa das dez da noite. Levanto-me e vou fazer um gin tónico. Sento-me e dou um pequeno gole. Pouso o copo na mesa. Lembro-me como costumavas beber o teu gin, com três pedras de gelo. Sempre pelo copo, nunca por uma palhinha. Rias-te quando te diziam que gin era uma bebida de homens. Rias-te e o teu batom vermelho fazia-te parecer mais mulher que nunca. Reparo que me esqueci de pôr uma base por debaixo do copo. Lembro-me como te rias sempre que eu te chamava a atenção para isso, como troçavas do meu cuidado com os móveis, do meu zelo de quase dona-de-casa. Muitos poderiam também dizer que essa tarefa te competia a ti, como mulher que eras e eu seria o estouvado homem que pousa a bebida na mesa, sem se importar se suja os móveis ou não. Se ouvisses alguém dizer uma coisa dessas, provavelmente ririas muito, também. Não te importavas com os politicamente-correctos, com as convenções, com as etiquetas. Simplesmente sentavas-te no sofá com a maior descontracção, davas um gole no gin tónico, deixavas o copo manchado com o teu batom vermelho e pousava-lo na mesa (sem base). E rias, rias muito. Eu costumava dizer-te que eras linda. E tu rias ainda mais e eu sentia-me um tolo ao dizê-lo. O problema é que só agora percebi porque é que te rias. Eu devia saber que tu, com o teu gosto pelo não-convencional, não gostavas que te considerassem linda. Em parte gostavas, claro, qualquer mulher gosta. Mas não era isso aquilo que querias destacar mais em ti.

Uma mulher linda não chega. Não é uma Mulher.
Sei hoje que preferias se eu te dissesse que eras uma mulher interessante.
Porque uma mulher linda não bebe gin tónico. Uma mulher interessante sim.
Uma mulher linda não ri demasiado, contém-se.
Uma mulher interessante ri-se naturalmente, com naturalidade.
Uma mulher linda põe uma base por debaixo do copo,
Uma mulher linda garante que o seu batom não mancha o copo.
Uma mulher linda sabe cozinhar.
Uma mulher linda está sempre penteada.
Uma mulher linda não fuma, porque isso lhe amarelece os dedos.
Uma mulher linda vai ao ginásio todas as semanas.
Uma mulher linda não come um bife, prefere uma salada.
Uma mulher linda não chega atrasada.
Uma mulher linda combina os sapatos com a mala.
Uma mulher linda não beija um homem só porque sim.
Uma mulher linda não vai para debaixo da chuva propositadamente, enquanto se ri, ri, ri.
Uma mulher linda nunca se ri quando lhe dizem que é linda, sorri apenas.
Nunca poderias ser uma mulher linda, não. Eras tão mais do que isso... Eras genuína. Eras única. E eras confiante na tua singularidade.

Uma vez beijaste-me a meio de uma frase. E as tuas cerejas valeram por mil palavras.
O teu corpo valia por um discurso inteiro. Eu costumava dizer que um dia, quando fôssemos mais velhos, íamos viver para uma casa ao pé da praia e que todas as noites bebíamos um gin tónico na varanda e eu pegava na guitarra e tocava algo para ti.
Aí, tu já não rias, sorrias apenas. E respondias com um simples 'talvez'.
Depois passavas os dedos pelo meu cabelo e olhavas para o fundo dos meus olhos. E o teu olhar era triste, tão triste. Acho que adivinhavas o que ia acontecer.

O gin tónico continua em cima da mesa. Perdi a vontade de o beber.
Vou buscar a guitarra. Passo os dedos pelas cordas e lembro-me como era passar os dedos pelas tuas costas. É impossível esquecer-te, estás em todo o lado. Esta casa cheira a ti. Respira-se o teu perfume em cada canto, em cada livro, em cada disco. Há fotografias tuas por todo o lado, aquelas que eu te tirava (e tu dizias: "Um dias vou saber tirar fotos bonitas como tu tiras").
O teu sorriso está em todo o lado, as cerejas estão por todo o lado. Fui atrás de um Channel barato, duma suposta mulher linda. Duns sapatos a condizerem com a mala. De um corpo de modelo e de uma alma vazia. De uma mulher que não ria, sorria apenas. Que fui eu fazer?
.
.
.
Cheguei a casa e encontrei apenas um batom vermelho em cima da mesa.
Mas não era o teu, a marca era outra.
Aquele era Channel, nunca seria teu.
Aquele era a prova da minha traição, da minha loucura. Nem deixaste um bilhete. Mas sabes?

Aquele batom nunca, nem por uma vez, soube as cerejas."
^^

O rosto mostra:
o lado do amor e o lado predisposto
para o choro
e para o íntimo
jogo do que se vê posto para repouso.

Demais denota vida:
quando respira
os ares reais
em sítio
próprio para sentir
que o dom do amor
é vivo ansioso.

[Fiama Hasse Pais Brandão]

^^

"Só hoje senti
que o rumo a seguir levava pra longe...
Senti que este chão
já não tinha espaço pra tudo o que foge.
Não sei o motivo pra ir
só sei que não posso ficar,
não sei o que vem a seguir
mas quero procurar (...)"

[Mafalda Veiga]
^^

Quero calma


Acordou em mim a vontade de ficar submersa n' água ouvindo o estrondoso silêncio que nela habita. Só eu e o vazio dos meus pensamentos. A mergulhar nas profundezas dessa calma...

^^

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Uma Palavra

Anda desde manhã uma palavra
a perseguir-me, a espreitar-me de longe
em atitude nítida de pose,
em clara posição de desafio
.

Sugere-se ligeira e disfarçada,
depois foge como uma Mata-Hari
lexical. Não sei o que em mim vê:
não tenho alta patente nem estatuto.

E contudo, ela anda por aí.
Sonora e inaudível, surge-me
do silêncio e dos ruídos longos,
brevíssima nos cantos - e perigosa.

Lá passou outra vez. E anda nisto
desde que me vesti e vi o sol.
Nada a faz desistir: nem a tarde
a cair, nem a minha ameaça de fuzis.

[Ana Luísa Amaral]

^^