Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Brincar de Viver

Quem me chamou
Quem vai querer voltar pro ninho
redescobrir seu lugar
Pra retornar
E enfrentar o dia-a-dia
Reaprender a sonhar
Você verá que é mesmo assim,
que a história não tem fim
Continua sempre que você responde sim
à sua imaginação
A arte de sorrir cada vez que o mundo diz não.

Você verá que a emoção começa agora
Agora é brincar de viver
E não esquecer, ninguém é o centro do universo.

Que assim é maior o prazer...

Você verá que é mesmo assim,
que a história não tem fim
Continua sempre que você responde sim
à sua imaginação
A arte de sorrir cada vez que o mundo diz não.

E eu desejo amar todos que eu cruzar pelo meu caminho
Como eu sou feliz, eu quero ver feliz
Quem andar comigo, vem...


[Compositor: Guilherme Arantes]

^^

E se eu tentasse
dar-te outra coisa
algo fora de mim,
nao saberias
que o pior de qualquer um
pode ser, no fim,
um acidente de esperança.

[Anne Sexton]
^^

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Quem de nós dois acordou primeiro?


Falemos claramente de obsessões. Não mais gestos interrompidos por palavras mansas. Hoje encontrei-te numa mesa de café. Trazias umas calças de bombazina e uma camisola de lã. Estiveste ali enquanto eu olhava o tecto e as paredes cor de laranja - a segurar-me esta mão que treme. Diria até que soubeste escolher a música e depois fechaste a porta. Voltaste – sorriso infantil – catraia debaixo do braço. Ela: trança no cabelo e a mesma curiosidade no brilho dos olhos. Tu: mergulhado nessa ternura de um amor maior.

Falemos agora de sonhos. Levantaste-te num repente e só eu depois. Deitada num sofá que não é nosso. O chá arrefeceu e a catraia fugiu. Não eras tu. Não podias ser tu. Eu sem catraia; eu sem ti. Eu sem nada. E a música a tocar a probabilidade de um grande amor a bater-me à porta. Fechada. Diz-me então com sinceridade: quem de nós dois acordou primeiro?

[Autor desconhecido]


^^

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Todos os Verbos

Errar é útil
Sofrer é chato
Chorar é triste
Sorrir é rápido
Não ver é fácil
Trair é tátil
Olhar é móvel
Falar é mágico
Calar é tático
Desfazer é árduo
Esperar é sábio
Refazer é ótimo
Amar é profundo
E nele sempre cabem de vez
Todos os verbos do mundo
Abraçar é quente
Beijar é chama
Pensar é ser humano
Fantasiar também
Nascer é dar partida
Viver é ser alguém
Saudade é despedida
Morrer um dia vem
Mas amar é profundo
E nele sempre cabem de vez
Todos os verbos do mundo.




[Compositor(es): Marcelo Jeneci Zélia Duncan]


^^

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Talvez...


No ar da sala, o fumo dos cigarros misturava-se com a música que saía das colunas do gira-discos. Todas as pessoas estavam juntas em conversas. Para lá da idade que tinham, eram demasiado jovens. Seguravam copos. Sorriam e entusiasmavam-se ou concentravam o olhar e ouviam. Na rua, talvez chovesse. Os vidros altos da porta da varanda não mostravam mais do que a noite. Ele e ela eram indistintos de todos os outros. As imagens dos seus rostos e dos seus corpos eram naturais entre os casacos aos quadrados, as camisas de colarinhos pontiagudos, as calças de fazenda. Estavam sentados no sofá, lado a lado, e tinham terminado de conversar no momento em que as palavras dele lentamente se dissolveram no fumo dos cigarros e na música que saía das colunas do gira-discos, no momento em que ela não soube responder a uma conclusão banal. Para lá das palavras e da memória das palavras, continuou o significado daquilo que realmente disseram enquanto conversavam: os riscos brandos do sorriso dele à volta dos cantos da boca, a atenção solícita dos olhos dela, o tronco dele a aproximar-se a cada frase, os dedos dela a acertarem os cabelos por trás das orelhas, os joelhos dele a tocarem as pernas dela, os lábios dela a articularem cada palavra como se estivessem pousados sobre os lábios dele.

Ela tinha talvez 25 ou 26 ou 27 anos. Ele tinha talvez a mesma idade. Ela tinha os cabelos lisos e escorridos sobre as costas. A pele do seu rosto era serena tal como se estivesse calma e desejasse ainda mais tranquilidade. Ele tinha os primeiros dias de uma barba que crescia e que já se podia imaginar. Os seus olhos eram o início de um caminho verde como uma floresta. De cada vez que um deles levava o copo aos lábios, o outro imitava-o e havia um momento em que pensavam na mesma coisa. Tinham sabido o nome um do outro há pouco mais de uma hora. Tinham começado a conversar porque as únicas pessoas que conheciam os tinham deixado juntos e tinham ido conversar com outros. Assim que foram apresentados, depois de sorrisos, simpatia, ele escolheu palavras para lhe perguntar o que fazia.

Ela respondeu que trabalhava numa produtora de cinema. Não lhe disse que passava os dias numa sala vazia, sentada a uma secretária, frente a um telefone que nunca tocava, a preocupar-se com a mãe que estava sozinha e deprimida em casa, com as facas todas alinhadas na gaveta dos talheres e com as promessas de matar-se ainda vivas na memória e com os pulsos ainda ligados pela última tentativa: a ambulância a serpentear pelas ruas, e ela com os dedos pousados sobre a testa da mãe, e a mãe com as pálpebras sem força pousadas sobre os olhos. Não lhe disse que chegava de manhã cedo, deixava a mala em cima da secretária e, depois de abrir as janelas, ficava imóvel e perdia todas as palavras dentro dos pensamentos. A claridade tocava os cartazes de filmes em que não tinha trabalhado, mas que tinha escolhido para afixar nas paredes. No fim da manhã, chegava o dono da produtora que, não esperando resposta, abrindo cartas com contas da luz e da água, perguntava se alguém tinha telefonado. Tinha sido ele que, na cama de uma pensão, durante um cigarro, a tinha convidado para trabalhar ali, quando ela ainda estava apaixonada e ainda acreditava que um dia ele iria deixar a mulher e, pedindo-lhe opiniões, iria realizar filmes lindos como os seus sonhos. Não lhe disse que, durante a hora de almoço, uma ou duas ou três vezes por semana, faziam sexo em cima da secretária, ou encostados à secretária, ou no chão em cima de um tapete. Não lhe disse que ele saía no início da tarde e que, só então, ela tirava a caixa de plástico da mala, os talheres embrulhados num guardanapo de pano e almoçava.

Ele falou longamente sobre cinema. Disse-lhe que ia muito ao cinema quando vivia na terra onde tinha nascido e de onde tinha saído para estudar Teatro no Conservatório. Não lhe disse que o homem do cinema o deixava sempre assistir de graça desde que ficasse durante todo o filme sentado no seu colo. Não lhe disse que, depois de cada filme, todos os rapazes que andavam com ele na escola, e todos os rapazes mais velhos, lhe chamavam nomes e lhe batiam. Não lhe disse que os homens ficavam encostados às grades da casa ao lado do café a verem e a rirem-se. No recreio da escola, batiam-lhe também. No caminho para a escola, batiam-lhe, tiravam-lhe a mala e espalhavam pelo chão os livros e os cadernos com páginas sujas de lama. Depois, já era mais velho, e os colegas continuavam a bater-lhe e desviava o olhar, ficava parado quando os rapazes mais novos lhe vinham dar pontapés nas pernas e murros no centro das costas. Não lhe disse que, nos três anos de Conservatório, não tinha conseguido passar a nenhuma disciplina porque tinha vergonha da sua própria voz, porque tropeçava na sua própria voz em cada palavra que tinha de dizer. À noite, trabalhava num bar onde via actores e onde falava com alguns deles, onde lhes oferecia copos de plástico com vodka e sumo de laranja, e onde se ria exageradamente de cada vez que algum dizia uma piada. Depois, voltava para o seu quarto, adormecia a pensar e, pouco depois, quando amanhecia, não tinha forças para se levantar. A viúva que lhe arrendava o quarto batia à porta e perguntava-lhe se não ia às aulas, dizia-lhe que arrendava quartos a estudantes e não a vagabundos. Então, levantava-se, vestia-se e caminhava sozinho pelas ruas da baixa. Olhava para as montras e sentava-se à frente de uma chávena vazia de café nas esplanadas onde sabia que não chegariam empregados a perguntar-lhe o que queria tomar.

Ela disse-lhe que uma produtora de cinema precisa sempre de actores. Ele disse-lhe que um actor precisa sempre de produtoras de cinema. Riram-se. E disseram muitas coisas. E não disseram muitas coisas. No ar da sala, a música do gira-discos era indistinta do fumo dos cigarros e bebidas no colo. Havia algum tempo que grupos de pessoas tinham escolhido momentos para se despedirem com sorrisos e saírem.(...)

[José Luís Peixoto]


^^

domingo, 29 de novembro de 2009

Desconstruindo Amélia


Já é tarde, tudo está certo
Cada coisa posta em seu lugar
Filho dorme, ela arruma o uniforme
Tudo pronto pra quando despertar

O ensejo a fez tão prendada
Ela foi educada pra cuidar e servir
De costume esquecia-se dela
Sempre a última a sair

Disfarça e segue em frente
Todo dia, até cansar
E eis que de repente ela resolve então mudar
Vira a mesa,
Assume o jogo
Faz questão de se cuidar
Nem serva, nem objeto
já não quer ser o outro
hoje ela é um também

Hoje aos trinta é melhor que aos dezoito
Nem Balzac poderia prever
Depois do lar, do trabalho e dos filhos
Ainda vai pra night ferver...

[Pitty]

^^

sábado, 28 de novembro de 2009

Gosto de Viver...


- Claro que lhe desagrada deixar-se psicanalisar...

- Sim... claro que me desagrada. Eu, aliás, não sou uma pessoa interessante. Sou uma pessoa interessada. O que é diferente...

- Interessada por quê?

- Por tudo, e por nada... pela vida. Gosto de viver.


[Boris Vian]


^^

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras.

[António José Forte]


^^

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Sob a Luz do Sol

Quero das horas escuras cumplicidade em qualquer loucura
Quero as noites em claro a eletricidade, um luar de mil watts
Já não morro mais de medo que o tempo escorra pelos dedos
Já não sinto quase nada na madrugada fria

Quero a sujeira das ruas nas veias do asfalto quero me injetar
Quero o perigo correndo comigo sem nunca poder me alcançar
Já não morro mais de medo que o tempo escorra pelos dedos
Já não vejo quase nada sob a luz do sol...

Quero a cidade vazia o clarão do dia me ofusca a visão
Minha cabeça lateja meu corpo cansado se espalha no chão
Já não morro mais de medo que o tempo escorra pelos dedos
Já não sou mais quase nada sob a luz do sol...

[Composição: RPM]


^^

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Declare Guerra aos que Fingem te Amar!


Vivendo em tempo fechado
Correndo atrás de abrigo
Exposto a tanto ataque
Você ta perdido

Nem parece o mesmo
Tá ficando pirado
Onde você encosta dá curto
Você passa, o mundo desaba

E pra te danar
Nada mais dá certo
E pra piorar
Os falsos amigos chegam
E pra te arrasar
Quem te governa não presta

Declare guerra aos que fingem te amar
A vida anda ruim na aldeia
Chega de passar a mão na cabeça
De quem te sacaneia

Vivendo em tempo fechado
Correndo atrás de abrigo
Exposto a tanto ataque
Você ta perdido

E pra se ajudar
Você faz promessas
E pra piorar
Até o papa te esquece
E pra te arrasar
Nem o inferno te aceita...
.
.
[Cazuza]
^^

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Chegamos ao fim da canção
e paro um pouco pra dormir
é tarde pra voltarmos atrás
já nem há motivo algum para rir

É como ouvir alguém dizer:

vê nessa procura
uma razão
pra virar a dor para dentro

que é virar o amor para dentro

falo de um amar para dentro
que é virar a dor para dentro.

[Ornatos Violeta]

^^

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Aqui estou


A vida brinca na praça
com o ser que nunca fui

e aqui estou

dança pensamento
na corda do meu sorriso

e todos dizem que isto passou e é
vai passando
vai passando
o meu coração abre a janela

vida aqui estou

a minha vida
o meu sangue só e hirto
fere no mundo

mas quero saber-me viva
não quero falar
de morte
nem das suas estranhas mãos.


[Alejandra Pizarnik]

^^

domingo, 22 de novembro de 2009

Procuro...


As coisas que procuro
Não têm nome.
A minha fala de amor
Não tem segredo.


Perguntam-me se quero
A vida ou a morte.
E me perguntam sempre
Coisas duras.

Tive casa e jardim.
E rosas no canteiro.
E nunca perguntei
Ao jardineiro
O porquê do jasmim
- Sua brancura, o cheiro.


Queiram-me assim.
Tenho sorrido apenas.
E o mais certo é sorrir
Quando se tem amor
Dentro do peito.


[Hilda Hilst]
^^

Casar ou Comprar uma Bicicleta?

Hoje é meu dia lá no:

Clique aqui e confira esse tema que vai dar o que falar!

^^

sábado, 21 de novembro de 2009


Como se ontem e os dias antes de ontem
se tivessem desfeito sobre as prateleiras,

como se pudéssemos escrever palavras
nas suas cinzas com a ponta do dedo,

como se bastasse soprar para vermos
as suas imagens de novo, numa nuvem.

[José Luís Peixoto, Gaveta de Papéis]
^^

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Sonho. Não sei quem Sou.


Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
Minha alma não tem alma.
Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
Coração de ninguém.

[Fernando Pessoa - Cancioneiro]
^^

E ao Anoitecer

E ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da m-e-l-a-n-c-o-l-i-a

[Al Berto]

^^

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A Invenção do Amor

Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com caracter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio
A descoberta
A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem e uma mulher um cartaz denuncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A policia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e nas avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique Antes
que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos
Chamem as tropas aquarteladas na província
Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos decrete-se a lei marcial com todas as consequências
O perigo justifica-o Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade

É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas

Fechem as escolas Sobretudo
protejam as crianças da contaminação
uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros É absolutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade

Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio das normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas
...

É possível que cantem
mas defendam-se de entender a sua voz Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
lhe lembravam a infância Campos verdes floridos
Água simples correndo A brisa das montanhas
Foi condenado à morte é evidente É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta
...

Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua

[Daniel Filipe]

^^

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Meu corpo
é um tear vertical
onde deixaste cruzadas
as cores da tua vida : duas faixas um losango
marcas da peste.

Meu corpo
é uma floresta fechada
onde escolheste o caminho

Depois de te perderes
guardaste a chave e o provérbio.

[Ana Paula Tavares]

^^

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Estoy Aquí


Aquí estoy,
desnuda,
sobre las sábanas solitarias
de esta cama donde te deseo.

Veo mi cuerpo,
liso y rosado en el espejo,
mi cuerpo
que fue ávido territorio de tus besos;
este cuerpo lleno de recuerdos
de tu desbordada pasión
sobre el que peleaste sudorosas batallas
en largas noches de quejidos y risas
y ruidos de mis cuevas interiores.

Veo mis pechos
que acomodabas sonriendo
en la palma de tu mano,
que apretabas como pájaros pequeños
en tus jaulas de cinco barrotes,
mientras una flor se me encendía
y paraba su dura corola
contra tu carne dulce.

Veo mis piernas,
largas y lentas conocedoras de tus caricias,
que giraban rápidas y nerviosas sobre sus goznes
para abrirte el sendero de la perdición
hacia mi mismo centro,
y la suave vegetación del monte
donde urdiste sordos combates
coronados de gozo,
anunciados por descargas de fusilerías
y truenos primitivos.

Me veo y no me estoy viendo,
es un espejo de vos el que se extiende doliente
sobre esta soledad de domingo,
un espejo rosado,
un molde hueco buscando su otro hemisferio.

Llueve copiosamente
sobre mi cara
y sólo pienso en tu lejano amor
mientras cobijo
con todas mis fuerzas,
la esperanza.

[Gioconda Belli]