Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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quinta-feira, 5 de abril de 2012

Do Lado de Dentro


Sou feito de esquinas. Cada um se esconde em cada tu em cada uma. Arrependo-me. Grito ao mar de anónimos que me cansam ainda que em vão por entre eles te busquei.
O amor compassado e irregular como um signo.
E procuro-te sempre, na ausência da carne que os dias me traçam sobre a pele.

E depois na presença eu
presença tu



[Manuel Cintra]


^^

quarta-feira, 4 de abril de 2012

A Dor da nossa própria Solidão



^^

Na Primeira Manhã


Na primeira manhã que te perdi
Acordei mais cansado que sozinho

Como um conde falando aos passarinhos
Como uma bumba-meu-boi sem capitão
E gemi como geme o arvoredo
Como a brisa descendo das colinas
Como quem perde o prumo e desatina
Como um boi no meio da multidão

Na segunda manhã que te perdi
Era tarde demais pra ser sozinho
Cruzei ruas, estradas e caminhos

Como um carro correndo em contramão
Pelo canto da boca num sussurro
Fiz um canto demente, absurdo
O lamento noturno dos viúvos
Como um gato gemendo no porão
Solidão.



[Alceu Valença]



^^

terça-feira, 3 de abril de 2012

Mais Feliz


O nosso amor não vai parar de rolar
De fugir e seguir como um rio
Como uma pedra que divide o rio
Me diga coisas bonitas


O nosso amor não vai olhar para trás
Desencantar nem ser tema de livro
A vida inteira eu quis um verso simples
Pra transformar o que eu digo


Rimas fáceis, calafrios
Fura o dedo, faz um pacto comigo
Um segundo teu no meu
Por um segundo mais feliz



[Bebel Gilberto]


^^

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Porque...


Porque os outros se mascaram mas tu não.
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos
Porque os outros calculam mas tu não.


[Sophia de Mello Breyner]



^^

domingo, 1 de abril de 2012

Dentro das minhas Divisões


Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões.
Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo
Se se recorda dos movimentos migratórios
E das estações.
Mas não me importo de adoecer no teu colo
De dormir ao relento entre as tuas mãos.


[Daniel Faria]
^^

sexta-feira, 30 de março de 2012

O que não se Grita


a vida que não sei, esta agonia
de ser enigma, azar, criptografia
e toda esta discórdia de Babel.

por trás do nome há o que não se grita;
hoje senti a sombra que gravita
nesta agulha tão leve e azul e nova

visando o mar e os seus confins medonhos,
com algo de relógio visto em sonhos
e de ave adormecida que se move.

[Jorge Luis Borges]


^^

quarta-feira, 28 de março de 2012

Tal uma Flor que te Florisse


Canta. Busca na vida o que é perfeito.
Olha o Sol e não queiras outro guia.
Sonha com a noite e absorve, aspira o dia
tal uma flor que te florisse ao peito.

Da terra maternal faz o teu leito.
Respira a terra e bebe o luar. Confia.
Faz de cada pena uma alegria
E um bem de cada mal insatisfeito.

Colhe todas as flores do jardim,
todos os frutos do pomar e, enfim,
colhe todos os sonhos do universo.

Procura eternizar cada momento,
fecha os olhos a todo o sofrimento
e terás feito a carne do teu verso.


[Fernanda de Castro]
^^

terça-feira, 27 de março de 2012

Presídio


Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?

E o ventre, inconsistente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor ... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...


É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

Vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!




[David Mourão Ferreira]


^^

segunda-feira, 26 de março de 2012

Vermelho


Gostar de ver você sorrir
Gastar das horas pra te ver dormir

Enquanto o mundo roda em vão
Eu tomo o tempo
O velho gasta solidão
Em meio aos pombos na Praça da Sé
O pôr do Sol invade o chão do apartamento

Vermelhos são seus beijos
Quase que me queimam
Que meigo são seus olhos
Lânguida face
Seus beijos são vermelhos
Quase que me queimam

Que meigos são seus olhos
Lânguida face

Ver que tudo pode retroceder
Que aquele velho pode ser eu
No fundo da alma há solidão
E um frio que suplica um aconchego



[Vanessa da Mata]


^^

domingo, 25 de março de 2012

Tempo Branco


Foi um tempo branco, repetidamente lavado nas próprias mãos
Desviando a transparência do rosto para a noite
Um tempo branco muito diferente da verdade
Muito diferente das estrelas que se apagam

Foi um tempo muito branco
Mais doloroso do que os olhos sempre abertos no escuro
Inimaginável quando pus de fora a cabeça, as mãos
— tendo deposto o que trazia nelas —
O corpo todo
E saí como um paralítico depois do milagre
Na forma de quem grita por socorro

Foi um tempo branco porque era mudo
E não havia nenhuma palavra que pudesse apagá-lo
Um tempo tão manso como um lobo que não morde
Um tempo tão branco
Tão raso

Saí como um coxo que caminha sobre o tempo tão liso
Tão branco
Que pensei que era um muro aquele tempo estar ali
E bati contra ele como uma badalada que demora

E era branco, um som que nunca ouvi.


[Daniel Faria]


^^

sábado, 24 de março de 2012

Palavras


Durante alguns anos devíamos fazer uma cura de palavras e de escrita. Mudos e cegos até ficarmos curados. Há uma ténue e trágica ligação de dependência entre a vida e as palavras. É uma ponte de corda sobre um abismo. Não se pode viver sem pensar e não se pode pensar sem palavras. Mas as palavras, quando despojadas da vida, são a hemorragia, o esvaziamento da alma. A hemorragia das palavras está a perder a nossa civilização. Os homens e as sociedades estão a esvaziar-se. Vivemos uma existência anémica porque abusámos das palavras. Os discursos não param. Perdemos a nossa vida em discussões, em confissões públicas, em debates, em processos. Vai ver que vamos passar à história como a idade dos processos. Estamos a ser sangrados pelas palavras.

[in Os Nós e os Laços - António Alçada Baptista]
^^

quinta-feira, 22 de março de 2012

O Amor


O amor é a ocasião única de amadurecer, de tomar forma, de nos tornarmos um mundo para o ser amado.
É uma alta exigência, uma ambição sem limites, que faz daquele que ama um eleito solicitado pelos mais vastos horizontes.


[Rainer Maria Rilke]


^^

quarta-feira, 21 de março de 2012

A Luz


A luz afoga-se no silêncio destes lugares desertos.

[Al Berto - in Praias, Anjo Mudo]
^^

Casa honesta



O cheiro a bolo, um cheirinho maravilhoso a casa honesta (...).


[in Vento Suão - Rosa Lobato Faria]

terça-feira, 20 de março de 2012

Noite do meu Inverno


E se o vento varrer as folhas secas sem deixar nenhuma?

Este Outono ela não guardará folhas dentro dos livros
E ele não escreverá mais poemas a falar da sua morte
E ambos serão obrigados a não sair do Verão, mesmo
no Inverno, à chuva, atrás dos vidros.



[António Barahona]
^^

sexta-feira, 16 de março de 2012

Mendiga Voz


E ainda me atrevo a amar
o som da luz numa hora morta
a cor do tempo num muro abandonado.

No meu olhar perdi tudo.
É tão longe pedir. Tão perto saber que não há.



[Alejandra Pizarnik]




^^