Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

Redes Sociais

https://www.facebook.com/danielle.manhaes --- Instagram: @danielle.manhaes @danielle.manhaes_psi

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Lágrimas Pretas




Não fique assustado

Hoje fiz um movimento louco dentro do meu sonho
Hoje fiz um movimento louco dentro do meu sonho
Você já saiu algum dia da casa do pai?
Esse é o som e você é a mulher que eu sou
A minha primeira visão da terra tinha cortina de água

Essa noite fiz um movimento louco dentro do meu sonho
(a minha primeira visão da terra)
A minha primeira visão da terra tinha cortina de água

Não me lembro de ter fome
Não me recordo de frio nem calor
Eu não me lembro
Você já viu alguma mulher derramando lágrimas pretas?
Você sabe quem eu sou?

Você já viu uma mulher derramando lágrimas pretas na face?
Lágrimas pretas
Lágrimas pretas
Não fique assustado ao ver a mulher pintada chorando lágrimas pretas
Eu amo tanto
Você já viu uma mulher derramando lágrimas pretas na face?
Lágrimas pretas
Lágrimas pretas
Não fique assustado

A minha primeira visão da terra tinha cortina de água
Essa noite fiz um movimento louco dentro do meu sonho
A minha primeira visão da terra tinha cortina de água
Essa noite fiz um movimento louco dentro do meu sonho

Não fique assustado


[Pitty]


^^

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Andavam de noite



Andavam de noite aos segredos
Só porque era noite...
Os bosques enchiam de medos
Quem quer que se afoite
Diziam palavras que pesam
À sombra de alguém
Ninguém os conhece, e passam
Não eram ninguém...

Fica só na aragem e na ânsia
Saudade a fingir
Foi como se fora distância...
Eu torno a dormir.


[Fernando Pessoa]


^^

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Datilografia



Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,
Firmo o projeto, aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.
Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Que náusea da vida!
Que abjeção esta regularidade!
Que sono este ser assim!

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.

Outrora.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.

Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.

Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;
Neste momento, pela náusea, vivo na outra ...

Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de escrever.


[Álvaro de Campos]


^^

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Uma Questão de Sentimento




Como é a sensação quando todo mundo te rodeia? Como você lida com isso? As multidões te fazem se sentir só? O que você diz quando as pessoas vêm tentar te obrigar a se definir?
Os conhecidos sorriem, mas não há nenhuma compreensão nisso... Como, depois de algum tempo, você continua a cair da mesma montanha? Tente explicar isso, mas nada realmente chega tão alto assim.
Saia sorrateiramente de manhã, o amor já é passado para você. É um hábito que você está criando, este corpo desesperado por algo novo. Apenas uma questão de sentimento; Esses momentos de loucura certamente vão passar. E as lágrimas secarão enquanto você parte; Quem sabe, você pode achar algo que dure.
A emoção é um jogo, guardado para uma segunda chuvosa. Mas você ri do mesmo modo, pois caiu um toró no domingo. Ligue para seus números, nunca deixe os zeros te colocarem pra baixo.
Como é a sensação? O tempo é pesado demais para segurar? O que quer que você decida no momento é sagrado. Sempre que você desacelera para ver a vida passar...


[Duran Duran - A Matter of Feeling]


^^

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Andrea Doria



Às vezes parecia
Que de tanto acreditar
Em tudo que achávamos
Tão certo...

Teríamos o mundo inteiro
E até um pouco mais
Faríamos floresta do deserto
E diamantes de pedaços
De vidro...

Mas percebo agora
Que o teu sorriso
Vem diferente
Quase parecendo te ferir...

Não queria te ver assim
Quero a tua força
Como era antes
O que tens é só teu
E de nada vale fugir
E não sentir mais nada...

Às vezes parecia
Que era só improvisar
E o mundo então seria
Um livro aberto...

Até chegar o dia
Em que tentamos ter demais
Vendendo fácil
O que não tinha preço...

Eu sei é tudo sem sentido
Quero ter alguém
Com quem conversar
Alguém que depois
Não use o que eu disse
Contra mim...

Nada mais vai me ferir
É que eu já me acostumei
Com a estrada errada
Que eu segui
E com a minha própria lei...

Tenho o que ficou
E tenho sorte até demais
Como sei que tens também...


[Legião Urbana]


^^

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Ainda que dentro de mim...



...as águas apodreçam e se encham de lama e ventos ocasionais depositem peixes mortos pelas margens e todos os avisos se façam presentes nas asas das borboletas e nas folhas dos plátanos que devem estar perdendo folhas lá bem ao sul e, ainda que você me sacuda e diga que me ama e que precisa de mim: ainda assim não sentirei o cheiro podre das águas e meus pés não se sujarão na lama e meus olhos não verão as carcaças entreabertas em vermes nas margens, ainda assim eu matarei as borboletas e cuspirei nas folhas amareladas dos plátanos e afastarei você com o gesto mais duro que conseguir e direi duramente que seu amor não me toca nem me comove e que sua precisão de mim não passa de fome e que você me devoraria como eu devoraria, você ah se ousássemos.

[Caio Fernando de Abreu]


^^

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Quero



Quero ser criança, mulher, homem, et, megera, maluca e, ainda assim, olhada com total reconhecimento de território. Quero sexo na escada e alguns hematomas e depois descanso numa cama nossa e pura. Quero foto brega na sala, com duas crianças enfeitando nossa moldura. Quero o sobrenome dele, o suor dele, a alma dele, o dinheiro dele (brincadeira...). Que ele me ame como a minha mãe, que seja mais forte que o meu pai, que seja a família que escolhi pra sempre. Quero que ele passe a mão na minha cabeça quando eu for sincera em minhas desculpas e que ele me ignore quando eu tentar enrolá-lo em minhas maldades. Quero que ele me torne uma pessoa melhor, que faça sexo como ninguém, que invente novas posições, que me faça comer peixe apimentado sem medo, respeite meus enjôos de sensibilidade, minhas esquisitices depressivas e morra de rir com meu senso de humor arrogante. Que seja lindo de uma beleza que me encha de tesão e que tenha um beijo que não desgaste com a rotina.

[Tati Bernardi]


^^

domingo, 18 de dezembro de 2011

Destino Traçado no berço


Eu sei que vou.
Insisto na caminhada.
Se amanhã o que eu sonhei não for bem aquilo, eu tiro um arco iris da cartola.
E refaço
Colo
Pinto e bordo.
Porque a força que vem de dentro é maior.
Maior que todo mal que existe no mundo.
Maior que todos os ventos contrários.
É maior porque é do bem.
E nisso sim, acredito até o fim.
O destino da felicidade, me foi traçado no berço.

[Caio Fernando de Abreu]


^^

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

In Extremis



Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia
Assim! de um sol assim!
Tu, desgrenhada e fria,
Fria! postos nos meus os teus olhos molhados,
E apertando nos teus os meus dedos gelados...

E um dia assim! de um sol assim! E assim a esfera
Toda azul, no esplendor do fim da primavera!
Asas, tontas de luz, cortando o firmamento!
Ninhos cantando! Em flor a terra toda! O vento
Despencando os rosais, sacudindo o arvoredo...

E, aqui dentro, o silêncio... E este espanto! e este medo!
Nós dois... e, entre nós dois, implacável e forte,
E arredar-me de ti, cada vez mais, a morte...

Eu, com o frio a crescer no coração, — tão cheio
De ti, até no horror do derradeiro anseio!
Tu, vendo retorcer-se amarguradamente,
A boca que beijava a tua boca ardente,
A boca que foi tua!

E eu morrendo! e eu morrendo
Vendo-te, e vendo o sol, e vendo o céu, e vendo
Tão bela palpitar nos teus olhos, querida,
A delícia da vida! a delícia da vida!


[Olavo Bilac - livro Poesias - 1902]


^^

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Até de olhos fechados se pressente...



...o brilho das coisas quietas, as idas e vindas, os êmbolos, a inquieta vibração de estarem vivas.

[Rosa Maria Martelo]


^^

domingo, 11 de dezembro de 2011

Ler-te. Mansamente. Amar-te mansamente.



Inverter-te a química.

Da intensidade e nela repousar o pensamento...

lamber-te o fulgor em que me abismo.

[Maria Gabriela Llansol]




^^

Em cada Cem Pessoas:





sabendo de tudo mais do que os outros:
- cinquenta e duas,
inseguras de cada passo:
- quase todas as outras,
prontas a ajudar desde que isso não lhes tome muito tempo:
- quarenta e nove, o que já não é mau,
sempre boas porque são incapazes de ser de outro modo:
- quatro; enfim, talvez cinco,
prontas a admirar sem inveja:
- dezoito,
induzidas em erro por uma juventude afinal tão efémera:
- mais ou menos sessenta,
com quem não se brinca:
- quarenta e quatro,
vivendo sempre angustiadas em relação a alguém ou a qualquer coisa
- setenta e sete,
dotadas para serem felizes:
- no máximo vinte e tal,
inofensivas quando sozinhas mas selvagens quando em multidão:
- isso, o melhor é não tentar saber nem mesmo aproximadamente,
prudentes depois do mal estar feito:
- não mais do que antes,
não pedindo nada da vida excepto coisas:
- trinta, mas preferia estar enganada,
encurvadas, sofridas, sem uma lanterna que lhes ilumine as trevas
- mais tarde ou mais cedo, oitenta e três,
justas
- pelo menos trinta e cinco, o que já não é nada mau,
mas se a isso juntarmos o esforço de compreender
- três,
dignas de compaixão:
- noventa e nove,
mortais:
- cem por cento,

número que, de momento, não é possível alterar.



[Wislawa Szymborska]


^^