Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Na suíte 16 - O que começa não termina



...do barzinho ao paraíso: E em 'péssima' companhia.

Era esse o sabor em sua pele o enxofre misturado com mel. Assim que me enchi de coragem fui caminhar pelo lado selvagem. Pensei: "Não me olhe assim" - Já sei o que quer de mim... E não é preciso ser vidente aqui; para um mal como você não há corpo que aguente.
O feito está feito.
Voltei a tropeçar com a mesma pedra de sempre. Se sente tão bem com tudo o que faz mal e com você nunca é suficiente...

[Shakira]


^^

domingo, 4 de setembro de 2011

Ela vivia


... de um estreitamento no peito: - A VIDA.

[Clarice Lispector]


^^

Sessão pipoca - Sexo Frágil - Para que serve um homem?




Pérolas desse episódio:

"- Malu, o que é que esta criatura tem que eu não tenho?
Ou melhor: o que eu não tenho que ela tem?
Eu digo mais: o que é que vc tem pra me dizer que eu não sei?
Ou melhor: o que é que vc tem pra me dizer que eu já sei, mas eu não quero acreditar?"



♪ Eu não sou cachorro, não
Pra viver tão humilhado
Eu não sou cachorro, não
Para ser tão desprezado...♪




Homem serve só para matar baratas.(ponto)
Logo,
Viva as Baratas!!!

^^

Roda Morta



O triste nisso tudo é tudo isso
Quer dizer, tirando nada, só me resta o compromisso
Com os dentes cariados da alegria
Com o desgosto e a agonia da manada dos normais.


O triste em tudo isso é isso tudo
A sordidez do conteúdo desses dias maquinais
E as máquinas cavando um poço fundo entre os braçais,
eu mesmo e o mundo dos salões coloniais.

Colônias de abutres colunáveis
Gaviões bem sociáveis vomitando entre os cristais
E as cristas desses galos de brinquedo
Cuja covardia e medo dão ao sol um tom lilás.

Eu vejo um mofo verde no meu fraque
E as moscas mortas no conhaque que eu herdei dos ancestrais
E as hordas de demônios quando eu durmo
Infestando o horror noturno dos meu sonhos infernais.

Eu sei que quando acordo eu visto a cara falsa e infame
como a tara do mais vil dentre os mortais
E morro quando adentro o gabinete
Onde o sócio o e o alcaguete não me deixam nunca em paz

O triste em tudo isso é que eu sei disso
Eu vivo disso e além disso
Eu quero sempre mais e mais.
mais e mais...




"Quem sou?!
Um ator solto no teatro cósmico!"



[Zeca Baleiro]



^^

sábado, 3 de setembro de 2011

O tempo acaba o ano, o mês e a hora,



A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora;

O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.

O tempo o claro dia torna escuro
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grão bonança.

Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.


[Luís de Camões]


^^

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado:

pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente.

[Clarice Lispector]


^^

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Chamada para os maus Poetas



Precisa-se de maus poetas.
Boas pessoas, mas poetas
maus. Dois, cem, mil maus poetas
precisam-se para que rebentem
as dez mil flores do poema.

Que neles viva a poesia,
a desnecessária, a fútil, a subtil
poesia imprescindível. Ou o in-
verso: a poesia necessária,
a prescindível para viver.

Que floresçam dez mãos no pântano
e na cova um Ele, um Juan,
um Gelman como elefante a abarrotar
de vidro partido,
ou um Rojas desfeito, mendigando
à Rainha de Espanha.

(Agora Espanha
voltou a ser um reino e tem Rainha
e Rei do reino. Espanha é um tabuleiro
de bispos politizados e peões
recém-comidos: à direita, negros,
paralisados, fora-de-jogo).

E aqui há torres de borracha, bispos
politizados e mulheres-polícia
a vigiar a casa.

À casa do homem,
por fome, correm todos, saltam
do quadrado, e são comidos.

Tudo isso abunda: faltam os poetas,
os mil, os dez mil maus, cada um
armado com o seu livro de merda.
Faltam os seus ensaiozinhos e romances em preparação.
Ah… e os curricola,
e as suas dez mil applys nos faltam.

Não é a morte do homem, é uma
grande ausência humana de maus poetas.
Que floresçam cem milhões de tentativas abortadas,
releituras, perturbações, fólios de cartão, ilustrações
de gente amiga, jantares com gente amiga,
exegeses, escólios,
tempo perdido como tudo.

Precisa-se de poetas gay, poetas
lésbicas, poetas
consagrados à questão do género,
poetas que cantem a fome, o homem,
o nome do seu bairro, a arte e a indústria,
a estabilidade das instituições,
a camada de ozono, o buraco
da revolução, o orifício azedo
das mulheres, o latido inaudível
do Pentium, a guerra
entendida como continuidade da política,
do comércio,
do ócio de escrever.

Precisa-se de Betos, Titos, Carlos
que escrevam poemas. Alejandras e Marthas
que escrevam. Nomes para poetas,
anagramas, pseudónimos e contra-senhas
para a chat room do verso precisam-se.


Uma poesia aqui do cirurgião nas calçadas.
Uma poesia aqui da mendicidade nas instituições.
Uma poesia dos salões de leitura de versos.

Uma poesia pelas ruas (venham ver os
versos pelas ruas…)

Uma poesia cosmopolita (subam para ver
os versos na Web…)

Uma poesia de amor actualizado (desçam para ver
poesia na manjedoura do amor…)

Uma poesia explosiva: etarra, ética,
politicamente equivocada.

Nos papéis, nos canais culturais
por cabo, nas telas e nos monitores,
nas antologias e nas revistas
e nos livros e nas emissões clandestinas
de frequência modulada procura-se
poetas e maus poetas:
grandes poetas celebrados pequenos,
poetas notórios, plumas iluminadas,
homens triviais, miméticos,
deteriorados pelo álcool,
descerebrados pela droga,
hipnotizados pelo sexo,
idiotizados pelo rock,
odiados, amados pela gente aqui.

Nas habitações procura-se.
Num bar, nos flippers,
nos minutos de descanso na oficina,
entre duas aulas de gramática,
na classe média, nos bairros
vigiados procura-se.

Haverá na tropa?
Nos balneários, nos banhos públicos
que começaram a construir?
Nos certames de versos?
Nos torneios de mini-futebol?
Debaixo do sol quieto?
A sós com a sua língua?
A sós com uma ideia repetitiva?
Com gente?
Sem amor?

Não é o fim da história, é o início
da histeria lingual.

Tudo começa e nasce de uma necessidade forjada na língua.
Falsifiquemos o desejo:
Preciso de ti, bebé.
Para começar preciso de ti.
Para necessitar, peço-te
esse minuto de poesia de que preciso, tolo:
quero que me devolvas o ritmo de
um poema errado,
que me acaricies com as suas quebras,
que me perturbes a mente com outra ideia banal,
e que me banhes todo com a trivialidade do mediano.

E a meio do caminho, no começo
da comédia terrena, quero viver
a insanidade e a necessidade
de um sentimento falso.

Precisa-se de novos sentimentos,
novos pensamentos imbecis,
novas
propostas para a mudança, causas para
temer, para ter
aqui no sul.

E até Espanha é um mosaico
de formigas orientais:
romenas, tunisinas,
suecas à sombra de um Rei.

Riamos do Rei.
Da sua fealdade.
Da sua fatalidade.
Da Sua Graciosa Realidade.

A realidade é um sonho partilhado:
A realidade de Espanha
é a sua vigorosa língua pronunciando o eñe
e a sua manchada espada pronunciando a ordem
do capital e da sintaxe.

Ai, língua:
afasta de mim este caderno de prosperidade

cravado na tua virilha,
saturada de chips, e cobre
as nossas feridas com o bálsamo dos maus poemas..!


[Fogwill, llamando por los malos poetas - a partir de uma Edição Eloísa Cartonera, 2008]



^^

terça-feira, 30 de agosto de 2011

De Fato



^^

Água Contida


Eu, chorando
Com essa cara toda amassada
Com esse olho em carne viva, retalhada
E esse nariz que não pára de escorrer

Eu, chorando
Tão previsível quanto areia no deserto
Mais patético sem ninguém por perto
Tão imenso que não dá mais pra conter

Então sai, deixa correr
Toda a água contida
Então sai, deixa correr
Toda mágoa velada é água parada
E uma hora transborda...




[Pitty]



^^

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

As Coisas tão Mais Lindas



Entre as coisas mais lindas que eu conheci
Só reconheci suas cores belas quando eu te vi
Entre as coisas bem-vindas que já recebi
Eu reconheci minhas cores nela então eu me vi

E as coisas lindas são mais lindas
Quando você está
Onde você está
Hoje você está
Nas coisas tão mais lindas
Porque você está
Onde você está
Hoje você está
Nas coisas tão mais lindas...



[Nando Reis]


^^

domingo, 28 de agosto de 2011

Sessão pipoca - Sexo Frágil - Almas Gêmeas





Pérolas desse espisódio:

"- Eva, eu tenho a impressão que eu já lhe conheço de algum lugar.
- Você já passou o carnaval em Salvador?
- Não.
- Eu também não. Passo sempre no Rio.
- É mesmo?
- Cê também?
- Não, mas eu não perco um desfile das escolas na TV.
- Esse ano eu sai de Guerreira Tupiniquim Futurista.
- Nossa, então você já passou na minha televisão.
- Incrível né?
- Quando é o seu aniversário?
- 5 de julho.
- 05/07. 5 + 7, 12 que é a véspera do dia do meu aniversário.
- Você também é de julho?
- Não eu sou de janeiro. Os nossos meses têm a mesma letra.
- 13/01 e 05/07. 13 + 1 dá 14, x 5, 60, : por 7 dá... ai, dá quanto mesmo?
- Ai eu sou péssimo em matemática.
- Ai gente que coincidência, eu também.
- Poxa Eva, parece que eu te conheço há séculos.
- Vai ver que é coisa de outras encarnações.
- Eu fui gladiador, você sabia?
- Ai gente, então é por isso...
- Eu não acredito que você também viveu na Roma Antiga.¬¬
- Não, mas eu adorei o filme gladiador.
- Mentira que você assistiu gladiador.
- Eu vi três vezes no cinema e você?
- Eu vi mais da metade na televisão.
- Incrível né?
- Mais cedo ou mais tarde a gente ia ter que se conhecer né?
- Ah, mas podia ter acontecido milhões de coisas pra gente não se encontrar. Eu podia estar gripada, por exemplo e você podia nem ser você.
- Podia?
- Claro. Você podia ser chinês. Aí a gente nunca ia ter se encontrado mesmo, ou então, a gente podia ter se encontrado e você ser o Papa.
- É mesmo. Tremenda coincidência eu ser eu mesmo. E você ser você mesma; senão, não ia adiantar nada, né?
- Eu não acredito em coincidências. Eu acredito em destino. - Eu também.
- Que coincidência."

***

"- Alma gêmea é a próxima que você vai conquistar.
- E cafajeste é isso aí...
- A minha alma gêmea tem que ser determinada, segura, safada, gostosa e muito inteligente...
- Opa! Assim você está querendo demais, escolha uma coisa só.
- Tá bom - safada!" ¬¬

***

" A sua alma gêmea pode estar em qualquer lugar e você nem perceber porque só dá atenção as mulheres como as capas das revistas...
A sua alma gêmea pode cruzar mil vezes com você e você nem perceber porque estava olhando para a câmera...
Um dia, por acaso, você está fazendo compras, de repente olha para o lado eeeeee....

♪Eu acredito em amor à primeira vista
O amor é coisa de novela só tem na revista
A gente combina muito
Somos almas gêmeas...♪
Luva e mão
Café com pão
Almas gêmeas
Arroz e feijão
Areia e caminhão
Almas gêmeas♪



***


Muito bom esse episódio! Muito Bom!!!

Á propósito, alguém aceita cogumelos na frigideiras ao peito de pato estufado? ¬¬


^^

Tudo tão Real



O carro avançava a caminho de Sintra, sem grande velocidade. Fez-se um silêncio. A Teresa recitou:
- «No meu Chevrolet, pela estrada de Sintra...» - e depois perguntou:
- Achas que o Fernando Pessoa tinha carta de condução?
O Gonçalo respondeu pronto:
- O Fernando Pessoa não tinha. Quem tinha era o Álvaro de Campos...
A Teresa esteve uns segundos sem perceber a graça, mas depois reparou:
- Que estupidez!... Não é que eu ia acreditando!...
- Não se aflija. Aquilo tudo é tão real... mais real do que a realidade...

[in Os Nós e os Laços - António Alçada Baptista]




^^

sábado, 27 de agosto de 2011

Se eu pudesse...

^^


Palavras



Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


[Alexandre O'Neil]


^^