Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Preciso de algumas mudas de Sol... Luz que clareia o meu caminho!



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[Subjetividades]



Era uma vez um camponês gordo e feio
que se tinha apaixonado ( porque não?)
por uma princesa bonita e loira...
Um dia, a princesa - vá lá saber-se porquê-
deu um beijo ao camponês gordo e feio...
E, magicamente, este transformou-se
num príncipe esbelto e ataviado.
( Pelo menos, era assim que ela o via...)
( Pelo menos, era assim que ele se sentia...)

[Jorge Bucay]



^^

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Procuro-te



Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado.
Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a Primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstrato
correr do espaço
-E penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave
qualquer coisa
extraordinária.

Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.

[Herberto Hélder]

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Para um Amigo Tenho Sempre um Relógio



esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

[António Ramos Rosa]



^^

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Amor não mata.



Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor.
Que tem que ser vivido até a última gota.
Sem nenhum medo. Não mata.




[Clarice Lispector]


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domingo, 14 de agosto de 2011

Sessão pipoca - Sexo Frágil - Quem vai ficar com Soraia








Pérolas desse episódio:

"Ninguém te avisou que a pressa é inimiga do prazer?
-Avisou. Mas prazer adiado é tempo de prazer perdido."

"Quando você come jujuba, quais vc deixa por último: as vermelhas ou as verdes?
-Eu não julgo as jujubas pelas cores, acho que toda jujuba é igual perante à lei com corante amarelo, vermelho ou verde."

"O que vem primeiro, o ovo ou a galinha?
- O ovo, mas com a galinha dentro."


♪Eu queria ter um lança chamas
Eu queria ter uma fogueira
Eu queria ter somente um fósforo
Eu queria ter uma vela acesa
Pra queimar soraya
Pra ver torrar seu couro
Pra deixar somente o osso exposto ao sol
E depois da meia noite Soraya vai voltar
Ela vem toda queimada se vingar

♪Eu quero ver Soraya queimada
Soraia queimada
Porque Soraya me queimou
Eu quero ver Soraya queimada
Soraya queimada
Porque Soraya me queimou

♪Eu queria ácido Sulfúrico
E um litro de álcool tubarão
Eu queria uma tocha iluminada
Pra deixar Soraya igual carvão
E depois da meia noite
Soraya vai voltar
Ela vem toda queimada se vingar...



[Composição: Caetano Veloso]



^^

Já é um bom [re]começo...



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Sou Caleidoscópica:



Fascinam-me as minhas mutações, faiscantes que aqui, caleidoscopicamente registro. Sou um coração batendo no mundo.





[Clarice Lispector]



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sábado, 13 de agosto de 2011

Quem?



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Meu



Meu cigarro é o lápis com que rabisco trechos do livro eu o fumo
Meu espelho é o reflexo do cálice que carrego nas mãos eu me vejo
Meu almoço é a unha que cresce no meu dedo indicador eu a devoro
Meu banho é pranto que libero enquanto durmo eu me encharco
Meu terço é o fio do telefone em que me enrosco eu o rezo
Meu albergue é o coração de onde saem meus versos eu me acolho.


[Martha Medeiros]


^^

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Aconteço na Margem do Tempo





...ou na ausência simétrica dos instantes,
quando, no movimento perene das pálpebras,
alguém desafia o susto a compor silêncios
e os ecos a ser conjugação simples de harmonias...



[Ana de Sousa, In Fragmentos (28)]


^^

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

E você, o que?



Me dei , me dei... mudei. E você, o quê? Fiz tudo, te dei o meu mundo. E você o quê? Joguei, lutei, arrisquei, amei! Gostei, um amor maior: impossível. E você o quê? Ultrapassei meu íntimo. Fechei meus olhos, os olhos da alma. Decidi ignorar meus padrões. Ocultei minhas raivas, algumas vezes não deu, disfarcei meus ciúmes, amaciei minhas mágoas. Sua voz me tranqüilizara, teu sexo me domava. Fiz como pude e como não pude. Do seu jeito fui levando, algumas vezes amor próprio me faltou, mas eu só queria seu amor. Por inúmeras vezes te amava mais do que o tudo. E pergunto: E você? O quê? Armei sua lona, fiz seu circo , pintei seu mundo. Fiz de você meu primeiro. Usei suas cores, anulei as minhas. Aceitei suas verdades intactas, anulei as minhas. E você amor? O quê? O quê você fez? Despedacei meu ego, levantei nossa bandeira. Me julguei egoísta, fui contra a seu favor. Chorei, chorei, chorei até faltar vazio em mim. Fui no fundo, no profundo do meu âmago pra merecer teus carinhos, teus gemidos, tua língua, teu prazer, teu sorriso, tua atenção, teu apreço. Pra me sentir mulher, me fiz criança. Fiz pirraça, cena, novela. Decorei um texto pra nada dar errado. Abri a mente, fiz preces, fantasiei um mundo. Amei teu corpo, teu jeito, teu cheiro, tua sombra, abri meu peito acreditei na gente. Desconfiei muito, mas confiei demais... E você amor? O quê? Ouviu minha canção? Abriu o peito? Cortou seus cabelos? Trocou de canal? Falou "aquela" frase? Fez planos pra mim? Escolheu um filme pra nós dois? Foi minha companhia para todos os momentos? Foi a um show? Usou "aquela" blusa? Amou-me de verdade? Pensou em mim? No que construímos? No que alcançamos?


Tudo um dia tem fim. Tudo na vida tem volta. Tranqüilo você pode ficar, riscos de amar sem ser amado, você não há de correr não. Amor de verdade você não sabe diferenciar. Dizer que vou ser feliz agora? Quem sabe? Dizer que você vai se dar bem? Tomara! Aprendizados são pra vida toda, mas amor unilateral na vida da gente uma só vez é suficiente.



[Tati Bernardi]





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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Viajar! Perder países!




Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!
Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E a ânsia de o conseguir!

Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.


[Fernando Pessoa]






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terça-feira, 9 de agosto de 2011

7 Reflexões:




1.ª- para os outros eu não era aquele que, para mim, tinha até então julgado ser;
2.ª- não podia ver-me viver;
3.ª- não podendo ver-me viver, permanecia estranho a mim mesmo, ou seja, alguém que os outros podiam ver e conhecer, cada qual à sua maneira, e eu não;
4.ª- era impossível colocar-me diante desse estranho para o ver e conhecer, eu podia ver-me, mas não vê-lo;
5.ª- para mim o meu corpo, se o observava de fora, era como uma aparição, uma coisa que não sabia que vivia e ficava ali, à espera que alguém pegasse nela;
6.ª- tal como eu pegava no meu corpo para ser, por vezes, como me queria e me sentia, também qualquer um podia pegar nele para lhe dar uma realidade à sua maneira;
7.ª finalmente, aquele corpo, por si mesmo, era de tal forma nada e de tal forma ninguém que um fio de ar podia, hoje, fazê-lo espirrar, amanhã, levá-lo consigo.


[Um, Ninguém e Cem Mil de Luigi Pirandello]


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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

(...) as coisas ao sol confortam.




Ver passar a vida sob um dia azul compensa e de muito.
Esqueço indefinidamente, esqueço mais do que podia lembrar. O meu coração translúcido e aéreo
penetra-se da suficiência das coisas, e olhar basta-me carinhosamente.


[Bernardo Soares, in Livro do Desassosego]






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domingo, 7 de agosto de 2011

Sessão pipoca - Sexo frágil - O Dia da Caça









"Çelma com Ç?!?"

"Eu quero meu edredom com pipoca e fita de vídeo!..."



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La Nuova Gioventú



Tudo que sei
É que você quis partir
Eu quis partir você
Tirar você de mim
Demorei para esquecer
Demorei para encontrar
Um lugar onde você não me machucasse mais
E aguardei um pouco
Por que o tempo é mercúrio cromo
E tempo é tudo que somos

Com você por perto
Eu gostava mais de
mim
Veja bem, eu já não sei se
estou bem só por dizer
Só por dizer é que finjo que sei
Não me olhe assim
Eu sou parte de você
Você não é parte de mim


(...)


[Composição: Renato Russo - Legião Urbana]



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sábado, 6 de agosto de 2011

Mais uma de Amor



Que algumas pessoas não acreditem que o homem esteve mesmo na lua, dá até pra entender, mas tem gente que não acredita em amor, e isso é imperdoável. Podemos não acreditar no que nossos olhos vêem, mas não podemos desacreditar no que sentimos. Você já ficou com a boca seca diante de uma pessoa? Já teve receio de ela estar ouvindo as batidas do seu coração? Bem, isso tudo não é prova de amor, apenas de ansiedade. Amor é outra coisa. Amor é quando você acha que a pessoa com quem você se relacionava era egoísta, possessiva e infantilóide e isso não reduz em nada a sua saudade, não impede que a coisa que você mais gostaria neste instante é de estar tocando os cabelos daquela egoísta, possessiva e infantilóide.
Amor é quando você não compreende direito algumas coisas, mesmo tendo o QI mais elevado da turma, mesmo dominando o pensamento de Sócrates, Plutão e Nietzche. Perguntas simples ficam sem resposta, como por exemplo: como é que eu, sendo tão boa gente, tão honesto e com um coração tão grande, não consigo fazê-la perceber que ela seria a pessoa mais feliz do mundo ao meu lado? Amor é quando você passa dias sem ver quem você ama, depois passam-se meses, e aí você conhece outra pessoa e passam-se décadas, e você já nem lembra mais do passado, e um dia qualquer de um ano qualquer você se olha no espelho e pensa: como é que eu consegui enganar a mim mesmo durante todo esse tempo? Amor é quando você sente que seria capaz de amarrar o cadarço de um tênis com uma única mão ou de fazer a chuva parar só com a força do pensamento caso a pessoa que você ama lhe mandasse um sim deste tamanho.
Amor é quando você sabe tintim por tintim as razões que impedem o seu relacionamento de dar certo, é quando você tem certeza de que seriam muito infelizes juntos, é quando você não tem a menor esperança de um milagre acontecer, e essa sensatez toda não impede de fazê-lo chorar escondido quando ouve uma música careta que lembra os seus 14 anos, quando você acreditava em milagres.
Tudo isso pode parecer uma grande dor, mas é uma grande dádiva, porque a existência do amor está toda hora sendo lembrada.
Dor é quando a gente está numa relação tão fácil, tão automática, tão prática e funcional que a gente até esquece que também é amor.


[Martha Medeiros]









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