Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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domingo, 24 de janeiro de 2010

A Púrpura dos Dias


Falar-te-ei de como se erguem
em flor as sementes,
de como o luar pode desfalecer
a solidão de um nome
e atirar-nos para o lugar das mãos

Ao longe a púrpura dos dias,
do ar respirado, da vida
que não pára de bater
em cada grão de terra
- nas tuas mãos, o meu
coração de lã e o frio
que não mais te tocará
por ser possível ser feliz.

[Vasco Gato]
^^

Jornal A Céu Aberto - 1ª Edição apresenta:

Passe lá no Céu e confira essa novidade!

^^


sábado, 23 de janeiro de 2010

Loba - Shakira

Regresso


Sem mais nem menos
surgiu o passado,
corpo intranquilo
feito de sons semelhantes
aos rostos que amei,
universo donde me excluí,
mar desprovido de cais
na obliquidade dos contrastes.

Esta noite voltei à minha infância:
menina rosada de sonhos nos bolsos,
bailarina de corda na caixinha de som.

À infância regressa-se solitariamente,
subindo um rio sem margens,
até ao lugar em que a nascente
se confunde com o tempo
e o tempo se transforma em espanto.

Procuro, teimosamente,
o rasto da brisa
que me invade o corpo
e apenas sei que o sonho
é um risco inquietante,
quando a solidão tem rosto
e se conhece a posição das estrelas
no âmago das palavras.

Reinicio a infância
no esboço do poema
e circunscrevo o litoral
fragmentado do que sou.

Quem foi que descodificou
o céu no meu olhar
e me deixou na alma
um deus imaginado?

Quando o espaço do sonho é circular
como o tempo das cerejas,
ou da migração dos pássaros
que fendem o infinito,
inadiado é o rito da poesia.

Se eu fosse uma gaivota, dançaria
na proa dos veleiros
até à hipnose
de abraçar a maresia.

[Graça Pires]

^^

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Saudade - Sentimentalismo


Saudade é um sentimento presente até demais em mim...
Um sentimento egoísta para nós, da língua portuguesa, cuja palavra não emprestamos para um país de "primeiro mundo" como os Estados Unidos da America [unft! que coisa, não?!]. I miss you não é saudade.
Eu sinto sua falta não é saudade. Saudade é muito mais... Saudade é um dos sentimentos mais prazerosos, mesmo que dolorido. E não, eu não sou masoquista. Ou sou?! Bem, não importa... Ou importa?!
Saudade é a lembrança daquela pessoa, daquele momento, daquilo que se viveu, do lugar que se foi, daquela viagem...
Saudade para mim, mas não passa nem quando [re]vejo a pessoa ou quando vou ao lugar.
É o chamado gostinho de quero mais! E a pior das saudades é aquela em que não se pode ver a pessoa novamente [ainda não vivi isso, ainda bem], ou não se pode viver o momento de novo nem ir àquele lugar novamente [sou feita disso]. Feita de nostalgia.
E veja você também um dos significados de saudade no dicionário; "Bot. Designação comum a diversas plantas da família das dipsacáceas, principalmente da espécie Scabiosa marítima, e às suas flores; escabiosa, suspiro."

^^

Silêncio


Digo: claridade. E tu repetes, no meio do sonho: claridade.
Digo: sangue do meu sopro. E tu repetes: sangue do meu sopro.
Digo: estou aqui. E tu devolves-me: ausência.

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O teu silêncio esmaga-me."


^^

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Só faço o que EU quero!


"É preciso reviver o sonho e a certeza de que tudo vai mudar."

"É necessário abrir os olhos e perceber que as coisas boas estão dentro de nós, onde os sentimentos não precisam de motivos nem os desejos de razão.
O importante é aproveitar o momento e aprender sua duração, pois a vida está nos olhos de quem sabe ver."

Por isso, eu só faço o que eu quero, só vou para onde quero, quando quero, com quem quero e não faço nada que eu não queira muito. Não adianta insistir.

^^

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

\o/


"Liberta o grito que trazes dentro, e a coragem e o amor. Mesmo que seja só um momento... Mesmo que traga alguma dor!..."

[Mafalda Veiga]

Faltam-me as palavras. (E os gestos!...) E as nuvens. E as estrelas.
(Sem importância. De qualquer maneira, o que importa?)

^^

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010


Tinham passado um dia e uma noite inteiros nus, juntos, e durante a maior parte desse tempo não mais do que alguns centímetros afastados. Desde bebé que ninguém, além dele próprio, tivera tanto tempo para examinar como era feito. Como não havia no longo e pálido corpo dela nada que ele não tivesse observado, nada que ela tivesse ocultado e nada que ele não conseguisse recordar agora com uma percepção de pintor, com o conhecimento estético meticuloso e excitado de um amante, e como passara o dia inteiro não menos estimulado pela presença dela nas suas narinas do que pelas suas pernas abertas nos olhos da sua mente, a conclusão lógica era que não podia haver no corpo dele nada que ela não tivesse absorvido microscopicamente, nada naquela extensa superfície onde estava gravada a sua singularidade evolutiva auto-adoradora, nada na sua configuração única como homem, na sua pele, nos seus poros, nas suas patilhas, nos seus dentes, nas suas mãos, no seu nariz, nas suas orelhas, nos seus lábios, na sua língua, nos seus pés, nos seus testículos, nas suas veias, no seu pénis, nas suas axilas, no seu rabo, no emaranhado dos seus pêlos púbicos, no cabelo da sua cabeça, na penugem do seu corpo, nada na sua maneira de rir, dormir, respirar, nada nos seus gestos, no seu odor, no modo como estremecia convulsivamente quando se vinha que ela não tivesse registado. E recordado. E reflectido sobre.
A causa disso era o acto em si, a sua intimidade absoluta quando não só estamos dentro do corpo da outra pessoa como ela nos envolve estreitamente? Ou era a nudez física? Tiramos a nossa roupa e deitamo-nos na cama com alguém, e é na verdade aí que vai ser descoberto o que quer que escondamos, a nossa particularidade, seja ela qual for e seja como for que esteja codificada, e é aí também que está a origem da timidez e o que toda a gente receia. Quanto de mim está a ser descoberto nesse louco lugar anárquico?
Agora sei quem és.

[Philip Roth]
^^

Dentro
de mim
há uma planta
que cresce
alegremente
que diz
bom dia
quando nos amamos
ao entardecer
e boa noite
quando florimos
à alvorada
uma árvore
que não está com o tempo,
este tempo
a que chamamos
nosso...

[Pedro Oom]


^^


Em algum lugar (...)

(...)
Deve existir
Eu sei que deve existir
Algum lugar onde o amor
Possa viver a sua vida em paz
E esquecido de que existe o amor
Ser feliz, ser feliz, bem feliz.

[Vinícius de Moares]

^^

domingo, 17 de janeiro de 2010

E se fosse só hoje???


E se fosse só hoje?
só um dia como os de antes.
só um.
só hoje.
sem os para sempre que nos mata[ra]m
só esta noite.
[e a maldita palavra proibida sempre a bailar-nos na boca]

^^

Eu conheço


... as minhas liberdades pois a vida não me cobra o frete.

^^

Um pouco de Luis Fernando Veríssimo


Pros erros há perdão;
pros fracassos, chance;
pros amores impossíveis, tempo.
De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma.
O romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.
Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.
Desconfie do destino e acredite em você.
Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando, porque embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

[Luis Fernando Veríssimo]

^^

Viajar é tão bom! =)

Estou colocando o pé na estrada. Quer saber o destino?
Visite A Céu Aberto - da Boca
^^

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010


A poesia não é síntese, é fragmento - é diferente. Não afirma, interroga, mesmo quando é afirmativa. Nunca é definitiva. Como qualquer procura, é a gestão de um vazio.
*
A poesia, mais do que qualquer outra forma de delinquência, só pode ser incompleta. Não há quem, começando um poema, o termine. O seu fim incerto é uma competência exclusiva de quem lê, não de quem escreve. Pode ser um jogo sujo, como em qualquer jogo onde não existem regras. Mas é de lei.
*
Há quem não entenda que não é a quebra do verso que nomeia a poesia. A quebra de linha é uma respiração, não um artifício. Se nada se consegue ler nesse intervalo onde nada está escrito, algo falhou. Na mão que antes escreveu ou nos olhos que agora lêem.

[Pedro Jordão]
^^

domingo, 10 de janeiro de 2010

Agradecimento


Obrigada...
Aos de sempre, aos de há pouco tempo, aos de hoje, aos que vão, de certeza, ficar para sempre no meu coração...
Obrigada por gostarem de mim como sou.
Obrigada pela sensação de segurança que estou sentindo.

Obrigada pela orientação prestada.
Os amigos são mesmo a melhor coisa do mundo...
Quem tem amigos verdadeiros, tem TUDO!


^^

Recebi esse Poema de um Homem mais que Especial... \o/


Este poema começa com um homem de tronco nu
à sua mesa de trabalho e hiante
a esta hora em que de oriente a ocidente
se acendem lâmpadas trémulas e bárbaras e ferozes
e o mar é o teu nome a esta hora pétala a pétala
em que subirei de avião para ir beijar-te os olhos
e ver no meio do deserto o único
o magnífico devorador de rosas a comer um pão
enquanto do oceano resta apenas
o silêncio de uma lágrima caindo nos joelhos de uma criança
Espera-me onde um nome há no ar escrito com saliva azul
com raiva azul
como a urina violenta dos amantes
com a sua flor azul à superfície onde crepita a morte

Choverá muito eu sei choverá muito
e não porei uma pedra branca sobre o assunto digo
sobre o tremor de terra em que tu danças
na tua roda de cigarros cada vez mais depressa
cada vez mais depressa
e lento o peixe de plumas de águia letra a letra
dá a volta ao mundo dos teus olhos
enquanto a dentadura cintilante pronuncia o grande uivo
de oriente a ocidente

Certas palavras muito duras quando a noite cai
não devem ter outra origem sabes tão bem como eu
porque agora a lava das lágrimas ao crepúsculo
são as rosas com que o poeta fala
à multidão em volta do crocodilo o animal repugnante
de costas para a luz contra o grande uivo:
de oriente a ocidente a mesma flor podre o estado
segredos de estado as razões de estado a segurança do estado
o terrorismo de estado os crimes contra o estado
e o equilíbrio do terror
de oriente a ocidente meu amor de oriente a ocidente

Digo não eu digo não
digo o teu nome que diz não

No entanto às portas da cidade e ao pé de cada árvore
à espera que tu chegues ou passes simplesmente
estão os grandes do império com o chapéu na mão
para cumprimentar-te
Então passas tu com a lua no peito
dividindo distribuindo os alimentos

Passas tu devagar atirando as moedas
que os dias não aceitam e gastamos depressa
noite mil e uma noites de quem espera

Meu amor países pátrias têm todos um nome
de letras imundas que não é para escrever
Se ainda podes ouvir o búzio da infância
ouvirás com certeza o sinal de partir

No comboio multicor sobre carris ferozes e azuis
que há mil anos dá a volta ao mundo
sou eu o homem que viaja nu porque eu sou
o arco-íris e a rosa no trapézio
e tu toda a paisagem que atravesso
como se fosse de bicicleta
como se fosse sílaba a sílaba
a primeira frase sobre a terra

Tu com as tuas luvas de amianto ao lado do vulcão
com a tua máscara de olhar a aurora boreal
de me olhares para sempre nua eu a tempestade
de coração a coração
Roda sórdida da razão cínica e canto de galos
depenados vivos que cantam nos intervalos da morte
no meu livro de horas deste século
está escrito que o homem livre fará o seu aparecimento
sob a forma de um cometa de cauda fascinante
que arrastará os amorosos até ao centro do mundo
donde partirão na rosa-dos-ventos e este será o sinal.

[António José Forte]


^^

Semana de Novidade No Céu Aberto - da boca \o/\o/\o/

Não deixe de conferir essa semana muito especial!
^^