Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Fazer um homem


Método tradicional

Peguem em algum pó do chão. Dêem-lhe forma. Soprem-lhe nas narinas o sopro da vida. Simples mas eficaz.

(por favor notem que embora os homens sejam feitos de pó, as mulheres são feitas de costelas, lembrem-se disso no vosso próximo barbecue ao estilo texano)

Devem ou não dar um umbigo ao vosso homem?
As autoridades no método tradicional discordam, mas nós gostamos de incluir um, porque achamos que dá um toque final. Usem o vosso polegar.

[Margaret Atwood]


Ps.: Aceitamos encomendas. Garantia a perder de vista. rsrsr...

^^

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Vem


Pousa teus sonhos
Nos meus ombros.
O mormaço escorre
No suor de teu cansaço.
Estamos exaustos:
Eu por te esperar,
Tu por não chegares.
Vem.
Espero teu abraço.
Quero-o ardente,
Possuidor.
Frouxos estão
Meus lamentos.
Tardas.
Não queres voltar?
Estás farto de amor,
Ou tens pouco para dar?
Vem.
Preciso de teus beijos
Longos, gananciosos.
Quero sorver vida
Através de tua boca.
Chama-me louca,
Aventureira,
Presa fácil...
Estás indeciso?
Queres uma pousada segura,
Ou não crês nas minhas oferendas?
Vem.
Encontrarás o que procuras:
Casa, conforto, roupa macia,
Comida farta, carinho
E uma cama ardente.
Vem.
Pousa tua teimosia
Na minha solidão.
Vem.
Há sempre uma vaga
Na minha pousada.
Vem.
Espero tua chegada...

[Cleri Aparecida Biotto Bucioli, via A Dispersa Palavra]
^^

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Medo


Medo, escorre entre os meus dedos
Entre os meus dedos
Eu lambo os dedos
E saboreio meu próprio medo

Medo de ter, medo de perder
Cada um tem os seus
E todos tem alguns
Suando frio, as mãos geladas
Coração dispara até sufocar

Só tememos por nós mesmos
Ou por aqueles que amamos
Homem que nada teme
É homem que nada ama

Medo, escorre entre os meus dedos
Entre os meus dedos
Eu lambo os dedos
E saboreio meu próprio medo

Paranóia high-tech é sindrome
Contagioso, manipulador
Antiga batalha:
O homem e seu pavor
Nocivo se paralisa

Só tememos por nós mesmos
Ou por aqueles que amamos
Homem que nada teme
É homem que nada...

[Pitty]

^^

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009


Vieste e foste,
ignoro se poderás voltar. Ontem, ao partires,
não reparaste que me deixavas menos feliz. Embora
tudo ficasse feito e decidido não sei que incompletude me
abalou – talvez a espera.
Perdi-me absurdamente no caminho e, por momentos,
a luz libidinal do teu pensamento
fugiu de mim. As coisas deixaram
a concretude com que sempre as tinha conhecido.
Sem perspectiva, nem letra.
Ao regressar à terra, não quis escrever no teu caderno.
Arranquei-lhe apenas esta folha. Fui um pobre corpo.
Rasguei-me a mim próprio e quis deitar-me fora.
Por isso te deixo este bilhete.
Vieste e foste.
Não foi por isso que te amei menos.
Em mim, não se realizou a tua conjectura sobre a
ressurreição da carne _________________
Reconhecerás tu, neste impulso da visão, uma carta de amor?

[Maria Gabriela Llansol]

^^

domingo, 27 de dezembro de 2009


Hoje podes deitar-te na minha cama
e contar-me mentiras - dizer, não sei,
que o amor tem a forma da minha mão
ou que os meus beijos são perguntas que
não queres que ninguém te faça senão
eu; que as flores bordadas na dobra do
meu lençol são de jardins perfeitos que
antes só existiam nos teus sonhos; e que
na curva dos meus braços as horas são
mais pequenas do que uma voz que no
escuro se apagasse. Hoje podes rasgar
cidades no mapa do meu corpo e
inventar que descobriste um continente
novo - uma pátria solar onde gostavas
de morrer e ter nascido. Eu não me
importo com nada do que me digas esta
noite: amo-te, e amar-te é reconhecer o
pólen excessivo das corolas, o seu vermelho
impossível. Mas amanhã, antes de partires,
não digas nada, não me beijes nas costas
do meu sono. Leva-me contigo para sempre
ou deixa-me dormir - eu não quero ser
apenas um nome deitado entre outros nomes.

[Maria do Rosário Pedreira]
^^

Eu sou aquela que passou na vida
sem achar nunca o porto que buscava.
Eu sou aquela que andou dia a dia
numa constante, fatigante lida
presa nas malhas da melancolia,
querendo só o que não alcançava.

Eu sou aquela que buscando a glória,
entrou na luta sem saber lutar.
Rudes batalhas, lutas sem vitória,
contra outros e mesmo contra mim,
foram as que eu, arfante e a meu pesar,
travei com sombras sem razão nem fim.

Eu sou aquela que bateu às portas
de quantas ilusões a vida encerra,
nela buscando, a sós, de terra em terra,
novas raízes de fecundas vidas,
sempre as achando apenas convertidas
em mudas sombras de cidades mortas.

Nada encontrei do que alcançar quisera:
sumiu-se a luz de cada primavera
neste vazio de ambição faminta;
e, se o gosto provei da saciedade,
frustrada foi a minha ansiosa espera,
pois mais não tive, ao fim da tempestade,
que a inútil paz da minha lareira extinta.

Donde vem e onde vai este caminho
que me leva em tão estranha direcção?
a mão de Deus guiando-me adivinho
por entre o frio hostil da cerração.
Quando, na sina de ansiedade errante
que orienta a minha incerta caminhada,
sinto o cansaço do correr da vida,
volto-me a olhar a estrada percorrida...
e, silenciosa, vou seguindo avante.

[Oliva Guerra]

^^

Enfim, Domingo...


Hoje têm histórias muito cômicas lá no Céu Aberto - da boca...
Passe lá pra se divertir!

^^

sábado, 26 de dezembro de 2009


Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa da minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse johnson & johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido chorar...

[Adília lopes]

^^

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Feliz Natal!!!! =)


... Feliz Natal aos caçadores de borboletas azuis,
artífices de rupestres enigmas, febris conquistadores a cavalgar, solenes, nos campos férteis de sedutoras esperanças...

Feliz Natal a quem voa sem asas, molda em argila insensatez e faz dela jarro repleto de sabedoria,
e aos que... sabem que as palavras brotam da mesma
fonte que abastece o coração de ternura.

Feliz Natal aos que sobrevoam abismos e plantam gerânios nos canteiros da alma, vozes altissonantes
em desertos da solidão,...
[Frei Betto]

^^

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009


Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva.

Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata.

Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar.

Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto.

[António Ramos Rosa, Antologia poética]
^^

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009


Tudo no meu olhar é um grito
marca de um jogo de espelhos polido
pelas lágrimas.

(Tenho-te no avesso das pálpebras)

e quando o lado sombrio dos olhos
alcança ausências
por instantes, todas as coisas se anunciam
como noite.

As minhas palavras são feitas de ti.

[eue]

^^

Es por ti


Há um corpo à tua espera
um corpo e um conjunto de signos
nas mãos espalmadas
a te oferecerem o riso,
as avencas na pele,
o perfume.

Há um corpo, um copo de vinho
ao pé da lareira,
no silêncio do lume.

[Silvia Chueire]
^^

Há um braço na extensão do dedo. um par de mãos. De dedos.
Há um sopro
estendido até ao limite do som. Há qualquer coisa a amarrar o tempo.
Há um corpo, um caminho a descer na invenção do braço. Há um passo.

[Maria Quintans, Apoplexia da ideia]


^^

Este Verão


Este Verão ensina-me
a amar as minhas cicatrizes,
a enfeitar-me com marcas de estrangulamento no pescoço.

Este Verão ensina-me
a fechar à chave a amargura e fico
bem roliça e anafada pareço bem tratada.

Este Verão ensina-me
a gritar o bel canto.

Este Verão ensina-me
que a solidão descansa
e cresce numa mão.

Este Verão ensina-me
a não confundir um corpo disponível
com o desejo de felicidade.

Este Verão ensina-me
a ser para cada pedra um espelho de água.

Este Verão ensina-me
a amar grandes bolas de sabão e pequenas
antes de rebentarem.

Este Verão ensina-me
que tudo sem nós
por si continua.

Este Verão ensina-me
um rosto gelado feliz.

Este Verão ensina-me
tenho que ser eu a bater no tambor
quando quiser dançar.

este Verão ensina-me
a ser sem felicidade sem tristeza por uns
segundos aliada de Deus.

Este Verão ensina-me
a acordar de manhã. Grata. Sozinha.

Este Verão ensina-me
que a folha do limoeiro só deita cheiro
quando a desfazemos entre os dedos.

[Ulla Hahn]

^^

terça-feira, 22 de dezembro de 2009


Toda alcova em penumbra. Em desalinho o leito,
onde, nus, o meu corpo e o teu corpo, estirados,
na fadiga que vem do gozo satisfeito,
descansam do prazer, felizes, irmanados.

Tendo a minha cabeça encostada ao teu peito,
e, acariciando os meus cabelos desmanchados,
és tão meu... sou tão tua. Ainda sob o efeito
da louca embriaguez dos momentos passados.

Porém, na tua carne insaciável, ardente,
o desejo reacende, estua... e, de repente,
dos meus seios em flor beijas a rósea ponta...

E se unem outra vez a lúbrica bacante
do meu ser e o teu sexo impávido, possante,
na comunhão sensual das delícias sem conta...

[Adelaide Schloenbach Blumenschein]
^^

Foi assim neste jeito
de não saber o que estou fazendo
que procurei o teu encontro
pelas esquinas da vida
no encontrão de tudo e de todos.

Como eu gostaria
que aqui ficasses
aqui dentro de mim.

[Henrique Risques Pereira]

^^

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009


Se sentes que não existes,
que se extingue a tua voz quando é escutada,
que o teu corpo se apaga se ninguém o toca.

Se tu não existes,
a tua solidão muito menos.

[Brenda Ascoz]

^^

Pouco me Importa


Pouco me importa.
Pouco me importa o que? Não sei: pouco me importa.

[Alberto Caeiro]

^^

domingo, 20 de dezembro de 2009


É a manhã no copo;
Tempo de decifrar o mapa,
De abrir as cortinas onde o sol frio nasce,
De ler uma carta pertubadora
Que veio pela galera da China;
Até que a lição do cravo
Através dos seus cristais
Restitui a inocência.


[Murilo Mendes]


^^