Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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sábado, 26 de dezembro de 2009


Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa da minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse johnson & johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido chorar...

[Adília lopes]

^^

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Feliz Natal!!!! =)


... Feliz Natal aos caçadores de borboletas azuis,
artífices de rupestres enigmas, febris conquistadores a cavalgar, solenes, nos campos férteis de sedutoras esperanças...

Feliz Natal a quem voa sem asas, molda em argila insensatez e faz dela jarro repleto de sabedoria,
e aos que... sabem que as palavras brotam da mesma
fonte que abastece o coração de ternura.

Feliz Natal aos que sobrevoam abismos e plantam gerânios nos canteiros da alma, vozes altissonantes
em desertos da solidão,...
[Frei Betto]

^^

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009


Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva.

Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata.

Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar.

Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto.

[António Ramos Rosa, Antologia poética]
^^

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009


Tudo no meu olhar é um grito
marca de um jogo de espelhos polido
pelas lágrimas.

(Tenho-te no avesso das pálpebras)

e quando o lado sombrio dos olhos
alcança ausências
por instantes, todas as coisas se anunciam
como noite.

As minhas palavras são feitas de ti.

[eue]

^^

Es por ti


Há um corpo à tua espera
um corpo e um conjunto de signos
nas mãos espalmadas
a te oferecerem o riso,
as avencas na pele,
o perfume.

Há um corpo, um copo de vinho
ao pé da lareira,
no silêncio do lume.

[Silvia Chueire]
^^

Há um braço na extensão do dedo. um par de mãos. De dedos.
Há um sopro
estendido até ao limite do som. Há qualquer coisa a amarrar o tempo.
Há um corpo, um caminho a descer na invenção do braço. Há um passo.

[Maria Quintans, Apoplexia da ideia]


^^

Este Verão


Este Verão ensina-me
a amar as minhas cicatrizes,
a enfeitar-me com marcas de estrangulamento no pescoço.

Este Verão ensina-me
a fechar à chave a amargura e fico
bem roliça e anafada pareço bem tratada.

Este Verão ensina-me
a gritar o bel canto.

Este Verão ensina-me
que a solidão descansa
e cresce numa mão.

Este Verão ensina-me
a não confundir um corpo disponível
com o desejo de felicidade.

Este Verão ensina-me
a ser para cada pedra um espelho de água.

Este Verão ensina-me
a amar grandes bolas de sabão e pequenas
antes de rebentarem.

Este Verão ensina-me
que tudo sem nós
por si continua.

Este Verão ensina-me
um rosto gelado feliz.

Este Verão ensina-me
tenho que ser eu a bater no tambor
quando quiser dançar.

este Verão ensina-me
a ser sem felicidade sem tristeza por uns
segundos aliada de Deus.

Este Verão ensina-me
a acordar de manhã. Grata. Sozinha.

Este Verão ensina-me
que a folha do limoeiro só deita cheiro
quando a desfazemos entre os dedos.

[Ulla Hahn]

^^

terça-feira, 22 de dezembro de 2009


Toda alcova em penumbra. Em desalinho o leito,
onde, nus, o meu corpo e o teu corpo, estirados,
na fadiga que vem do gozo satisfeito,
descansam do prazer, felizes, irmanados.

Tendo a minha cabeça encostada ao teu peito,
e, acariciando os meus cabelos desmanchados,
és tão meu... sou tão tua. Ainda sob o efeito
da louca embriaguez dos momentos passados.

Porém, na tua carne insaciável, ardente,
o desejo reacende, estua... e, de repente,
dos meus seios em flor beijas a rósea ponta...

E se unem outra vez a lúbrica bacante
do meu ser e o teu sexo impávido, possante,
na comunhão sensual das delícias sem conta...

[Adelaide Schloenbach Blumenschein]
^^

Foi assim neste jeito
de não saber o que estou fazendo
que procurei o teu encontro
pelas esquinas da vida
no encontrão de tudo e de todos.

Como eu gostaria
que aqui ficasses
aqui dentro de mim.

[Henrique Risques Pereira]

^^

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009


Se sentes que não existes,
que se extingue a tua voz quando é escutada,
que o teu corpo se apaga se ninguém o toca.

Se tu não existes,
a tua solidão muito menos.

[Brenda Ascoz]

^^

Pouco me Importa


Pouco me importa.
Pouco me importa o que? Não sei: pouco me importa.

[Alberto Caeiro]

^^

domingo, 20 de dezembro de 2009


É a manhã no copo;
Tempo de decifrar o mapa,
De abrir as cortinas onde o sol frio nasce,
De ler uma carta pertubadora
Que veio pela galera da China;
Até que a lição do cravo
Através dos seus cristais
Restitui a inocência.


[Murilo Mendes]


^^

O jardim na planura
evocava outras ruas
polvilhadas de verde e de museu.
O ventre do navio enchia-se de sol,
parecia-lhe real
na linha circular do horizonte.

"Volta", pedira ela,
sem saber qual o monte
de mais eco.


[Ana Luísa Amaral]

^^

Retrospectiva - 2009 - EDUCAÇÃO

http://aceuabertodaboca.blogspot.com/2009/12/retrospectiva-2009-educacao.html


Hoje é meu dia lá no Céu aberto - da boca. Faremos uma restrospectiva de vários aspectos, ao longo da semana. E pra começar, falarei sobre EDUCAÇÃO.
Passe lá e confira!

^^

sábado, 19 de dezembro de 2009

Todo mundo tem segredo
Que não conta nem pra si mesmo
Todo mundo tem receio
Do que vê diante do espelho

Eu só quero o começo
Não podia lidar com o meio
Quero muito, tenho apego
Já não quero e só resta desprezo

Nem sempre ando entre os meus iguais
Nem sempre faço coisas legais
Me dou bem com os inocentes
Mas com os culpados me divirto mais
Ah... eu me divirto mais...

Não conheço o que existe entre o 8 e o 80.

[Pitty]

^^

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Claridade dada pelo tempo


III

Viver com a crueldade
da criança que
tira os olhos ao pássaro

um desconhecido
movendo-se constantemente
no deserto
em que cada pegada deixa
bem marcada na areia
a imagem
dessa outra existência
em que a morte e a memória
ainda nada significam

mais alto

muto mais alto talvez
que a claridade
do voo das aves que
partem para o desconhecido

o próprio corpo nada mais é
do que a sombra bem simples por sinal
em que,
por erro nosso ou dos outros,
já não existe
a persistência do que
foi perdido

e as mãos
as mãos que sentimos
bem presas seguras aptas
essas
todos sabemos
que podem ainda cada vez mais
esmagar com cuidado
com extremo cuidado
dilacerar suavemente...

nos olhos
está o amor.

[Mário-Henrique Leiria]

^^

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

A morte Absoluta


Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão - felizes! - num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?


Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
- Sem deixar sequer esse nome.

[Manuel Bandeira]

^^

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Uns corpos são como flores,
Outros como punhais,
Outros como fitas de água;
Mas todos, cedo ou tarde,
Serão queimaduras que em outro corpo aumentem,
Convertendo pelo fogo uma pedra num homem.

Mas um homem agita-se em todas as direcções,
Sonha com liberdades, compete com o vento,
Até que um dia se apaga a queimadura,
Volta a ser pedra no caminho de ninguém.

Eu, que não sou pedra, mas caminho,
Que, ao passar, atravessam os pés nus,

Morro de amor por todos eles;
Dou-lhes meu corpo para que o pisem,
Embora os leve a uma ambição ou uma nuvem,
Sem que nenhum compreenda
Que nuvens ou ambições
Não valem um amor que se entrega.


[Luis Cernuda]

^^

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Parolagem da Vida


Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nula.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!

[Carlos Drummont de Andrade]


^^