Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Este Verão


Este Verão ensina-me
a amar as minhas cicatrizes,
a enfeitar-me com marcas de estrangulamento no pescoço.

Este Verão ensina-me
a fechar à chave a amargura e fico
bem roliça e anafada pareço bem tratada.

Este Verão ensina-me
a gritar o bel canto.

Este Verão ensina-me
que a solidão descansa
e cresce numa mão.

Este Verão ensina-me
a não confundir um corpo disponível
com o desejo de felicidade.

Este Verão ensina-me
a ser para cada pedra um espelho de água.

Este Verão ensina-me
a amar grandes bolas de sabão e pequenas
antes de rebentarem.

Este Verão ensina-me
que tudo sem nós
por si continua.

Este Verão ensina-me
um rosto gelado feliz.

Este Verão ensina-me
tenho que ser eu a bater no tambor
quando quiser dançar.

este Verão ensina-me
a ser sem felicidade sem tristeza por uns
segundos aliada de Deus.

Este Verão ensina-me
a acordar de manhã. Grata. Sozinha.

Este Verão ensina-me
que a folha do limoeiro só deita cheiro
quando a desfazemos entre os dedos.

[Ulla Hahn]

^^

terça-feira, 22 de dezembro de 2009


Toda alcova em penumbra. Em desalinho o leito,
onde, nus, o meu corpo e o teu corpo, estirados,
na fadiga que vem do gozo satisfeito,
descansam do prazer, felizes, irmanados.

Tendo a minha cabeça encostada ao teu peito,
e, acariciando os meus cabelos desmanchados,
és tão meu... sou tão tua. Ainda sob o efeito
da louca embriaguez dos momentos passados.

Porém, na tua carne insaciável, ardente,
o desejo reacende, estua... e, de repente,
dos meus seios em flor beijas a rósea ponta...

E se unem outra vez a lúbrica bacante
do meu ser e o teu sexo impávido, possante,
na comunhão sensual das delícias sem conta...

[Adelaide Schloenbach Blumenschein]
^^

Foi assim neste jeito
de não saber o que estou fazendo
que procurei o teu encontro
pelas esquinas da vida
no encontrão de tudo e de todos.

Como eu gostaria
que aqui ficasses
aqui dentro de mim.

[Henrique Risques Pereira]

^^

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009


Se sentes que não existes,
que se extingue a tua voz quando é escutada,
que o teu corpo se apaga se ninguém o toca.

Se tu não existes,
a tua solidão muito menos.

[Brenda Ascoz]

^^

Pouco me Importa


Pouco me importa.
Pouco me importa o que? Não sei: pouco me importa.

[Alberto Caeiro]

^^

domingo, 20 de dezembro de 2009


É a manhã no copo;
Tempo de decifrar o mapa,
De abrir as cortinas onde o sol frio nasce,
De ler uma carta pertubadora
Que veio pela galera da China;
Até que a lição do cravo
Através dos seus cristais
Restitui a inocência.


[Murilo Mendes]


^^

O jardim na planura
evocava outras ruas
polvilhadas de verde e de museu.
O ventre do navio enchia-se de sol,
parecia-lhe real
na linha circular do horizonte.

"Volta", pedira ela,
sem saber qual o monte
de mais eco.


[Ana Luísa Amaral]

^^

Retrospectiva - 2009 - EDUCAÇÃO

http://aceuabertodaboca.blogspot.com/2009/12/retrospectiva-2009-educacao.html


Hoje é meu dia lá no Céu aberto - da boca. Faremos uma restrospectiva de vários aspectos, ao longo da semana. E pra começar, falarei sobre EDUCAÇÃO.
Passe lá e confira!

^^

sábado, 19 de dezembro de 2009

Todo mundo tem segredo
Que não conta nem pra si mesmo
Todo mundo tem receio
Do que vê diante do espelho

Eu só quero o começo
Não podia lidar com o meio
Quero muito, tenho apego
Já não quero e só resta desprezo

Nem sempre ando entre os meus iguais
Nem sempre faço coisas legais
Me dou bem com os inocentes
Mas com os culpados me divirto mais
Ah... eu me divirto mais...

Não conheço o que existe entre o 8 e o 80.

[Pitty]

^^

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Claridade dada pelo tempo


III

Viver com a crueldade
da criança que
tira os olhos ao pássaro

um desconhecido
movendo-se constantemente
no deserto
em que cada pegada deixa
bem marcada na areia
a imagem
dessa outra existência
em que a morte e a memória
ainda nada significam

mais alto

muto mais alto talvez
que a claridade
do voo das aves que
partem para o desconhecido

o próprio corpo nada mais é
do que a sombra bem simples por sinal
em que,
por erro nosso ou dos outros,
já não existe
a persistência do que
foi perdido

e as mãos
as mãos que sentimos
bem presas seguras aptas
essas
todos sabemos
que podem ainda cada vez mais
esmagar com cuidado
com extremo cuidado
dilacerar suavemente...

nos olhos
está o amor.

[Mário-Henrique Leiria]

^^

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

A morte Absoluta


Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão - felizes! - num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?


Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
- Sem deixar sequer esse nome.

[Manuel Bandeira]

^^

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Uns corpos são como flores,
Outros como punhais,
Outros como fitas de água;
Mas todos, cedo ou tarde,
Serão queimaduras que em outro corpo aumentem,
Convertendo pelo fogo uma pedra num homem.

Mas um homem agita-se em todas as direcções,
Sonha com liberdades, compete com o vento,
Até que um dia se apaga a queimadura,
Volta a ser pedra no caminho de ninguém.

Eu, que não sou pedra, mas caminho,
Que, ao passar, atravessam os pés nus,

Morro de amor por todos eles;
Dou-lhes meu corpo para que o pisem,
Embora os leve a uma ambição ou uma nuvem,
Sem que nenhum compreenda
Que nuvens ou ambições
Não valem um amor que se entrega.


[Luis Cernuda]

^^

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Parolagem da Vida


Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nula.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!

[Carlos Drummont de Andrade]


^^

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Nem Tudo


Nem tudo que reluz corrompe
Nem tudo que é bonito aparenta
Nem tudo que é infalível se aguenta

Nem tudo que ilude mente
Nem tudo que é gostoso tá quente
Nem tudo que se encaixa é pra sempre

Nem tudo que é sucesso se esquece
Nem todo pressentimento acontece

Nem tudo que se diz tá dito
Nem tudo que não é você é esquisito

Nem tudo que acaba aqui
Deixa de ser infinito
Nem tudo que acaba aqui
Deixa de ser infinito.

[Compositor(es): Edu Tedeschi Zélia Duncan]
^^

domingo, 13 de dezembro de 2009

[...]

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo.
Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
— a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
— Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

[Herberto Helder]

^^

sábado, 12 de dezembro de 2009


Sabes quem sou? Eu não sei.
Outrora, onde o nada foi,
Fui o vassalo e o rei.
É dupla a dor que me dói.
Duas dores eu passei.

Fui tudo que pode haver.
Ninguém me quis esmolar;
E entre o pensar e o ser
Senti a vida passar
Como um rio sem correr.

[Fernando Pessoa]
^^

Vastos Jardins do meu Silêncio


Recordo o itinerário das sombras quando o chão
apresenta sua harpa mortal e nos muros eclode
o desejo de música. A minha vocação lírica
demora-se nos teus dedos, existe e regressa
com o sal das noites. Três luas ensaiam
uma estratégia no invisível.

Há uma lâmina
de frio encostada ao meu pescoço.

Posso recolher o mel da inesperada estação,
amar os teus lábios. Posso ver cair
os frutos, na distância, aspirar ao sentido ardente
dos cometas, entrever o poema que
oscila por trás das cortinas. As três luas são
um enigma, e os enigmas sabe-se
que são sinais trágicos.

O meu nome é hoje um sol despedaçado
no corpo inocente da primavera.

Abro os portões, o hausto dos campos
atravessa uma faca na garganta, mas talvez
eu possa cantar. As luas arrebatam o sono
inquieto das cancelas terrestres, comboios
avançam sobre pétalas, queimam a geada,
derrubam o eterno das montanhas.
Chega-se tarde ao que se ama.

Eu digo, eu canto, tu danças, levitada,
nos vastos jardins do meu silêncio.

[Vasco Gato]

^^

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

MEU SER VIVE na Noite e no Desejo.
Minha alma é uma lembrança que há em mim.

[Fernando Pessoa]

^^

Ele


Talvez nunca tenha entendido a minha maneira
de amar ou talvez nunca
tenha tido uma maneira de amar ou uma única
maneira de amar – talvez nunca
tenha sabido o amor de uma maneira – a forma
e a proporção a geometria – mas estou certo que amei
sempre tarde demais ou num cedo incerto de
tanta impossibilidade de me encontrar amando
seja o que for
o amor.

[Frederico Mira George]
^^

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Esconderijo


Procuro a solidão
Como o ar procura o chão
Como a chuva só desmancha
Pensamento sem razão
Procuro esconderijo
Encontro um novo abrigo
Como a arte do seu jeito
E tudo faz sentido
Calma pra contar nos dedos
Beijo pra ficar aqui
Teto para desabar
Você para construir...

[Composição: Ana cañas]


^^