Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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domingo, 13 de dezembro de 2009

[...]

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo.
Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
— a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
— Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

[Herberto Helder]

^^

sábado, 12 de dezembro de 2009


Sabes quem sou? Eu não sei.
Outrora, onde o nada foi,
Fui o vassalo e o rei.
É dupla a dor que me dói.
Duas dores eu passei.

Fui tudo que pode haver.
Ninguém me quis esmolar;
E entre o pensar e o ser
Senti a vida passar
Como um rio sem correr.

[Fernando Pessoa]
^^

Vastos Jardins do meu Silêncio


Recordo o itinerário das sombras quando o chão
apresenta sua harpa mortal e nos muros eclode
o desejo de música. A minha vocação lírica
demora-se nos teus dedos, existe e regressa
com o sal das noites. Três luas ensaiam
uma estratégia no invisível.

Há uma lâmina
de frio encostada ao meu pescoço.

Posso recolher o mel da inesperada estação,
amar os teus lábios. Posso ver cair
os frutos, na distância, aspirar ao sentido ardente
dos cometas, entrever o poema que
oscila por trás das cortinas. As três luas são
um enigma, e os enigmas sabe-se
que são sinais trágicos.

O meu nome é hoje um sol despedaçado
no corpo inocente da primavera.

Abro os portões, o hausto dos campos
atravessa uma faca na garganta, mas talvez
eu possa cantar. As luas arrebatam o sono
inquieto das cancelas terrestres, comboios
avançam sobre pétalas, queimam a geada,
derrubam o eterno das montanhas.
Chega-se tarde ao que se ama.

Eu digo, eu canto, tu danças, levitada,
nos vastos jardins do meu silêncio.

[Vasco Gato]

^^

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

MEU SER VIVE na Noite e no Desejo.
Minha alma é uma lembrança que há em mim.

[Fernando Pessoa]

^^

Ele


Talvez nunca tenha entendido a minha maneira
de amar ou talvez nunca
tenha tido uma maneira de amar ou uma única
maneira de amar – talvez nunca
tenha sabido o amor de uma maneira – a forma
e a proporção a geometria – mas estou certo que amei
sempre tarde demais ou num cedo incerto de
tanta impossibilidade de me encontrar amando
seja o que for
o amor.

[Frederico Mira George]
^^

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Esconderijo


Procuro a solidão
Como o ar procura o chão
Como a chuva só desmancha
Pensamento sem razão
Procuro esconderijo
Encontro um novo abrigo
Como a arte do seu jeito
E tudo faz sentido
Calma pra contar nos dedos
Beijo pra ficar aqui
Teto para desabar
Você para construir...

[Composição: Ana cañas]


^^

Cuidado!


A porta cerrada
não abras.
Pode ser que encontres
o que não buscavas
nem esperavas.


Na escuridão
pode ser que esbarres
no casal em pé
tentando se amar
apressadamente.

Pode ser que a vela
que trazes na mão
te revele, trêmula,
tua escrava nova,
teu dono-marido.

Descuidosa, a porta
apenas cerrada
pode te contar
conto que não queres
saber.

[Carlos Drummont de Andrade]

^^

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Direto do blog Cranberry Sauce: Um Poema dedicado ao Céu Aberto - da Boca \o/


Sete Bocas
Céu aberto, de todas as bocas
Das camas, das almas
Das traições, das calcinhas jogadas
Dos sexos sem compromisso
Dos ódios sem calma
Das manchas borradas
Da naturalidade de ser mulher
Das fantasias dos poemas no qual me sorri
Do ódio que as espantam
Faz-se o beijo que meu corpo quer

Na complexidade, as bocas
No texto, o contexto
Na liberdade, fugi
Na prisão, o esconderijo
Porque sou homem
E as bocas que me dizem se há uma mulher
Me calo, com minha imbecilidade
Me mato nas palavras que me consomem
Por me tornar um poeta qualquer

De todas as bocas, nenhuma beijei
Porém, de minha mania de fingir
Em minha própria prosa me calei.

http://cransauce.blogspot.com/


[Marcelo Mayer]


^^

A Vida

Na água do rio que procura o mar;
No mar sem fim; na luz que nos encanta;
Na montanha que aos ares se levanta;
No céu sem raias que deslumbra o olhar;

No astro maior, na mais humilde planta;
Na voz do vento, no clarão solar;
No inseto vil, no tronco secular,
A vida universal palpita e canta!

Vive até, no seu sono, a pedra bruta . . .
Tudo vive! E, alta noite, na mudez
De tudo, — essa harmonia que se escuta

Correndo os ares, na amplidão perdida,
Essa música doce, é a voz, talvez,
Da alma de tudo, celebrando a Vida!

[Olavo Bilac]

^^

terça-feira, 8 de dezembro de 2009


Não temos nome somos apenas
objectos que respiram.

Quando o tempo não se gasta com a respiração
envelhece com os instantes guardados no fundo das gavetas.

Enumeramos solidões onde o corpo se torna lento
e a pouco e pouco atravessamos outonos sem precisar de mapas.

[Maria Sousa]

^^

Sem sen.tido

Ain.da assim...

Vou.ainda a.ssim. fico.ven.to. canção. agarro-te a mão. por aí. per.co. perco.me.sabes de cor a língua e o tro.vão. lu.me.cais. e bar.co. não na.do. descul.pa. chiclete. sal. o t.eu pêlo. penso. sen.tido. não fa.ço. não sei horas. ainda.a.ssim. vou.respirar.te. a.manhã. dás.me a m.ão?

^^

Pneumotórax


Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
— Respire.

...................................

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

[Manuel Bandeira]

^^

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Eu contra a Noite - Feliz da Vida! \o/


Fiz um contrato com a noite,
O Céu sorriu estrelado
Ruas vazias de gente
Testemunhando desejos
Antecipando os teus gestos,
Leves complexos simples


Em pleno voo noturno
zona de pura alegria
a solidão sozinha
Corria atrás de mim
experimentando assim, assim!!!

Hoje, hoje é meu dia de gente
Hoje é proibido dormir...

Até o amanhecer eu quero estar com Você

[Kid Abelha]

(...)


diz que não sabe do medo da morte do amor
diz que tem medo da morte do amor
diz que o amor é morte é medo
diz que a morte é medo é amor
diz que não sabe...

[Alejandra Pizarnik]

^^

Psiquetipia (Ou Psicitipia)

Símbolos. Tudo símbolos
Se calhar, tudo é símbolos...
Serás tu um símbolo também?
Olho, desterrado de ti, as tuas mãos brancas
Postas, com boas maneiras inglesas, sobre a toalha da mesa.
Pessoas independentes de ti...
Olho-as: também serão símbolos?
Então todo o mundo é símbolo e magia?
Se calhar é...
E por que não há de ser?

Símbolos...
Estou cansado de pensar...
Ergo finalmente os olhos para os teus olhos que me olham.
Sorris, sabendo bem em que eu estava pensando...

Meu Deus! e não sabes...
Eu pensava nos símbolos...
Respondo fielmente à tua conversa por cima da mesa...
"It was very strange, wasn’t it?"
"A wfully strange. And how did it end?"
"Well, it didn't end. It never does, you know."

Sim, you know... Eu sei...
Sim eu sei...
É o mal dos símbolos, you know.
Yes, I know
.
Conversa perfeitamente natural... Mas os símbolos?
Não tiro os olhos de tuas mãos... Quem são elas?
Meu Deus! Os símbolos... Os símbolos...

[Álvaro de Campos]

^^

domingo, 6 de dezembro de 2009

Onde reconheci o teu sinal,
onde reconheci o meu?
Na tua voz, nos teus olhos, nas tuas mãos
ou no silêncio que precede o silêncio?
A tua mão ordena a desordem do caos
e a minha paixão agita os ramos da árvore
que há dentro de ti
para que os frutos caiam.
Que generosos são os deuses
sábios e calados!
Posso observar o seu sorriso
de prazer, de entendimento
quando nos vêem
caminhando juntos,
desenredando os fios
em estranhos, secretos labirintos.

[Lourdes Espínola]

^^

Vamos discutir a relação?

http://aceuabertodaboca.blogspot.com/?zx=6ea98226b6d57164

Hoje tem "DR" lá no Céu Aberto...
Passe lá pra ver o que rola.

^^

sábado, 5 de dezembro de 2009

Pelo Sabor do Gesto


Quem já tocou o amor pelo sabor do gesto?
Sentiu na boca o som? Mordeu fundo a maçã?
Na casca a vida vem tão doce e tão modesta
Quem se perdeu de si?
Eu já toquei o amor pelo sabor do gesto
Confesso que perdi, me diz quantos se vão?
Paixões passam por mim, amores que têm pressa
Vão se perder em si
.
Se o amor durou demais, bebeu nas suas veias
Seus beijos de mentira não chegam muito longe
Paixões correm por mim, são só suaves febres
Seus beijos mais gentis derretem pela neve
Pra que tocar o amor, pelo sabor do gesto?
Se o gosto da maçã vem sempre indigesto?
Amarga essa canção, os dias e o resto
Se perde como um grão
.
Mas se eu ousar amar pelo sabor do gesto
Te empresto da maçã vai junto o coração
Esquece o que eu não fiz
Te sirvo o bom da festa
De um jeito mais feliz
Paixões correm por mim, eu sei tudo de cor
Carinho sem querer me cansa e me dói
.
Se o amor vem pra ficar faz tudo mais bonito
Me basta ter na mão e o corpo tem razão.
.
[Compositor(es): As-tu Déjà Aimé Alex Beaupain Versão Zélia Duncan]

^^

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

*O Amor é para os Parvos(?)


Costumavas dizer:
- Quando penso em ti, vejo-te com a cabeça pousada nos meus joelhos, a olhar para mim com olhos grandes.
É sobretudo agora, que já aqui não estás, que gosto de imaginar-me tal qual tu então me vias
- Com a cabeça pousada nos meus joelhos, quieto, enquanto passo a mão, devagar, pela escova mole dos teus cabelos.
Mas não posso já aninhar-me no teu colo e a verdade é que mesmo tu, tenho a certeza, não me recordas já assim.

Disseste:
- O amor é para os parvos.
Quase sem sotaque e mantendo os olhos no refúgio da vidraça; sem sacudir um músculo, como se boca e lábios estivessem governados por uma vontade oculta.
- O amor é para os parvos.
Repetiste, antes de te voltares para trás e deixares que as lágrimas rolassem grossas como as gotas de chuva lavando a poeira das paredes. Choramos ambos, abraçados, para que não pudesses ver o meu rosto, nem eu o teu. O Verão extinguia-se lá fora e nós soubemos, em algum momento daquele nosso abraço, que não era só a estação que chegava ao fim. Talvez tu o soubesses já, mesmo antes de me dizeres que
- O amor é para os parvos.
Já o sabias, decerto. Eu devia sabê-lo também, ou não te tivesse eu dito tantas vezes que um dia me deixarias, que partirias por estar cansada de mim e dos meus silêncios, por não suportares mais esta minha forma de te dizer que é passageira a sinceridade dos meus sentimentos e demasiado benévola a imagem que de mim guardavas
- Com a cabeça pousada nos meus joelhos, a olhar para mim com olhos grandes.

Inevitável. A palavra certa é inevitável e lembro-me que foi essa a palavra que me ocorreu enquanto te abraçava e tu me abraçavas a mim. Era forçoso que assim fosse, não porque o quisesses tu ou o desejasse eu. Simplesmente tinha que acabar, de uma forma ou de outra e, sendo assim, antes terminasse com um abraço. Mas tinha que acabar. São coisas que não se explicam, ou que, tendo explicação, não podem justificar-se recorrendo às escorreitas equações da lógica. Eu amo-te, tu amas-me; logo: separámo-nos. Tu vais e eu fico. Sofres tu e eu sofro também, porque tem mesmo de ser assim e não podia ser de outra maneira. E, se calhar, tinhas razão - o amor é mesmo para os parvos. Para os que não sabem apaixonar-se e não têm tempo a perder com sofrimento. Para os que estão sempre de passagem e precisam de um lugar aonde encontrem, de vez em quando, um par de cuecas limpas, peúgas lavadas e três camisas engomadas. Um sítio do qual possam dizer: esta é a minha casa, esta é a minha mulher, esta é a minha escova de dentes e estes são os meus filhos, a herança que deixo ao mundo, a geração que lego à posteridade - jangada de Noé à deriva no lodo estagnado da vida.

O amor é para os parvos, disseste bem. Lembras-te? O amor é para os parvos e nós soubemos, ao menos naquele abraço, que não era aquela a nossa vida. Talvez não o soubéssemos ainda e apenas o intuíssemos. Fosse como fosse, sabêmo-lo agora - sei-o eu ao menos - e é por isso que te digo que foi melhor assim, ainda que tivesse no corpo uma vontade incontrolável de lamber as lágrimas que te percorriam a face; de te cingir os joelhos com ambos os braços e te pedir que ficasses. Terias ficado, eu sei. Ainda aqui estarias se me tivessem ocorrido as palavras certas - mas inevitável foi a única que me ocorreu. Teríamos as nossas escovas dos dentes, a gaveta com as minhas peúgas e as minhas cuecas e os nossos filhos. Talvez um sítio a que pudéssemos chamar lar. Isso tudo, enfim. É até possível que pudéssemos ter chegado a ser felizes ou, em alternativa, podíamos ter conseguido viver tão harmoniosamente que nos fosse permitido fazer de conta que éramos felizes. É tão fácil, há tanta gente que consegue e que chega a convencer-se de que é real a paz familiar que pacientemente arquitectaram; de que são sinceros os sorrisos, os beijos, os abraços. Fosse eu capaz de dizer as palavras, tivesse eu posto os meus olhos defronte dos teus para que tu pudesses ler - ao menos dessa vez - o que neles estava escrito e podia ser também nosso esse mundo de conveniência. Ter-nos-íamos magoado e feito de conta que não é nada. Ter-te-ia enganado e voltado a casa com o ar do costume, a máscara de cansaço e enfado que te havias de habituar a ter em vez do meu rosto.

Tudo isto, amor.


[Manuel Jorge Marmelo]


^^

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009


Vamos fazer limpeza, mas geral
e vamos deitar fora as coisas todas
que não nos servem para nada, essas
coisas que não usamos já e essas
que nada fazem mais que apanhar pó,
as que evitamos encontrar porquanto
nos trazem as lembranças mais amargas,
as que nos fazem mal, enchem espaço
ou não quisemos nunca ter por perto.
Vamos fazer limpeza, mas geral,
talvez melhor ainda uma mudança
que nos permita abandonar as coisas
sem sequer lhes tocar, sem nos sujarmos,
que fiquem onde sempre têm estado;
vamos embora só nós, vida minha,
para voltar a acumular de novo.
Ou vamos deitar fogo ao que nos cerca
e ficarmos em paz com essa imagem
do braseiro do mundo face aos olhos
e com o coração desabitado.

[Amalia Bautista]


^^