Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

Redes Sociais

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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Cuidado!


A porta cerrada
não abras.
Pode ser que encontres
o que não buscavas
nem esperavas.


Na escuridão
pode ser que esbarres
no casal em pé
tentando se amar
apressadamente.

Pode ser que a vela
que trazes na mão
te revele, trêmula,
tua escrava nova,
teu dono-marido.

Descuidosa, a porta
apenas cerrada
pode te contar
conto que não queres
saber.

[Carlos Drummont de Andrade]

^^

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Direto do blog Cranberry Sauce: Um Poema dedicado ao Céu Aberto - da Boca \o/


Sete Bocas
Céu aberto, de todas as bocas
Das camas, das almas
Das traições, das calcinhas jogadas
Dos sexos sem compromisso
Dos ódios sem calma
Das manchas borradas
Da naturalidade de ser mulher
Das fantasias dos poemas no qual me sorri
Do ódio que as espantam
Faz-se o beijo que meu corpo quer

Na complexidade, as bocas
No texto, o contexto
Na liberdade, fugi
Na prisão, o esconderijo
Porque sou homem
E as bocas que me dizem se há uma mulher
Me calo, com minha imbecilidade
Me mato nas palavras que me consomem
Por me tornar um poeta qualquer

De todas as bocas, nenhuma beijei
Porém, de minha mania de fingir
Em minha própria prosa me calei.

http://cransauce.blogspot.com/


[Marcelo Mayer]


^^

A Vida

Na água do rio que procura o mar;
No mar sem fim; na luz que nos encanta;
Na montanha que aos ares se levanta;
No céu sem raias que deslumbra o olhar;

No astro maior, na mais humilde planta;
Na voz do vento, no clarão solar;
No inseto vil, no tronco secular,
A vida universal palpita e canta!

Vive até, no seu sono, a pedra bruta . . .
Tudo vive! E, alta noite, na mudez
De tudo, — essa harmonia que se escuta

Correndo os ares, na amplidão perdida,
Essa música doce, é a voz, talvez,
Da alma de tudo, celebrando a Vida!

[Olavo Bilac]

^^

terça-feira, 8 de dezembro de 2009


Não temos nome somos apenas
objectos que respiram.

Quando o tempo não se gasta com a respiração
envelhece com os instantes guardados no fundo das gavetas.

Enumeramos solidões onde o corpo se torna lento
e a pouco e pouco atravessamos outonos sem precisar de mapas.

[Maria Sousa]

^^

Sem sen.tido

Ain.da assim...

Vou.ainda a.ssim. fico.ven.to. canção. agarro-te a mão. por aí. per.co. perco.me.sabes de cor a língua e o tro.vão. lu.me.cais. e bar.co. não na.do. descul.pa. chiclete. sal. o t.eu pêlo. penso. sen.tido. não fa.ço. não sei horas. ainda.a.ssim. vou.respirar.te. a.manhã. dás.me a m.ão?

^^

Pneumotórax


Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
— Respire.

...................................

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

[Manuel Bandeira]

^^

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Eu contra a Noite - Feliz da Vida! \o/


Fiz um contrato com a noite,
O Céu sorriu estrelado
Ruas vazias de gente
Testemunhando desejos
Antecipando os teus gestos,
Leves complexos simples


Em pleno voo noturno
zona de pura alegria
a solidão sozinha
Corria atrás de mim
experimentando assim, assim!!!

Hoje, hoje é meu dia de gente
Hoje é proibido dormir...

Até o amanhecer eu quero estar com Você

[Kid Abelha]

(...)


diz que não sabe do medo da morte do amor
diz que tem medo da morte do amor
diz que o amor é morte é medo
diz que a morte é medo é amor
diz que não sabe...

[Alejandra Pizarnik]

^^

Psiquetipia (Ou Psicitipia)

Símbolos. Tudo símbolos
Se calhar, tudo é símbolos...
Serás tu um símbolo também?
Olho, desterrado de ti, as tuas mãos brancas
Postas, com boas maneiras inglesas, sobre a toalha da mesa.
Pessoas independentes de ti...
Olho-as: também serão símbolos?
Então todo o mundo é símbolo e magia?
Se calhar é...
E por que não há de ser?

Símbolos...
Estou cansado de pensar...
Ergo finalmente os olhos para os teus olhos que me olham.
Sorris, sabendo bem em que eu estava pensando...

Meu Deus! e não sabes...
Eu pensava nos símbolos...
Respondo fielmente à tua conversa por cima da mesa...
"It was very strange, wasn’t it?"
"A wfully strange. And how did it end?"
"Well, it didn't end. It never does, you know."

Sim, you know... Eu sei...
Sim eu sei...
É o mal dos símbolos, you know.
Yes, I know
.
Conversa perfeitamente natural... Mas os símbolos?
Não tiro os olhos de tuas mãos... Quem são elas?
Meu Deus! Os símbolos... Os símbolos...

[Álvaro de Campos]

^^

domingo, 6 de dezembro de 2009

Onde reconheci o teu sinal,
onde reconheci o meu?
Na tua voz, nos teus olhos, nas tuas mãos
ou no silêncio que precede o silêncio?
A tua mão ordena a desordem do caos
e a minha paixão agita os ramos da árvore
que há dentro de ti
para que os frutos caiam.
Que generosos são os deuses
sábios e calados!
Posso observar o seu sorriso
de prazer, de entendimento
quando nos vêem
caminhando juntos,
desenredando os fios
em estranhos, secretos labirintos.

[Lourdes Espínola]

^^

Vamos discutir a relação?

http://aceuabertodaboca.blogspot.com/?zx=6ea98226b6d57164

Hoje tem "DR" lá no Céu Aberto...
Passe lá pra ver o que rola.

^^

sábado, 5 de dezembro de 2009

Pelo Sabor do Gesto


Quem já tocou o amor pelo sabor do gesto?
Sentiu na boca o som? Mordeu fundo a maçã?
Na casca a vida vem tão doce e tão modesta
Quem se perdeu de si?
Eu já toquei o amor pelo sabor do gesto
Confesso que perdi, me diz quantos se vão?
Paixões passam por mim, amores que têm pressa
Vão se perder em si
.
Se o amor durou demais, bebeu nas suas veias
Seus beijos de mentira não chegam muito longe
Paixões correm por mim, são só suaves febres
Seus beijos mais gentis derretem pela neve
Pra que tocar o amor, pelo sabor do gesto?
Se o gosto da maçã vem sempre indigesto?
Amarga essa canção, os dias e o resto
Se perde como um grão
.
Mas se eu ousar amar pelo sabor do gesto
Te empresto da maçã vai junto o coração
Esquece o que eu não fiz
Te sirvo o bom da festa
De um jeito mais feliz
Paixões correm por mim, eu sei tudo de cor
Carinho sem querer me cansa e me dói
.
Se o amor vem pra ficar faz tudo mais bonito
Me basta ter na mão e o corpo tem razão.
.
[Compositor(es): As-tu Déjà Aimé Alex Beaupain Versão Zélia Duncan]

^^

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

*O Amor é para os Parvos(?)


Costumavas dizer:
- Quando penso em ti, vejo-te com a cabeça pousada nos meus joelhos, a olhar para mim com olhos grandes.
É sobretudo agora, que já aqui não estás, que gosto de imaginar-me tal qual tu então me vias
- Com a cabeça pousada nos meus joelhos, quieto, enquanto passo a mão, devagar, pela escova mole dos teus cabelos.
Mas não posso já aninhar-me no teu colo e a verdade é que mesmo tu, tenho a certeza, não me recordas já assim.

Disseste:
- O amor é para os parvos.
Quase sem sotaque e mantendo os olhos no refúgio da vidraça; sem sacudir um músculo, como se boca e lábios estivessem governados por uma vontade oculta.
- O amor é para os parvos.
Repetiste, antes de te voltares para trás e deixares que as lágrimas rolassem grossas como as gotas de chuva lavando a poeira das paredes. Choramos ambos, abraçados, para que não pudesses ver o meu rosto, nem eu o teu. O Verão extinguia-se lá fora e nós soubemos, em algum momento daquele nosso abraço, que não era só a estação que chegava ao fim. Talvez tu o soubesses já, mesmo antes de me dizeres que
- O amor é para os parvos.
Já o sabias, decerto. Eu devia sabê-lo também, ou não te tivesse eu dito tantas vezes que um dia me deixarias, que partirias por estar cansada de mim e dos meus silêncios, por não suportares mais esta minha forma de te dizer que é passageira a sinceridade dos meus sentimentos e demasiado benévola a imagem que de mim guardavas
- Com a cabeça pousada nos meus joelhos, a olhar para mim com olhos grandes.

Inevitável. A palavra certa é inevitável e lembro-me que foi essa a palavra que me ocorreu enquanto te abraçava e tu me abraçavas a mim. Era forçoso que assim fosse, não porque o quisesses tu ou o desejasse eu. Simplesmente tinha que acabar, de uma forma ou de outra e, sendo assim, antes terminasse com um abraço. Mas tinha que acabar. São coisas que não se explicam, ou que, tendo explicação, não podem justificar-se recorrendo às escorreitas equações da lógica. Eu amo-te, tu amas-me; logo: separámo-nos. Tu vais e eu fico. Sofres tu e eu sofro também, porque tem mesmo de ser assim e não podia ser de outra maneira. E, se calhar, tinhas razão - o amor é mesmo para os parvos. Para os que não sabem apaixonar-se e não têm tempo a perder com sofrimento. Para os que estão sempre de passagem e precisam de um lugar aonde encontrem, de vez em quando, um par de cuecas limpas, peúgas lavadas e três camisas engomadas. Um sítio do qual possam dizer: esta é a minha casa, esta é a minha mulher, esta é a minha escova de dentes e estes são os meus filhos, a herança que deixo ao mundo, a geração que lego à posteridade - jangada de Noé à deriva no lodo estagnado da vida.

O amor é para os parvos, disseste bem. Lembras-te? O amor é para os parvos e nós soubemos, ao menos naquele abraço, que não era aquela a nossa vida. Talvez não o soubéssemos ainda e apenas o intuíssemos. Fosse como fosse, sabêmo-lo agora - sei-o eu ao menos - e é por isso que te digo que foi melhor assim, ainda que tivesse no corpo uma vontade incontrolável de lamber as lágrimas que te percorriam a face; de te cingir os joelhos com ambos os braços e te pedir que ficasses. Terias ficado, eu sei. Ainda aqui estarias se me tivessem ocorrido as palavras certas - mas inevitável foi a única que me ocorreu. Teríamos as nossas escovas dos dentes, a gaveta com as minhas peúgas e as minhas cuecas e os nossos filhos. Talvez um sítio a que pudéssemos chamar lar. Isso tudo, enfim. É até possível que pudéssemos ter chegado a ser felizes ou, em alternativa, podíamos ter conseguido viver tão harmoniosamente que nos fosse permitido fazer de conta que éramos felizes. É tão fácil, há tanta gente que consegue e que chega a convencer-se de que é real a paz familiar que pacientemente arquitectaram; de que são sinceros os sorrisos, os beijos, os abraços. Fosse eu capaz de dizer as palavras, tivesse eu posto os meus olhos defronte dos teus para que tu pudesses ler - ao menos dessa vez - o que neles estava escrito e podia ser também nosso esse mundo de conveniência. Ter-nos-íamos magoado e feito de conta que não é nada. Ter-te-ia enganado e voltado a casa com o ar do costume, a máscara de cansaço e enfado que te havias de habituar a ter em vez do meu rosto.

Tudo isto, amor.


[Manuel Jorge Marmelo]


^^

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009


Vamos fazer limpeza, mas geral
e vamos deitar fora as coisas todas
que não nos servem para nada, essas
coisas que não usamos já e essas
que nada fazem mais que apanhar pó,
as que evitamos encontrar porquanto
nos trazem as lembranças mais amargas,
as que nos fazem mal, enchem espaço
ou não quisemos nunca ter por perto.
Vamos fazer limpeza, mas geral,
talvez melhor ainda uma mudança
que nos permita abandonar as coisas
sem sequer lhes tocar, sem nos sujarmos,
que fiquem onde sempre têm estado;
vamos embora só nós, vida minha,
para voltar a acumular de novo.
Ou vamos deitar fogo ao que nos cerca
e ficarmos em paz com essa imagem
do braseiro do mundo face aos olhos
e com o coração desabitado.

[Amalia Bautista]


^^

Brincar de Viver

Quem me chamou
Quem vai querer voltar pro ninho
redescobrir seu lugar
Pra retornar
E enfrentar o dia-a-dia
Reaprender a sonhar
Você verá que é mesmo assim,
que a história não tem fim
Continua sempre que você responde sim
à sua imaginação
A arte de sorrir cada vez que o mundo diz não.

Você verá que a emoção começa agora
Agora é brincar de viver
E não esquecer, ninguém é o centro do universo.

Que assim é maior o prazer...

Você verá que é mesmo assim,
que a história não tem fim
Continua sempre que você responde sim
à sua imaginação
A arte de sorrir cada vez que o mundo diz não.

E eu desejo amar todos que eu cruzar pelo meu caminho
Como eu sou feliz, eu quero ver feliz
Quem andar comigo, vem...


[Compositor: Guilherme Arantes]

^^

E se eu tentasse
dar-te outra coisa
algo fora de mim,
nao saberias
que o pior de qualquer um
pode ser, no fim,
um acidente de esperança.

[Anne Sexton]
^^

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Quem de nós dois acordou primeiro?


Falemos claramente de obsessões. Não mais gestos interrompidos por palavras mansas. Hoje encontrei-te numa mesa de café. Trazias umas calças de bombazina e uma camisola de lã. Estiveste ali enquanto eu olhava o tecto e as paredes cor de laranja - a segurar-me esta mão que treme. Diria até que soubeste escolher a música e depois fechaste a porta. Voltaste – sorriso infantil – catraia debaixo do braço. Ela: trança no cabelo e a mesma curiosidade no brilho dos olhos. Tu: mergulhado nessa ternura de um amor maior.

Falemos agora de sonhos. Levantaste-te num repente e só eu depois. Deitada num sofá que não é nosso. O chá arrefeceu e a catraia fugiu. Não eras tu. Não podias ser tu. Eu sem catraia; eu sem ti. Eu sem nada. E a música a tocar a probabilidade de um grande amor a bater-me à porta. Fechada. Diz-me então com sinceridade: quem de nós dois acordou primeiro?

[Autor desconhecido]


^^

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Todos os Verbos

Errar é útil
Sofrer é chato
Chorar é triste
Sorrir é rápido
Não ver é fácil
Trair é tátil
Olhar é móvel
Falar é mágico
Calar é tático
Desfazer é árduo
Esperar é sábio
Refazer é ótimo
Amar é profundo
E nele sempre cabem de vez
Todos os verbos do mundo
Abraçar é quente
Beijar é chama
Pensar é ser humano
Fantasiar também
Nascer é dar partida
Viver é ser alguém
Saudade é despedida
Morrer um dia vem
Mas amar é profundo
E nele sempre cabem de vez
Todos os verbos do mundo.




[Compositor(es): Marcelo Jeneci Zélia Duncan]


^^

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Talvez...


No ar da sala, o fumo dos cigarros misturava-se com a música que saía das colunas do gira-discos. Todas as pessoas estavam juntas em conversas. Para lá da idade que tinham, eram demasiado jovens. Seguravam copos. Sorriam e entusiasmavam-se ou concentravam o olhar e ouviam. Na rua, talvez chovesse. Os vidros altos da porta da varanda não mostravam mais do que a noite. Ele e ela eram indistintos de todos os outros. As imagens dos seus rostos e dos seus corpos eram naturais entre os casacos aos quadrados, as camisas de colarinhos pontiagudos, as calças de fazenda. Estavam sentados no sofá, lado a lado, e tinham terminado de conversar no momento em que as palavras dele lentamente se dissolveram no fumo dos cigarros e na música que saía das colunas do gira-discos, no momento em que ela não soube responder a uma conclusão banal. Para lá das palavras e da memória das palavras, continuou o significado daquilo que realmente disseram enquanto conversavam: os riscos brandos do sorriso dele à volta dos cantos da boca, a atenção solícita dos olhos dela, o tronco dele a aproximar-se a cada frase, os dedos dela a acertarem os cabelos por trás das orelhas, os joelhos dele a tocarem as pernas dela, os lábios dela a articularem cada palavra como se estivessem pousados sobre os lábios dele.

Ela tinha talvez 25 ou 26 ou 27 anos. Ele tinha talvez a mesma idade. Ela tinha os cabelos lisos e escorridos sobre as costas. A pele do seu rosto era serena tal como se estivesse calma e desejasse ainda mais tranquilidade. Ele tinha os primeiros dias de uma barba que crescia e que já se podia imaginar. Os seus olhos eram o início de um caminho verde como uma floresta. De cada vez que um deles levava o copo aos lábios, o outro imitava-o e havia um momento em que pensavam na mesma coisa. Tinham sabido o nome um do outro há pouco mais de uma hora. Tinham começado a conversar porque as únicas pessoas que conheciam os tinham deixado juntos e tinham ido conversar com outros. Assim que foram apresentados, depois de sorrisos, simpatia, ele escolheu palavras para lhe perguntar o que fazia.

Ela respondeu que trabalhava numa produtora de cinema. Não lhe disse que passava os dias numa sala vazia, sentada a uma secretária, frente a um telefone que nunca tocava, a preocupar-se com a mãe que estava sozinha e deprimida em casa, com as facas todas alinhadas na gaveta dos talheres e com as promessas de matar-se ainda vivas na memória e com os pulsos ainda ligados pela última tentativa: a ambulância a serpentear pelas ruas, e ela com os dedos pousados sobre a testa da mãe, e a mãe com as pálpebras sem força pousadas sobre os olhos. Não lhe disse que chegava de manhã cedo, deixava a mala em cima da secretária e, depois de abrir as janelas, ficava imóvel e perdia todas as palavras dentro dos pensamentos. A claridade tocava os cartazes de filmes em que não tinha trabalhado, mas que tinha escolhido para afixar nas paredes. No fim da manhã, chegava o dono da produtora que, não esperando resposta, abrindo cartas com contas da luz e da água, perguntava se alguém tinha telefonado. Tinha sido ele que, na cama de uma pensão, durante um cigarro, a tinha convidado para trabalhar ali, quando ela ainda estava apaixonada e ainda acreditava que um dia ele iria deixar a mulher e, pedindo-lhe opiniões, iria realizar filmes lindos como os seus sonhos. Não lhe disse que, durante a hora de almoço, uma ou duas ou três vezes por semana, faziam sexo em cima da secretária, ou encostados à secretária, ou no chão em cima de um tapete. Não lhe disse que ele saía no início da tarde e que, só então, ela tirava a caixa de plástico da mala, os talheres embrulhados num guardanapo de pano e almoçava.

Ele falou longamente sobre cinema. Disse-lhe que ia muito ao cinema quando vivia na terra onde tinha nascido e de onde tinha saído para estudar Teatro no Conservatório. Não lhe disse que o homem do cinema o deixava sempre assistir de graça desde que ficasse durante todo o filme sentado no seu colo. Não lhe disse que, depois de cada filme, todos os rapazes que andavam com ele na escola, e todos os rapazes mais velhos, lhe chamavam nomes e lhe batiam. Não lhe disse que os homens ficavam encostados às grades da casa ao lado do café a verem e a rirem-se. No recreio da escola, batiam-lhe também. No caminho para a escola, batiam-lhe, tiravam-lhe a mala e espalhavam pelo chão os livros e os cadernos com páginas sujas de lama. Depois, já era mais velho, e os colegas continuavam a bater-lhe e desviava o olhar, ficava parado quando os rapazes mais novos lhe vinham dar pontapés nas pernas e murros no centro das costas. Não lhe disse que, nos três anos de Conservatório, não tinha conseguido passar a nenhuma disciplina porque tinha vergonha da sua própria voz, porque tropeçava na sua própria voz em cada palavra que tinha de dizer. À noite, trabalhava num bar onde via actores e onde falava com alguns deles, onde lhes oferecia copos de plástico com vodka e sumo de laranja, e onde se ria exageradamente de cada vez que algum dizia uma piada. Depois, voltava para o seu quarto, adormecia a pensar e, pouco depois, quando amanhecia, não tinha forças para se levantar. A viúva que lhe arrendava o quarto batia à porta e perguntava-lhe se não ia às aulas, dizia-lhe que arrendava quartos a estudantes e não a vagabundos. Então, levantava-se, vestia-se e caminhava sozinho pelas ruas da baixa. Olhava para as montras e sentava-se à frente de uma chávena vazia de café nas esplanadas onde sabia que não chegariam empregados a perguntar-lhe o que queria tomar.

Ela disse-lhe que uma produtora de cinema precisa sempre de actores. Ele disse-lhe que um actor precisa sempre de produtoras de cinema. Riram-se. E disseram muitas coisas. E não disseram muitas coisas. No ar da sala, a música do gira-discos era indistinta do fumo dos cigarros e bebidas no colo. Havia algum tempo que grupos de pessoas tinham escolhido momentos para se despedirem com sorrisos e saírem.(...)

[José Luís Peixoto]


^^

domingo, 29 de novembro de 2009

Desconstruindo Amélia


Já é tarde, tudo está certo
Cada coisa posta em seu lugar
Filho dorme, ela arruma o uniforme
Tudo pronto pra quando despertar

O ensejo a fez tão prendada
Ela foi educada pra cuidar e servir
De costume esquecia-se dela
Sempre a última a sair

Disfarça e segue em frente
Todo dia, até cansar
E eis que de repente ela resolve então mudar
Vira a mesa,
Assume o jogo
Faz questão de se cuidar
Nem serva, nem objeto
já não quer ser o outro
hoje ela é um também

Hoje aos trinta é melhor que aos dezoito
Nem Balzac poderia prever
Depois do lar, do trabalho e dos filhos
Ainda vai pra night ferver...

[Pitty]

^^