Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

Redes Sociais

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domingo, 26 de julho de 2009

Loredana Guinicelli

...nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.

[Vladimir Maiakóvski]


^^

sábado, 25 de julho de 2009

Não me Fechem as Portas

FRU1T

Não me fechem as portas, orgulhosas
Bibliotecas,
Pois justamente o que estava faltando
Em tuas prateleiras apinhadas,
É o que venho trazer
- mal acabando de sair da guerra,
um livro escrevi:
pelas palavras do meu livro, nada;
pelas intenções, tudo !
Um livro à margem,
Sem nada a ver com os restantes,
E que não pode ser sentido só
Com o intelecto.
Vocês, porém, com seus silêncios latentes,
A cada página hão de estremecer
Maravilhadas.

[Walt Whitman]


^^

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Operação Sorriso

ONG Sorriso faz um um trabalho super bonito, no mundo todo, e estão a caminho do Brasil, nos dias 06 e 07 de agosto, no hospital do Fundão - UFRJ - fazendo uma triagem para cirurgias gratuitas em crianças.
Repassem!! De repente, a gente consegue ajudar alguém!
Maiores informações: www.operacaosorriso.org.br


^^

Horizonte

Havia uma menina sentada
junto a uma janela

Ela vestia uma velha camisa de dormir
larga
e tinha cabelos castanhos lisos
longos

Tinha uma caixa de plástico vermelha
no colo
e olhava o horizonte cinzento
ao longe

Talvez vivesse numa ilha
e talvez brincasse junto ao mar
nas tardes de verão

Ela estava sentada
não sei bem se num banquinho de madeira
ou se num rochedo do tamanho do mundo

Às vezes
os seus olhos pousavam suavemente
na caixa vermelha
e os seus pequenos dedos
imprimiam na superfície do plástico
antigas histórias
de gente que não mais voltara do mar

A casa era do tamanho
de uma janela que dá para o mundo

E a madeira cheirava a madeira
e alguma coisa nela me dizia
que outrora fora barcos

Nenhum entardecer
se assemelhava ao que habitava
aquela janela

E a menina sabia-o
não sei bem como

Os seus olhos cinzentos
olhavam o horizonte
com a paciência
de quem olha os horizontes

E por vezes
esticava o pescoço
para ver mais longe

Ela descobrira sozinha
o significado da palavra longe

O tempo era
verdadeiramente
algo indistinto

E os cabelos
acariciados pela tempestade
gritavam
aos olhos mais atentos
a palavra eternidade

Sempre que abria as mãos
caíam ao chão
punhados de terra
ainda misturada com raízes

E no seu colo pousava
aquela caixa vermelha de plástico liso
como uma mancha de sangue
no branco sujo
da camisa de dormir

De vez em quando
cantava
melodias tristes
que ela ouvira
certamente
da boca dos mortos
que escolheram aquele lugar
para olhar o horizonte

Um dia
alguém vindo do mar
dissera-lhe ao ouvido
a palavra infinito
e ela rira

Ria sempre
que alguém dizia
infinito

Desde então
passava noites inteiras
na sua janela

Nenhuma palavra
se lhe ouvia
mas ria-se às vezes
como se riem as crianças

Há quem diga
que lhe morrera o mundo
e que perdera o tempo
numa noite de tempestade

Outros dizem que aprendeu a falar com os mortos
e que passeia no fundo dos mares

Que chama pelo respectivo nome cada estrela
e que tem uma música para cada pôr-do-sol

Que guarda na pequena caixa de plástico
todos os sonhos dos homens

Eu sei que ela tem uma janela nos olhos

Imagino que corra na praia
e que caminhe sem dificuldades
na estrada do horizonte

Julgo que é sozinha desde sempre
e que não gosta de andar com guarda-chuva

Provavelmente,
conhece mesmo o fundo dos mares

E nem sequer me custa acreditar que
se pudesse ver o que esconde
aquela caixa de plástico
ela me pareceria vazia

[José Rui Teixeira]


^^

*


..."por ti encheria o quarto de rosas
se ontem tivesses vindo"...

[Isabel Mendes Ferreira, A pele]
^^

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Num só dia...

Fix Me
Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia.

[*Carlos Nejar]

Obs.: Pra nunca mais esquecer....

^^

Chão de Giz

Eu desço dessa solidão
Disparo coisas sobre
Um Chão de Giz
Há meros devaneios tolos
A me torturar
Fotografias recortadas
Em jornais de folhas
Amiúde!

Eu vou te jogar
Num pano de guardar confetes
Eu vou te jogar
Num pano de guardar confetes...

Disparo balas de canhão
É inútil, pois existe
Um grão-vizir
Há tantas violetas velhas
Sem um colibri
Queria usar quem sabe
Uma camisa de força
Ou de vênus
Mas não vou gozar de nós
Apenas um cigarro
Nem vou lhe beijar
Gastando assim o meu batom...

Agora pego
Um caminhão na lona
Vou a nocaute outra vez
Prá sempre fui acorrentado
No seu calcanhar
Meus vinte anos de "boy"
That's over, baby!
Freud explica...

Não vou me sujar
Fumando apenas um cigarro
Nem vou lhe beijar
Gastando assim o meu batom...

Quanto ao pano dos confetes
Já passou meu carnaval
E isso explica porque o sexo
É assunto popular...

No mais estou indo embora!

[Composição: Zé Ramalho]
^^

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Garganta de Vento


E penso demais em viver
e penso demais nas pessoas
para estar sempre contente
de só escrever vento.
.
.
[Boris Vian]

^^

terça-feira, 21 de julho de 2009

Nem Sempre aos Poetas Apetecem as Estrelas

Apetece-me não sei porquê uma história de formigas
De formigas assexuadas negras nítidas e rápidas
Com olhos fantásticos colhendo miríades de imagens
E inúteis os olhos das formigas
Desenhadas como um oito ou como um sinal de infinito
Muitas corteses atarefadas prejudiciais
Clericais sociais subtílissimas pequenas
Formigando no chão
No chão onde florescem os cardos e as cores
No chão onde assenta a carne ansiosa das mulheres
E os joelhos dos homens
No chão onde ecoa a voz repugnante dos pregadores
E a voz das juras e dos negócios
No chão onde cai o suor dos aflitos
E o suor dos amorosos
E o suor dos operários
E o suor dos gordos
No chão onde andam os pés e estalam os escarros
No chão das guerras e das famílias correctas
E dos vasadouros e dos jardins
E do pus verde dos mendigos
E das chagas rendosas e das rendas custosas
E das doidas furiosas
E das rosas
E das airosas e das feias e dos bispos e dos triunfadores
E dos cretinos e das virgens
E dos remédios e dos males
E das vertigens e dos abismos
E das cismas
E dos sismos
E dos vermes do ventre e das sonecas
E dos ludíbrios e dos hábeis
E da força dos garantidos
E das sementes

Apetece-me não sei porquê uma história de formigas
A grande invasão das formigas multiplicando-se
Cobrindo a face da terra e a dos homens e das mulheres
Entrando-lhes pelos narizes para roerem os olhos por dentro
E fazendo bulir as coisas mortas e as vivas
Com o espantoso treme-luz irisado e magnífico
Dos seus reflexos negros e a substituírem todas as cores

Na grande montanha uma mulher enorme
Nua e infame
Tem as pernas escachadas sob as pregas do ventre
E sob as pregas do ventre seu sexo negro
É o grande formigueiro do mundo

Vive?

As formigas esvaziaram-na da enxúndia e substituíram-na
Só lhe deixaram a pele por fora para ainda haver branco visível
E como pêlos ampliados excitados e crescentes
Cobriram e desceram o vale
Enroscaram-se nas árvores
Desinquietaram a placidez das pedras
Forraram as aldeias e as cidades os animais e os homens

Que é do ciúme e das angústias?
Que é do amor e das palavras?
Que é das carícias e dos dentes?
Que é das renúncias e dos crimes?
Que é das tentações
Das promessas
Dos desejos
Dos apetites
Das fúrias?
Que é de todas as músicas?

O sol inútil cobre um mar negrejante onde os reflexos são como os olhos das moscas
E um silêncio tremendo finge de paz no mundo
Uma paz de silêncio com formigas

Formigas
Formigas
Formigas
Formigas
Formigas

[António Pedro]


^^

O inventário do adeus

Tenho um maço de cartas,
tenho um maço de memórias.
Eu podia cortar os olhos a ambas.
Eu podia usa-las como um avental de retalhos.
Podia mete-las na maquina de lavar, na de secar,
se calhar parte da dor desapareceria como sujidade?
Se calhar deitando-a pelo triturador eu poderia triturar a perda.
Alem disso – que pechincha – sem telefonemas caros.
sem viagens demoradas em aviões no nevoeiro.
Sem o riso maníaco ou bênção de um padre fora-do-baralho.
Esse padre provavelmente ainda está a flutuar numa almofada de nevoeiro.
Abençoando-nos, abençoando-nos.

Tenho que te abençoar, perdido,
aqui sentada com a minha alma trapalhona?
O tempo de propaganda acabou.
Sento-me aqui no espigão da verdade.
Ninguém para odiar senão o peixe esguio da memória
que desliza para dentro e para fora do meu cérebro
Ninguém para odiar senão o toque agudo da minha camisa de dormir
roçando o meu corpo como uma luz que se apagou.
Lembra-me o beijo que inventámos, línguas como poemas,
encontrando-se, regressando, convidando, provocando uma febre de necessidade.
Risos, mapas, cassetes, toque a cantar o seu caminho –
tudo para ser partido e posto num cofre estanque
Os mortos monótonos entopem-me e há apenas
preto ornado a preto que verte do cofre.
Preciso de o estripar e depois colocar o coração, as pernas,
de dois que foram um sobre um grande monte de lenha
e acendo-o, como eu já fui acesa e deixo-o rodopiar
em chamas chegando ao céu
Fazendo-o perigoso com o seu vermelho.

[Anne Sexton]


^^

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Sopro

"Implorando o sopro do ser divino,
o sopro que dá a vida,
o sopro de muita idade,
o sopro das águas,
o sopro das sementes,
o sopro da fecundidade,
o sopor da abundância,
o sopro do poder,
o sopro da força,
o sopro de todas as espécies de sopro
pedindo o seu sopro,
inspirando o seu sopro no calor do meu corpo,
incorporo seu sopro
para que vivas sempre luminosamente."

Poema ameríndio
(mudados para português por Herberto Helder)

sábado, 18 de julho de 2009

Claude Tenot
Estar só
é meditar numa ausência
esguer os olhos do que, escrevendo, o constata
por uma ordem emanada já se sabe donde

ir só reinvindica
sonega a caneta
dobra os papeis escritos
e conduz docemente
a uma longa suspeição de música.

[Sebastião Alba]

^^

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Metade

Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
porque metade de mim é o que eu grito
mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
porque metade de mim é partida
mas a outra metade é saudade.


Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
porque metade de mim é o que ouço
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço
e que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
mas a outra metade é um vulcão.


Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita em meu rosto num doce sorriso
que eu me lembro ter dado na infância
porque metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o teu silêncio me fale cada vez mais
porque metade de mim é abrigo
mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
mesmo que ela não saiba
e que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
porque metade de mim é plateia
e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também.

[Oswaldo Montenegro]
^^

quarta-feira, 15 de julho de 2009

A Dor de Todas as Ruas Vazias

Photobucket
Dizias da paixão, da música, do medo.
Falavas do futuro.


Agora tenho um horário que me rouba horas à poesia. É simples - de tão escandaloso que é: não posso dar-me ao luxo de pensar em ti a cada instante e – está explicado! – já nem tento oferecer os pulsos para que os beijes. Agora perco-me em saudações cordiais e sorrisos de bons dias. Sou toda leveza, acreditas? Em mim já não há espaço para a alegre melancolia dos teus olhos. Deixa-me que te minta. À hora de almoço quase me vou abaixo na determinação que - diariamente e num esforço notável - impinjo ao meu peito para te esquecer. Quase. Junto com o arroz e a hortaliça – cuidadosamente expostos num tupperware amarelo – trago também aquele livro às escondidas. Repara: a cor é a mesma e eu sempre gostei de cores garridas para espantar o desgosto. Pensei em abri-lo - como sempre - depois do ritual do café. Mas digo que não e resisto à tentação. Hoje saí cedo com um vestido de folhos até aos pés e decidi chamar o calor. Pintei as unhas para me entreter. Aqui ninguém te conhece e não há tempo para apresentações nem mais vagar para lágrimas. Das 9h às 17h não deixo que me provoques. Sobrevivo impune por amor à literatura. Talvez pelo pouco amor que lhe tenho não me deixo seduzir. Só por isso. E quando chego a casa estou demasiado cansada para que me despertes. Ainda bem. Já não me sento à varanda a ver-te chegar. Abandonei as bebedeiras e todos os vícios. Vivo agora num coração saudável: especificamente treinado para a rotina. Adormeço ao som da mesma música mas já não peço que me sussurres a carta da paixão ao ouvido. Eu também só sei ler para dentro, amor. A rua está vazia e não há mais nada que nos peça claridade. Amanhã tenho uma encomenda sem réstia de imaginação para preparar. Encontrei maneira de não ter tanto medo do futuro: porque já não te espero às minhas mãos. Num impulso. Morreste-me como um nó atravessado na garganta e eu – asfixiada – suicidei-me a seguir. Para que saibas: foi assim que deixei de escrever.


^^

Mais de Mim - V


Às vezes tenho uma estranha impressão de que nada mais pode me surpreender. Sinto que não restam lágrimas ou esperanças, que não sobrou espaço para mais decepções, fantasias ou expectativas. Parece que eu espero mesmo que o improvável aconteça.

Talvez seja porque perdi as contas de quantas horas esperei sem saber, de quantas passagens só de ida tive que rasgar. Talvez porque decorei cada sonho que permanece adormecido, cada plano que nunca saiu do papel. Talvez porque eu não queira esquecê-los ou apenas me sinta impotente diante deles.

O destino fez questão de me demonstrar que os ventos podem mudar de direção a todo instante e que preciso estar preparada para desembarcar em qualquer praia. Já não me assusta a idéia de jogar fora o velho roteiro e rabiscar outra vez o meu caminho.

No entanto, devo admitir que falar é muito fácil e sou ótima na teoria, mas na prática as coisas mudam muito. Basta que eu me distraia por um momento para que algo diferente aconteça e para que eu, que pensava que nada mais poderia me abalar, ser pega desprevenida.

Sem saber o que fazer ou falar: fico atônita. Não me atrevo a mover sequer um ladinho da sobrancelha. Não sorrio, não choro, nem mesmo uma interjeição ousa sair da minha boca. Mas também não consigo deixar de lado a mania de viver tudo do meu jeito, de viver situações inimagináveis, de sonhar com um futuro distante e melhor.

Logo um friozinho percorre o meu corpo e traz a certeza de que a vida estará sempre disposta a me surpreender. Que alívio!!!!
^^

terça-feira, 14 de julho de 2009


"Quando entre nós
só havia uma carta certa
a correspondência completa
o trem os trilhos
a janela aberta uma certa paisagem
sem pedras ou sobressaltos
meu salto alto
em equilíbrio
o copo d’água
a espera do café."

[Ana cristina césar]


^^

Hoje...


Hoje eu estou rindo à toa. Engana-se quem pensa que é por estar absolutamente feliz, a felicidade vai e vem. Simples assim. Se eu sorrio é para disfarçar a minha surpresa. De repente ficou tudo tão esquisito... Cheguei a ficar meio petrificada.

Hoje eu não quero entender ou ser compreendida. Não quero ser triste nem feliz. Nem condenada nem inocente.

Hoje eu só quero ver a vida passar.


^^

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Siempre, siempre me Quedará


Usamos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados, gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis, idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um apontamento)sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.


[Ingeborg Bachmann]

^^

Remorso


"Durante a leitura nocturna
descia, às vezes, as escadas
e procurava no escuro, dentro
de um cesto, uma forma
redonda. Na quadra iluminada
do quarto, mordia depois a maçã
vermelha escura. Era enorme o ruído
dos dentes, no silêncio dessa hora
tardia e irremediável a culpa
de ter destruído aquela polpa húmida
de onde pendia o descarnado pé
no íntimo saber de pequenas sementes
que podia perfeitamente
ter apodrecido em paz."

[Inês Lourenço]


^^

domingo, 12 de julho de 2009


"Das tentativas de sono ficaram histórias a roubar-lhe a voz
memórias avulsas vincadas na pele

o sono é ainda uma cova na cama desfeita
e sem afastar a manhã dos olhos

falta-lhe a noite para contar as estrelas."

[eue]


^^