Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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domingo, 27 de dezembro de 2009


Hoje podes deitar-te na minha cama
e contar-me mentiras - dizer, não sei,
que o amor tem a forma da minha mão
ou que os meus beijos são perguntas que
não queres que ninguém te faça senão
eu; que as flores bordadas na dobra do
meu lençol são de jardins perfeitos que
antes só existiam nos teus sonhos; e que
na curva dos meus braços as horas são
mais pequenas do que uma voz que no
escuro se apagasse. Hoje podes rasgar
cidades no mapa do meu corpo e
inventar que descobriste um continente
novo - uma pátria solar onde gostavas
de morrer e ter nascido. Eu não me
importo com nada do que me digas esta
noite: amo-te, e amar-te é reconhecer o
pólen excessivo das corolas, o seu vermelho
impossível. Mas amanhã, antes de partires,
não digas nada, não me beijes nas costas
do meu sono. Leva-me contigo para sempre
ou deixa-me dormir - eu não quero ser
apenas um nome deitado entre outros nomes.

[Maria do Rosário Pedreira]
^^

Eu sou aquela que passou na vida
sem achar nunca o porto que buscava.
Eu sou aquela que andou dia a dia
numa constante, fatigante lida
presa nas malhas da melancolia,
querendo só o que não alcançava.

Eu sou aquela que buscando a glória,
entrou na luta sem saber lutar.
Rudes batalhas, lutas sem vitória,
contra outros e mesmo contra mim,
foram as que eu, arfante e a meu pesar,
travei com sombras sem razão nem fim.

Eu sou aquela que bateu às portas
de quantas ilusões a vida encerra,
nela buscando, a sós, de terra em terra,
novas raízes de fecundas vidas,
sempre as achando apenas convertidas
em mudas sombras de cidades mortas.

Nada encontrei do que alcançar quisera:
sumiu-se a luz de cada primavera
neste vazio de ambição faminta;
e, se o gosto provei da saciedade,
frustrada foi a minha ansiosa espera,
pois mais não tive, ao fim da tempestade,
que a inútil paz da minha lareira extinta.

Donde vem e onde vai este caminho
que me leva em tão estranha direcção?
a mão de Deus guiando-me adivinho
por entre o frio hostil da cerração.
Quando, na sina de ansiedade errante
que orienta a minha incerta caminhada,
sinto o cansaço do correr da vida,
volto-me a olhar a estrada percorrida...
e, silenciosa, vou seguindo avante.

[Oliva Guerra]

^^

Enfim, Domingo...


Hoje têm histórias muito cômicas lá no Céu Aberto - da boca...
Passe lá pra se divertir!

^^

sábado, 26 de dezembro de 2009


Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa da minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse johnson & johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido chorar...

[Adília lopes]

^^

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Feliz Natal!!!! =)


... Feliz Natal aos caçadores de borboletas azuis,
artífices de rupestres enigmas, febris conquistadores a cavalgar, solenes, nos campos férteis de sedutoras esperanças...

Feliz Natal a quem voa sem asas, molda em argila insensatez e faz dela jarro repleto de sabedoria,
e aos que... sabem que as palavras brotam da mesma
fonte que abastece o coração de ternura.

Feliz Natal aos que sobrevoam abismos e plantam gerânios nos canteiros da alma, vozes altissonantes
em desertos da solidão,...
[Frei Betto]

^^

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009


Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva.

Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata.

Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar.

Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto.

[António Ramos Rosa, Antologia poética]
^^

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009


Tudo no meu olhar é um grito
marca de um jogo de espelhos polido
pelas lágrimas.

(Tenho-te no avesso das pálpebras)

e quando o lado sombrio dos olhos
alcança ausências
por instantes, todas as coisas se anunciam
como noite.

As minhas palavras são feitas de ti.

[eue]

^^

Es por ti


Há um corpo à tua espera
um corpo e um conjunto de signos
nas mãos espalmadas
a te oferecerem o riso,
as avencas na pele,
o perfume.

Há um corpo, um copo de vinho
ao pé da lareira,
no silêncio do lume.

[Silvia Chueire]
^^

Há um braço na extensão do dedo. um par de mãos. De dedos.
Há um sopro
estendido até ao limite do som. Há qualquer coisa a amarrar o tempo.
Há um corpo, um caminho a descer na invenção do braço. Há um passo.

[Maria Quintans, Apoplexia da ideia]


^^

Este Verão


Este Verão ensina-me
a amar as minhas cicatrizes,
a enfeitar-me com marcas de estrangulamento no pescoço.

Este Verão ensina-me
a fechar à chave a amargura e fico
bem roliça e anafada pareço bem tratada.

Este Verão ensina-me
a gritar o bel canto.

Este Verão ensina-me
que a solidão descansa
e cresce numa mão.

Este Verão ensina-me
a não confundir um corpo disponível
com o desejo de felicidade.

Este Verão ensina-me
a ser para cada pedra um espelho de água.

Este Verão ensina-me
a amar grandes bolas de sabão e pequenas
antes de rebentarem.

Este Verão ensina-me
que tudo sem nós
por si continua.

Este Verão ensina-me
um rosto gelado feliz.

Este Verão ensina-me
tenho que ser eu a bater no tambor
quando quiser dançar.

este Verão ensina-me
a ser sem felicidade sem tristeza por uns
segundos aliada de Deus.

Este Verão ensina-me
a acordar de manhã. Grata. Sozinha.

Este Verão ensina-me
que a folha do limoeiro só deita cheiro
quando a desfazemos entre os dedos.

[Ulla Hahn]

^^

terça-feira, 22 de dezembro de 2009


Toda alcova em penumbra. Em desalinho o leito,
onde, nus, o meu corpo e o teu corpo, estirados,
na fadiga que vem do gozo satisfeito,
descansam do prazer, felizes, irmanados.

Tendo a minha cabeça encostada ao teu peito,
e, acariciando os meus cabelos desmanchados,
és tão meu... sou tão tua. Ainda sob o efeito
da louca embriaguez dos momentos passados.

Porém, na tua carne insaciável, ardente,
o desejo reacende, estua... e, de repente,
dos meus seios em flor beijas a rósea ponta...

E se unem outra vez a lúbrica bacante
do meu ser e o teu sexo impávido, possante,
na comunhão sensual das delícias sem conta...

[Adelaide Schloenbach Blumenschein]
^^

Foi assim neste jeito
de não saber o que estou fazendo
que procurei o teu encontro
pelas esquinas da vida
no encontrão de tudo e de todos.

Como eu gostaria
que aqui ficasses
aqui dentro de mim.

[Henrique Risques Pereira]

^^

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009


Se sentes que não existes,
que se extingue a tua voz quando é escutada,
que o teu corpo se apaga se ninguém o toca.

Se tu não existes,
a tua solidão muito menos.

[Brenda Ascoz]

^^

Pouco me Importa


Pouco me importa.
Pouco me importa o que? Não sei: pouco me importa.

[Alberto Caeiro]

^^

domingo, 20 de dezembro de 2009


É a manhã no copo;
Tempo de decifrar o mapa,
De abrir as cortinas onde o sol frio nasce,
De ler uma carta pertubadora
Que veio pela galera da China;
Até que a lição do cravo
Através dos seus cristais
Restitui a inocência.


[Murilo Mendes]


^^

O jardim na planura
evocava outras ruas
polvilhadas de verde e de museu.
O ventre do navio enchia-se de sol,
parecia-lhe real
na linha circular do horizonte.

"Volta", pedira ela,
sem saber qual o monte
de mais eco.


[Ana Luísa Amaral]

^^

Retrospectiva - 2009 - EDUCAÇÃO

http://aceuabertodaboca.blogspot.com/2009/12/retrospectiva-2009-educacao.html


Hoje é meu dia lá no Céu aberto - da boca. Faremos uma restrospectiva de vários aspectos, ao longo da semana. E pra começar, falarei sobre EDUCAÇÃO.
Passe lá e confira!

^^

sábado, 19 de dezembro de 2009

Todo mundo tem segredo
Que não conta nem pra si mesmo
Todo mundo tem receio
Do que vê diante do espelho

Eu só quero o começo
Não podia lidar com o meio
Quero muito, tenho apego
Já não quero e só resta desprezo

Nem sempre ando entre os meus iguais
Nem sempre faço coisas legais
Me dou bem com os inocentes
Mas com os culpados me divirto mais
Ah... eu me divirto mais...

Não conheço o que existe entre o 8 e o 80.

[Pitty]

^^

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Claridade dada pelo tempo


III

Viver com a crueldade
da criança que
tira os olhos ao pássaro

um desconhecido
movendo-se constantemente
no deserto
em que cada pegada deixa
bem marcada na areia
a imagem
dessa outra existência
em que a morte e a memória
ainda nada significam

mais alto

muto mais alto talvez
que a claridade
do voo das aves que
partem para o desconhecido

o próprio corpo nada mais é
do que a sombra bem simples por sinal
em que,
por erro nosso ou dos outros,
já não existe
a persistência do que
foi perdido

e as mãos
as mãos que sentimos
bem presas seguras aptas
essas
todos sabemos
que podem ainda cada vez mais
esmagar com cuidado
com extremo cuidado
dilacerar suavemente...

nos olhos
está o amor.

[Mário-Henrique Leiria]

^^

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

A morte Absoluta


Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão - felizes! - num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?


Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
- Sem deixar sequer esse nome.

[Manuel Bandeira]

^^

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Uns corpos são como flores,
Outros como punhais,
Outros como fitas de água;
Mas todos, cedo ou tarde,
Serão queimaduras que em outro corpo aumentem,
Convertendo pelo fogo uma pedra num homem.

Mas um homem agita-se em todas as direcções,
Sonha com liberdades, compete com o vento,
Até que um dia se apaga a queimadura,
Volta a ser pedra no caminho de ninguém.

Eu, que não sou pedra, mas caminho,
Que, ao passar, atravessam os pés nus,

Morro de amor por todos eles;
Dou-lhes meu corpo para que o pisem,
Embora os leve a uma ambição ou uma nuvem,
Sem que nenhum compreenda
Que nuvens ou ambições
Não valem um amor que se entrega.


[Luis Cernuda]

^^

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Parolagem da Vida


Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nula.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!

[Carlos Drummont de Andrade]


^^

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Nem Tudo


Nem tudo que reluz corrompe
Nem tudo que é bonito aparenta
Nem tudo que é infalível se aguenta

Nem tudo que ilude mente
Nem tudo que é gostoso tá quente
Nem tudo que se encaixa é pra sempre

Nem tudo que é sucesso se esquece
Nem todo pressentimento acontece

Nem tudo que se diz tá dito
Nem tudo que não é você é esquisito

Nem tudo que acaba aqui
Deixa de ser infinito
Nem tudo que acaba aqui
Deixa de ser infinito.

[Compositor(es): Edu Tedeschi Zélia Duncan]
^^

domingo, 13 de dezembro de 2009

[...]

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo.
Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
— a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
— Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

[Herberto Helder]

^^

sábado, 12 de dezembro de 2009


Sabes quem sou? Eu não sei.
Outrora, onde o nada foi,
Fui o vassalo e o rei.
É dupla a dor que me dói.
Duas dores eu passei.

Fui tudo que pode haver.
Ninguém me quis esmolar;
E entre o pensar e o ser
Senti a vida passar
Como um rio sem correr.

[Fernando Pessoa]
^^

Vastos Jardins do meu Silêncio


Recordo o itinerário das sombras quando o chão
apresenta sua harpa mortal e nos muros eclode
o desejo de música. A minha vocação lírica
demora-se nos teus dedos, existe e regressa
com o sal das noites. Três luas ensaiam
uma estratégia no invisível.

Há uma lâmina
de frio encostada ao meu pescoço.

Posso recolher o mel da inesperada estação,
amar os teus lábios. Posso ver cair
os frutos, na distância, aspirar ao sentido ardente
dos cometas, entrever o poema que
oscila por trás das cortinas. As três luas são
um enigma, e os enigmas sabe-se
que são sinais trágicos.

O meu nome é hoje um sol despedaçado
no corpo inocente da primavera.

Abro os portões, o hausto dos campos
atravessa uma faca na garganta, mas talvez
eu possa cantar. As luas arrebatam o sono
inquieto das cancelas terrestres, comboios
avançam sobre pétalas, queimam a geada,
derrubam o eterno das montanhas.
Chega-se tarde ao que se ama.

Eu digo, eu canto, tu danças, levitada,
nos vastos jardins do meu silêncio.

[Vasco Gato]

^^

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

MEU SER VIVE na Noite e no Desejo.
Minha alma é uma lembrança que há em mim.

[Fernando Pessoa]

^^

Ele


Talvez nunca tenha entendido a minha maneira
de amar ou talvez nunca
tenha tido uma maneira de amar ou uma única
maneira de amar – talvez nunca
tenha sabido o amor de uma maneira – a forma
e a proporção a geometria – mas estou certo que amei
sempre tarde demais ou num cedo incerto de
tanta impossibilidade de me encontrar amando
seja o que for
o amor.

[Frederico Mira George]
^^

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Esconderijo


Procuro a solidão
Como o ar procura o chão
Como a chuva só desmancha
Pensamento sem razão
Procuro esconderijo
Encontro um novo abrigo
Como a arte do seu jeito
E tudo faz sentido
Calma pra contar nos dedos
Beijo pra ficar aqui
Teto para desabar
Você para construir...

[Composição: Ana cañas]


^^

Cuidado!


A porta cerrada
não abras.
Pode ser que encontres
o que não buscavas
nem esperavas.


Na escuridão
pode ser que esbarres
no casal em pé
tentando se amar
apressadamente.

Pode ser que a vela
que trazes na mão
te revele, trêmula,
tua escrava nova,
teu dono-marido.

Descuidosa, a porta
apenas cerrada
pode te contar
conto que não queres
saber.

[Carlos Drummont de Andrade]

^^

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Direto do blog Cranberry Sauce: Um Poema dedicado ao Céu Aberto - da Boca \o/


Sete Bocas
Céu aberto, de todas as bocas
Das camas, das almas
Das traições, das calcinhas jogadas
Dos sexos sem compromisso
Dos ódios sem calma
Das manchas borradas
Da naturalidade de ser mulher
Das fantasias dos poemas no qual me sorri
Do ódio que as espantam
Faz-se o beijo que meu corpo quer

Na complexidade, as bocas
No texto, o contexto
Na liberdade, fugi
Na prisão, o esconderijo
Porque sou homem
E as bocas que me dizem se há uma mulher
Me calo, com minha imbecilidade
Me mato nas palavras que me consomem
Por me tornar um poeta qualquer

De todas as bocas, nenhuma beijei
Porém, de minha mania de fingir
Em minha própria prosa me calei.

http://cransauce.blogspot.com/


[Marcelo Mayer]


^^

A Vida

Na água do rio que procura o mar;
No mar sem fim; na luz que nos encanta;
Na montanha que aos ares se levanta;
No céu sem raias que deslumbra o olhar;

No astro maior, na mais humilde planta;
Na voz do vento, no clarão solar;
No inseto vil, no tronco secular,
A vida universal palpita e canta!

Vive até, no seu sono, a pedra bruta . . .
Tudo vive! E, alta noite, na mudez
De tudo, — essa harmonia que se escuta

Correndo os ares, na amplidão perdida,
Essa música doce, é a voz, talvez,
Da alma de tudo, celebrando a Vida!

[Olavo Bilac]

^^

terça-feira, 8 de dezembro de 2009


Não temos nome somos apenas
objectos que respiram.

Quando o tempo não se gasta com a respiração
envelhece com os instantes guardados no fundo das gavetas.

Enumeramos solidões onde o corpo se torna lento
e a pouco e pouco atravessamos outonos sem precisar de mapas.

[Maria Sousa]

^^

Sem sen.tido

Ain.da assim...

Vou.ainda a.ssim. fico.ven.to. canção. agarro-te a mão. por aí. per.co. perco.me.sabes de cor a língua e o tro.vão. lu.me.cais. e bar.co. não na.do. descul.pa. chiclete. sal. o t.eu pêlo. penso. sen.tido. não fa.ço. não sei horas. ainda.a.ssim. vou.respirar.te. a.manhã. dás.me a m.ão?

^^

Pneumotórax


Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
— Respire.

...................................

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

[Manuel Bandeira]

^^

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Eu contra a Noite - Feliz da Vida! \o/


Fiz um contrato com a noite,
O Céu sorriu estrelado
Ruas vazias de gente
Testemunhando desejos
Antecipando os teus gestos,
Leves complexos simples


Em pleno voo noturno
zona de pura alegria
a solidão sozinha
Corria atrás de mim
experimentando assim, assim!!!

Hoje, hoje é meu dia de gente
Hoje é proibido dormir...

Até o amanhecer eu quero estar com Você

[Kid Abelha]

(...)


diz que não sabe do medo da morte do amor
diz que tem medo da morte do amor
diz que o amor é morte é medo
diz que a morte é medo é amor
diz que não sabe...

[Alejandra Pizarnik]

^^

Psiquetipia (Ou Psicitipia)

Símbolos. Tudo símbolos
Se calhar, tudo é símbolos...
Serás tu um símbolo também?
Olho, desterrado de ti, as tuas mãos brancas
Postas, com boas maneiras inglesas, sobre a toalha da mesa.
Pessoas independentes de ti...
Olho-as: também serão símbolos?
Então todo o mundo é símbolo e magia?
Se calhar é...
E por que não há de ser?

Símbolos...
Estou cansado de pensar...
Ergo finalmente os olhos para os teus olhos que me olham.
Sorris, sabendo bem em que eu estava pensando...

Meu Deus! e não sabes...
Eu pensava nos símbolos...
Respondo fielmente à tua conversa por cima da mesa...
"It was very strange, wasn’t it?"
"A wfully strange. And how did it end?"
"Well, it didn't end. It never does, you know."

Sim, you know... Eu sei...
Sim eu sei...
É o mal dos símbolos, you know.
Yes, I know
.
Conversa perfeitamente natural... Mas os símbolos?
Não tiro os olhos de tuas mãos... Quem são elas?
Meu Deus! Os símbolos... Os símbolos...

[Álvaro de Campos]

^^

domingo, 6 de dezembro de 2009

Onde reconheci o teu sinal,
onde reconheci o meu?
Na tua voz, nos teus olhos, nas tuas mãos
ou no silêncio que precede o silêncio?
A tua mão ordena a desordem do caos
e a minha paixão agita os ramos da árvore
que há dentro de ti
para que os frutos caiam.
Que generosos são os deuses
sábios e calados!
Posso observar o seu sorriso
de prazer, de entendimento
quando nos vêem
caminhando juntos,
desenredando os fios
em estranhos, secretos labirintos.

[Lourdes Espínola]

^^

Vamos discutir a relação?

http://aceuabertodaboca.blogspot.com/?zx=6ea98226b6d57164

Hoje tem "DR" lá no Céu Aberto...
Passe lá pra ver o que rola.

^^

sábado, 5 de dezembro de 2009

Pelo Sabor do Gesto


Quem já tocou o amor pelo sabor do gesto?
Sentiu na boca o som? Mordeu fundo a maçã?
Na casca a vida vem tão doce e tão modesta
Quem se perdeu de si?
Eu já toquei o amor pelo sabor do gesto
Confesso que perdi, me diz quantos se vão?
Paixões passam por mim, amores que têm pressa
Vão se perder em si
.
Se o amor durou demais, bebeu nas suas veias
Seus beijos de mentira não chegam muito longe
Paixões correm por mim, são só suaves febres
Seus beijos mais gentis derretem pela neve
Pra que tocar o amor, pelo sabor do gesto?
Se o gosto da maçã vem sempre indigesto?
Amarga essa canção, os dias e o resto
Se perde como um grão
.
Mas se eu ousar amar pelo sabor do gesto
Te empresto da maçã vai junto o coração
Esquece o que eu não fiz
Te sirvo o bom da festa
De um jeito mais feliz
Paixões correm por mim, eu sei tudo de cor
Carinho sem querer me cansa e me dói
.
Se o amor vem pra ficar faz tudo mais bonito
Me basta ter na mão e o corpo tem razão.
.
[Compositor(es): As-tu Déjà Aimé Alex Beaupain Versão Zélia Duncan]

^^

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

*O Amor é para os Parvos(?)


Costumavas dizer:
- Quando penso em ti, vejo-te com a cabeça pousada nos meus joelhos, a olhar para mim com olhos grandes.
É sobretudo agora, que já aqui não estás, que gosto de imaginar-me tal qual tu então me vias
- Com a cabeça pousada nos meus joelhos, quieto, enquanto passo a mão, devagar, pela escova mole dos teus cabelos.
Mas não posso já aninhar-me no teu colo e a verdade é que mesmo tu, tenho a certeza, não me recordas já assim.

Disseste:
- O amor é para os parvos.
Quase sem sotaque e mantendo os olhos no refúgio da vidraça; sem sacudir um músculo, como se boca e lábios estivessem governados por uma vontade oculta.
- O amor é para os parvos.
Repetiste, antes de te voltares para trás e deixares que as lágrimas rolassem grossas como as gotas de chuva lavando a poeira das paredes. Choramos ambos, abraçados, para que não pudesses ver o meu rosto, nem eu o teu. O Verão extinguia-se lá fora e nós soubemos, em algum momento daquele nosso abraço, que não era só a estação que chegava ao fim. Talvez tu o soubesses já, mesmo antes de me dizeres que
- O amor é para os parvos.
Já o sabias, decerto. Eu devia sabê-lo também, ou não te tivesse eu dito tantas vezes que um dia me deixarias, que partirias por estar cansada de mim e dos meus silêncios, por não suportares mais esta minha forma de te dizer que é passageira a sinceridade dos meus sentimentos e demasiado benévola a imagem que de mim guardavas
- Com a cabeça pousada nos meus joelhos, a olhar para mim com olhos grandes.

Inevitável. A palavra certa é inevitável e lembro-me que foi essa a palavra que me ocorreu enquanto te abraçava e tu me abraçavas a mim. Era forçoso que assim fosse, não porque o quisesses tu ou o desejasse eu. Simplesmente tinha que acabar, de uma forma ou de outra e, sendo assim, antes terminasse com um abraço. Mas tinha que acabar. São coisas que não se explicam, ou que, tendo explicação, não podem justificar-se recorrendo às escorreitas equações da lógica. Eu amo-te, tu amas-me; logo: separámo-nos. Tu vais e eu fico. Sofres tu e eu sofro também, porque tem mesmo de ser assim e não podia ser de outra maneira. E, se calhar, tinhas razão - o amor é mesmo para os parvos. Para os que não sabem apaixonar-se e não têm tempo a perder com sofrimento. Para os que estão sempre de passagem e precisam de um lugar aonde encontrem, de vez em quando, um par de cuecas limpas, peúgas lavadas e três camisas engomadas. Um sítio do qual possam dizer: esta é a minha casa, esta é a minha mulher, esta é a minha escova de dentes e estes são os meus filhos, a herança que deixo ao mundo, a geração que lego à posteridade - jangada de Noé à deriva no lodo estagnado da vida.

O amor é para os parvos, disseste bem. Lembras-te? O amor é para os parvos e nós soubemos, ao menos naquele abraço, que não era aquela a nossa vida. Talvez não o soubéssemos ainda e apenas o intuíssemos. Fosse como fosse, sabêmo-lo agora - sei-o eu ao menos - e é por isso que te digo que foi melhor assim, ainda que tivesse no corpo uma vontade incontrolável de lamber as lágrimas que te percorriam a face; de te cingir os joelhos com ambos os braços e te pedir que ficasses. Terias ficado, eu sei. Ainda aqui estarias se me tivessem ocorrido as palavras certas - mas inevitável foi a única que me ocorreu. Teríamos as nossas escovas dos dentes, a gaveta com as minhas peúgas e as minhas cuecas e os nossos filhos. Talvez um sítio a que pudéssemos chamar lar. Isso tudo, enfim. É até possível que pudéssemos ter chegado a ser felizes ou, em alternativa, podíamos ter conseguido viver tão harmoniosamente que nos fosse permitido fazer de conta que éramos felizes. É tão fácil, há tanta gente que consegue e que chega a convencer-se de que é real a paz familiar que pacientemente arquitectaram; de que são sinceros os sorrisos, os beijos, os abraços. Fosse eu capaz de dizer as palavras, tivesse eu posto os meus olhos defronte dos teus para que tu pudesses ler - ao menos dessa vez - o que neles estava escrito e podia ser também nosso esse mundo de conveniência. Ter-nos-íamos magoado e feito de conta que não é nada. Ter-te-ia enganado e voltado a casa com o ar do costume, a máscara de cansaço e enfado que te havias de habituar a ter em vez do meu rosto.

Tudo isto, amor.


[Manuel Jorge Marmelo]


^^

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009


Vamos fazer limpeza, mas geral
e vamos deitar fora as coisas todas
que não nos servem para nada, essas
coisas que não usamos já e essas
que nada fazem mais que apanhar pó,
as que evitamos encontrar porquanto
nos trazem as lembranças mais amargas,
as que nos fazem mal, enchem espaço
ou não quisemos nunca ter por perto.
Vamos fazer limpeza, mas geral,
talvez melhor ainda uma mudança
que nos permita abandonar as coisas
sem sequer lhes tocar, sem nos sujarmos,
que fiquem onde sempre têm estado;
vamos embora só nós, vida minha,
para voltar a acumular de novo.
Ou vamos deitar fogo ao que nos cerca
e ficarmos em paz com essa imagem
do braseiro do mundo face aos olhos
e com o coração desabitado.

[Amalia Bautista]


^^

Brincar de Viver

Quem me chamou
Quem vai querer voltar pro ninho
redescobrir seu lugar
Pra retornar
E enfrentar o dia-a-dia
Reaprender a sonhar
Você verá que é mesmo assim,
que a história não tem fim
Continua sempre que você responde sim
à sua imaginação
A arte de sorrir cada vez que o mundo diz não.

Você verá que a emoção começa agora
Agora é brincar de viver
E não esquecer, ninguém é o centro do universo.

Que assim é maior o prazer...

Você verá que é mesmo assim,
que a história não tem fim
Continua sempre que você responde sim
à sua imaginação
A arte de sorrir cada vez que o mundo diz não.

E eu desejo amar todos que eu cruzar pelo meu caminho
Como eu sou feliz, eu quero ver feliz
Quem andar comigo, vem...


[Compositor: Guilherme Arantes]

^^

E se eu tentasse
dar-te outra coisa
algo fora de mim,
nao saberias
que o pior de qualquer um
pode ser, no fim,
um acidente de esperança.

[Anne Sexton]
^^

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Quem de nós dois acordou primeiro?


Falemos claramente de obsessões. Não mais gestos interrompidos por palavras mansas. Hoje encontrei-te numa mesa de café. Trazias umas calças de bombazina e uma camisola de lã. Estiveste ali enquanto eu olhava o tecto e as paredes cor de laranja - a segurar-me esta mão que treme. Diria até que soubeste escolher a música e depois fechaste a porta. Voltaste – sorriso infantil – catraia debaixo do braço. Ela: trança no cabelo e a mesma curiosidade no brilho dos olhos. Tu: mergulhado nessa ternura de um amor maior.

Falemos agora de sonhos. Levantaste-te num repente e só eu depois. Deitada num sofá que não é nosso. O chá arrefeceu e a catraia fugiu. Não eras tu. Não podias ser tu. Eu sem catraia; eu sem ti. Eu sem nada. E a música a tocar a probabilidade de um grande amor a bater-me à porta. Fechada. Diz-me então com sinceridade: quem de nós dois acordou primeiro?

[Autor desconhecido]


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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Todos os Verbos

Errar é útil
Sofrer é chato
Chorar é triste
Sorrir é rápido
Não ver é fácil
Trair é tátil
Olhar é móvel
Falar é mágico
Calar é tático
Desfazer é árduo
Esperar é sábio
Refazer é ótimo
Amar é profundo
E nele sempre cabem de vez
Todos os verbos do mundo
Abraçar é quente
Beijar é chama
Pensar é ser humano
Fantasiar também
Nascer é dar partida
Viver é ser alguém
Saudade é despedida
Morrer um dia vem
Mas amar é profundo
E nele sempre cabem de vez
Todos os verbos do mundo.




[Compositor(es): Marcelo Jeneci Zélia Duncan]


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