Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

Redes Sociais

https://www.facebook.com/danielle.manhaes --- Instagram: @danielle.manhaes @danielle.manhaes_psi

sábado, 27 de junho de 2009

A Você (ao responsável pela apresentação desta poesia: Obrigada!)














"Seja você quem for,
receio que você esteja
trilhando as trilhas das ilusões:
receio que essas supostas realidades
venham a derreter-se de baixo dos seus pés
e suas mãos
mesmo agora os seus traços, alegrias,
conversa, casa, negócios, costumes,
maneiras, preocupações, loucuras, crimes,
dissipam-se a afastar-se de você,
e diante de mim surge
você em corpo e alma verdadeiros,
à parte das tarefas, do comércio, lojas,
trabalho, fazendas, roupas, a casa,
comprar, vender, comer, beber, sofrer, morrer.

Seja você quem for,
agora eu ponho em você a minha mão
para que você seja meu único poema,
sussurro com meus lábios perto de sua orelha:
muitas mulheres e homens tenho amado
mas a ninguém eu amo mais que você.
Que atrasado e mudo eu tenho sido!
Eu já devia ter traçado o meu caminho
diretamente a você muito antes,
eu não devia ter falado em outra coisa
que não fosse você,
eu não devia ter cantado coisa alguma
senão você...

(...)

Ah eu pudera cantar
tanta grandeza e glória a seu respeito!
Você nunca soube o que você é,
a vida toda tem passado a cochilar
a seu próprio respeito,
para mim suas pálpebras estavam
como arriadas a maior parte do tempo,
e em brincadeiras retorna
o que você andou fazendo...

Nas brincadeiras você não está,
por baixo delas e por dentro delas
percebo que você anda a esconder-se,
e eu vou atrás, como ninguém jamais
andou atrás de você:
a escrivaninha, o silêncio,
a expressão brejeira, a noite,
os hábitos de rotina - tudo isso esconde você
de você mesmo ou de outros,
mas não de mim;
o rosto barbeado, o olhar inquieto,
a aparente impureza,
se engana aos outros, não engana a mim;
a vestimenta berrante, a atitude deformada,
a embriaguez, a ganância,
a morte prematura - tudo isso
eu vou pondo de lado.

Não há dote nenhum de homem ou mulher
que não seja assinalado em você,
não há virtude ou beleza de homem ou de mulher
que não se encontre igualmente bem em você,
nem ânimo ou resistência que outros se possa achar
e não se ache igualmente em você,
nenhum prazer em esperar por outros
a que não corresponda
igual prazer em esperar por você.

(...)

Dos tornozelos caem-lhe os grilhões,
e você tem o domínio de uma infalível suficiência
- de muita ou de pouca idade, macho ou fêmea,
com pouca altura ou cultura,
ante a rejeição dos outros,
aquilo que você é proclama o seu próprio ser
atravessando nascimento, vida, morte,
sepultamento - os meios se propiciam,
nada é poupado, perdas, ignorância, tédio,
aquilo que você é vai marcando o seu caminho."

[Walt Whitman]

^^

sexta-feira, 26 de junho de 2009

A Nova Pessoa que Vem a Mim

Photobucket
"A nova pessoa que vem a mim
é você?
Ouça um conselho, para começar:
eu sou com certeza bem diferente
do que você imagina.
Você imagina encontrar em mim
Seu ideal?
Acha tão fácil assim eu me tornar
seu amante?
Pensa que minha amizade
é fonte de satisfação sem impureza?
Julga que eu seja fiel e digno de confiança?
Além desta fachada,
do meu jeito macio e tolerante,
você não vê mais nada?
Acha que vem avançando
em bases realmente firmes
na direção de um homem realmente heróico?
Pela cabeça nunca lhe passou,
ó sonhador,
que tudo isso pode ser maya, ilusão?"


[Walt Whitman]


^^

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os dias



(O soneto que só errado ficou certo)


"Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os dias
para te dizer, com a simplicidade do bater do coração,
que afinal ao pé de ti apenas sinto as mãos mais frias
e esta ternura dos olhos que se dão.

Nem asas, nem estrelas, nem flores sem chão
- mas o desejo de ser a noite que me guia
e baixinho ao bafo da tua respiração
contar-te todas as minhas covardias.

Ao pé de ti não me apetece ser herói
mas abrir-te mais o abismo que me dói
nos cardos deste sol de morte viva.

Ser como sou e ver-te como és:
dois bichos de suor com sombra aos pés.
Complicações de luas e saliva."


[José Gomes Ferreira]


^^
Katia Chausheva

"Sempre que sobre mim poisava os olhos, o olhar dele era o de quem os volta para dentro de si próprio, como se nesse espaço me quisesse aprisionar ou dele, sem que eu sequer o suspeitasse, há muito me tivesse feito residente. Raro era, porém, surgirem sob as pálpebras, no rosto, onde seria de esperar vermo-los, esses olhos. Não o faziam senão quando, como depois veio a ser sabido, até aí com ímpeto os alçava o seu mar interior nas suas cristas."


[Luís Miguel Nava]
^^

Dos frutos na língua




Alguém parte uma laranja em silêncio, à entrada
de noites fabulosas.
Mergulha os polegares até onde a laranja
pensa velozmentem e se desenvolve, e aniquila, e depois
renasce. Alguém descasca uma pêra, come
um bago de uva,
devota-se
aos frutos. E eu faço uma canção arguta
para entender.

Inclino-me sobre as mão ocupadas, as bocas,
as línguas que devoram pela atenção dentro.
Eu queria saber como se acrescenta assim
a fábula das noites. Como silêncio
se engrandece, ou se transforma com as coisas. Escrevo
uma canção para ser inteligente dos frutos
na língua,
por canais subtis, até
uma emoção escura.

[Herberto Helder]


^^

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Caminhos do Espelho




I
E sobretudo olhar com inocência. Como se nada se passasse, o que é certo.

II
Mas a ti quero olhar-te até estares longe do meu medo, como um pássaro no limite afiado da noite.

III
Como uma menina de giz cor-de-rosa num muro muito velho subitamente esbatida pela chuva.

IV
Como quando se abre uma flor e revela o coração que não tem.

V
Todos os gestos do meu corpo e voz para fazer de mim a oferenda, o ramo que o vento abandona no umbral.

VI
Cobre a memória da tua cara com a máscara daquela que serás e afugenta a menina que foste.

VII
A nossa noite dispersou-se com a neblina. É a estação dos alimentos frios.

VIII
E a sede, a minha memória é da sede, eu em baixo, no fundo, no poço, bebia, recordo.

IX
Cair como um animal ferido no lugar de hipotéticas revelações.

X
Como quem não quer a coisa. Nenhuma coisa. Boca cosida. Pálpebras cosidas. Esqueci-me. Dentro o vento. Tudo fechado e o vento dentro.

XI
Sob o negro sol do silêncio douravam-se as palavras.

XII
Mas o silêncio é certo. Por isso escrevo. Estou só e escrevo. Não, não estou só. Há alguém aqui que treme.

XIII
Ainda que diga sol e lua e estrelas refiro-me a coisas que me acontecem.
E o que desejava eu?
Desejava um silêncio perfeito.
Por isso falo.

XIV
A noite parece um grito de lobo.

XV
Delícia de perder-se na imagem pressentida. Levantei-me do meu cadáver, fui à procura de quem sou. Peregrina, avancei em direcção àquela que dorme num país ao vento.

XVI
A minha queda sem fim na minha queda sem fim onde ninguém me esperava pois ao descobrir quem me esperava outra não vi senão a mim mesma.

XVII
Algo caía no silêncio. A minha última palavra foi eu embora me referisse à aurora luminosa.

XVIII
Flores amarelas constelam um círculo de terra azul. A água treme cheia de vento.

XIX
Deslumbramento do dia, pássaros amarelos na manhã. Uma mão desata as trevas, arrasta a cabeleira da afogada que não cessa de passar pelo espelho. Voltar à memória do corpo, hei-de regressar aos meus ossos de luto, hei-de compreender o que a minha voz diz.


[Alejandra Pizarnik]
^^
"Tu estás ao fundo das imagens. És a água silenciosa que bebo, a lentidão dos meses quente – e mordes o meu coração com a boca de quem ignora tudo."

[Vasco Gato]


Where The Wild Roses Grow

"Como num espelho onde te procuras
vês na água as palavras
que cabem no silêncio."


[Maria Sousa]

^^

terça-feira, 23 de junho de 2009


Despir o dia quando os olhos se enrugam e
o teu corpo não tem espaço senão para palavras
que afogas nos lençóis

passas a noite a aprender que
talvez sejam elas o que envelhece no linho

na minha boca há um não te saber dizer
que há cor para além da memória

e entre as margens do lençol já gasto
há sono onde nem todos os sonhos respiram.


[eue]

^^
Anke Merzbach

Chega-te mais. Sei que parece
não caber um grão entre nós
e o calor que me dás cura-me
de muitos males. Mas a tua pele
é também um escudo impenetrável
e os teus ouvidos estão voltados
para dentro, mas não ouves
as mensagens que te atravessam,
não escutas nenhum de nós.
Não sei porque estamos aqui
Colados um ao outro. É verdade
que está frio, um frio que se repete
todos os dias como se fôssemos peixes
de aquário e se tivessem esquecido
de mudar a água. Andamos às voltas
no vidro redondo, vamos ficando míopes
e sujando a água. Estamos juntos
e juntos damos a volta ao circo.
Há uns quantos que nos aplaudem,
mas acho que têm tanto medo como nós


[Rosa Alice Branco]

^^

domingo, 21 de junho de 2009


"Folha que desceste à minha alma,
não regresses para
de onde vieste sem outra folha."
.
.
[Maria Gabriela Llansol, Finita]
^^

- Zapping -

Uma mulher que espera.
Um homem que contempla a sua mortalidade.
As estagnadas vendas no imobiliário.
A nuvem atómica sobre recifes de corais.
O imprevidente regresso à casa da tortura.
Amazonas insaciáveis raptam guerreiros feitos escravos.
O metal como delírio erótico.
A aniquiliaçao do mundo num enorme desastre automóvel.
6 de Junho a partir das 19 Jazzanova e outros que tais.
O índice Dow Jones como fetiche.
O sangue insurrecto ou inocente mancha o asfalto.
O vibrafone mais cool do século.
A estranha vida do senhor Musaranho.
O cântico das baleias em águas tropicais.
A torre de aço e vidro que arde por dentro e desaba.
O negro-vinil do corvo.
Sete palmos de terra.



A TV radical não será vista por ninguém de bom nome.


[Luís Quintais]


^^

sábado, 20 de junho de 2009

Photobucket

(...)"a rapariga que escreve vê o homem que fala
fecha os olhos e brinca com as manchas de luz
traça histórias de papel indiferentes ao tempo
ritualiza gestos em palavras e responde com
perguntas onde os pássaros se encostam

nos olhos fica o silêncio do outro corpo

afinal bastava rasgar os dias dos rostos
e usar a voz como um percurso

as palavras estão sempre entre
o som e a noite."

[eue]


^^

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Explicação da Ausência

(...) o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o avir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer – fosse abertura –
E a saudade é tudo ser igual.

[Daniel Faria]




Não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes. (In)felizmente é recorrente. Em mim. Não imagino um Inverno sem uma voz murmurada e familiar. Não imagino alegria maior do que uma cumplicidade secreta partilhada. Depois, resta esperar que a paz nos sorria as boas-noites num céu estrelado (que nem sempre se vê). Talvez seja difícil de entender: as frases de luz não são para todos. O silêncio interrompido naquela voz antiga de fazer crescer os sonhos: cheiros e cores de uma vida ao sol – roubar ao mundo um pedaço de vida. Deixar a alma respirar, intacta, por entre destroços de tempestades e certezas. Não é para todos – suster o tempo. É por isso que não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes. Fingir que está tudo bem. Livros espalhados pelo chão do quarto – Daniel Faria? – e ideias simples a rondarem o tecto da imaginação. Com que sonhas? Confusão. O que sentes agora? Confusão. Falta-me um tempo tranquilo. Porque há certezas que substituem outras certezas. Os dias de chuva e as saudades escondidas por detrás de uma armadura pesada – o meu peito – vieram para ficar. Mas isso não se diz a ninguém. Sente-se. E as folhas de um dourado tão triste acompanham a melancolia do vento. Há lugares, dentro de nós, perdidos para sempre. Resgatam-se, assim de repente, em acordes furiosos que reclamam algum gesto irreflectido. Não se compreende. Aqui pensa-se tudo. Os corpos enganam muito e escurece cada vez mais cedo. As mãos ficam abandonadas à procura de braços abertos que as recebam. Novo silêncio. O tempo, curador de feridas, entretém-se no relógio e agora já não apetece dormir. Passamos pelos minutos – lentamente – invisíveis, alheados e estranhos. Será que há quem nos traduza? Não são precisas palavras. E o inesperado acontece: matamos coisas na vida. Assim, numa linguagem própria de quem tem medo de insistir, de magoar, ou de arder. Matamos ou morremos. Pior: sobrevivemos. Longe de tudo. E não há grito nenhum que nos salve. Ninguém nota o fio de voz – quase silêncio – que nos vai costurando o tempo. Essa certa maneira de procurar trazer à tona algumas palavras que se escondem no olhar. A dor insuportável de não mais saber agarrar a doçura de um abraço dado há tanto tempo. Não é para todos – suster o tempo. É por isso que não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes. Eu conheço um desses lugares. Acredito que essa voz também conhece(u) um lugar assim. Falta-me um sítio onde pousar a cabeça. Sobra-me a almofada. E resta esperar que a vida esqueça certos lugares que não morrem. As frases de luz não são para todos. Muito menos o rasto mágico de alguns momentos feitos, mais tarde, de ausências.

Porque em seu peito nunca tive aberta
A veia exacta para lhe ser sangue.

[Daniel Faria]
^^

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Enquanto isso, em Portugal...

Sweetcharade

"Os meus contemporâneos falam muito
e dizem: «Então é assim»,
com o ar desenvolto de quem se alimenta
do som da própria voz, quando começam
a explicar longamente as actuais tendências
das artes ou das letras ou das sociedades
a pouco e pouco iguais umas às outras
neste primeiro mundo em que nascemos,
agora que o segundo deixou de existir
e que o terceiro, mais guerra, menos fome,
continua abstracto, em folclore distante.


Parece que está morta a metafísica
e que a verdade adormeceu, sonâmbula,
nos corredores vazios onde, às escuras,
se vão cruzando alguns milhões de frases
dos meus contemporâneos. Todavia,
falam de tudo com o entusiasmo
de quem lança «propostas» decisivas
e percorre as «vertentes» de novos caminhos
para a humanidade, enquanto saboreiam
a cerveja sem álcool, o café
sem cafeína e sobretudo
o amor sem amor, pra conservarem
o equilíbrio físico e mental.


Os meus contemporâneos dizem quase sempre
que não são moralistas, e é por isso
que forçam toda a gente, mesmo quem não quer,
a ser livre, saudável e feliz:
proíbem o tabaco e o açúcar
e se por vezes sofrem, tomam comprimidos
porque a alegria é uma questão de química
e convém tê-la a horas certas, como
o prazer vigiado por preservativos
e outros sempre obrigatórios cintos
de segurança, pra que um dia possam
sentir que morrem cheios de saúde.


Quando contemplo os meus contemporâneos
entre as conversas trendy e os lugares da moda,
«tropeço de ternura», queria ser
pelo menos tão ingénuo como eles,
partilhar cada frémito dos lábios,
a labareda vã das gargalhadas
pela madrugada fora. No entanto,
assedia-me a acédia de ficar
assim, mais preguiçoso do que um Oblomov
à escala portuguesa - ó doce anestesia
a invadir-me o corpo, a libertar-me
desse feitiço a que se chama o «espírito
do tempo
» em que vivemos, sob escombros
de um céu desmoronado em mil pequenos cacos
ainda luminosos, virtuais
estrelas que se apagam e acendem
à flor de todos os écrans
que os meus contemporâneos ligam e desligam
cada dia que passa, nunca se esquecendo
de carregar nas teclas necessárias
para a operação save
e assim alcançarem a eternidade.


[Fernando Pinto do Amaral]

^^

Desabafo


O bom de falarmos com estrangeiros é a economia nas palavras. Gosto disso. E toda a gente nos percebe - parece magia. Treinamos um inglês quase sempre enferrujado e até falamos por gestos. Aprendemos tradições e hábitos novos. Porque o desenrasque é uma coisa linda.
Nada mais triste (e frequente também) do que sermos estrangeiros na nossa própria língua: esgotar todos os argumentos para depois escutar só o silêncio do outro lado.
Das duas uma: ou eles (os estrangeiros) são muito simpáticos comigo ou eu estou mesmo a morrer de vontade de sair daqui. Preciso urgentemente de um cenário diferente. Quero fazer um piquenique perto de um castelo qualquer na Escócia, por exemplo.
Já ficava às portas da alegria por isso... ai,ai....
É por estas e por outras que o desabafo nunca foi o meu forte.


^^

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Entendes o que digo?

Photobucket

"Os meus dedos seguem_te. Nas tuas palavras.
Vibro contigo. Quando te_encantas e quando me_encantas.
Perco a razão quando me_foges. Quando te_esquivas.
E continuas ali, dentro. De mim.

Semeio as tuas palavras na minha boca. digo_as em voz alta. Para te_ouvir.
E resvalo pelo tempo. Procurando_te. E achando_te dentro. De mim.

E não serei igual a ninguém.
Porque eu sou_te."

^^

terça-feira, 16 de junho de 2009

Retrato





A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.
Há quem, tendo-a metida
num cofre até às mais fundas raízes,
simule não ter pele, quando
de facto ela não está
senão um pouco atrasada em relação ao coração.
Com ele porém não era assim.
A pele ia imitando o céu como podia.
Pequena, solitária, era uma pele metida
consigo mesma e que servia
de poço, onde além de água ele procurara proteção.


[Luís Miguel Nava]

^^

Domingo no Mundo

Redd4444 Redd4444
"Nós vivemos na cidade quase sempre perdidos
nas nossas pequenas razões. Estas ruas
ainda prometem mais do que podem cumprir?
A breve epifania do amor ou simplesmente
um cúmplice que nos diga, à mesa de um café,
que não faz mal, que pouco importam
as perdas e danos que sofremos.

De qualquer modo o mundo continua.

Entre o medo e a esperança
procuramos a nossa incerta morada
e enquanto isso envelhecemos mais um dia,
colhidos pelo tempo em plena queda. Nas praças,
nos quintais, a noite aparece depois do jantar
cheia de boas promessas, mas já vem condenada
ao tropel dos crentes, ao cego movimento da manhã."

[Rui Pires Cabral]


^^

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Que a palavra seja o Erro

Photobucket


"Que a palavra te redima do erro. Que a palavra seja o erro.
Deslizas sobre a terra. Deslizas sobre as águas.
Tudo é veloz e extremo. Pó em torno da tua dor. Pó em torno do teu choro.
O que te atinge em pleno voo. A cegueira que te atinge em pleno voo.
Ergues-te para a mais secreta alegria de abandonares o teu corpo.
Que a palavra te redima do erro. Que a palavra seja o erro.
A tua história, onde escreveste o indefinível do teu nome. Eras criança.
Estendias as tuas asas. E as tuas asas
faziam a imensa sombra sob a qual se abrigava
o que era reconhecível e amável.
Deslizas sobre a terra. Deslizas sobre as águas.
Tens o talento antigo de estenderes as tuas asas. Agora quebradas,
para sempre quebradas. Já sem a amplitude do início,
é no ocaso que escondes a tua vergonha.
Por tua vontade, desejo e mágoa
exumas a palavra do passado, a inocência que o não era.
Que a palavra te redima do erro. Que a palavra seja o erro."


[Luís Quintais]

^^

[...]


... ________«Ler-te
Mansamente. Amar-te mansamente. Inverter-te a química
Da intensidade e nela repousar o pensamento...
..., lamber-te o fulgor em que
Me abismo __________________________________.»


[Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso]


^^

domingo, 14 de junho de 2009

O Profundo Silêncio das Flores


"O profundo silêncio das flores
é um lugar de ausência. Vazia moldura
para o vôo das aves, linha oscilante
de ligeira névoa
que nada revela do que talvez esconda."

[Égito Gonçalves]


^^

Matéria da Poesia

4

3

Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para poesia

O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia

Terreno 10x20, sujo de mato – os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia

Um chevrolé gosmento
Coleção de besouros abstémios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia

As coisas que não levam a nada
têm grande importância

Cada coisa ordinária é um elemento de estima

Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral

O que se encontra em ninho de joão-ferreira:
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia

As coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia

As coisas que os líquenes comem
- sapatos, adjectivos –
têm muita importância para os pulmões
da poesia

Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia

Os loucos de água e estandarte
servem demais
O traste é ótimo
O pobre-diabo é colosso

Tudo o que explique
o alicate cremoso
e o lodo das estrelas
serve demais da conta

Pessoas desimportantes
dão pra poesia
qualquer pessoa ou escada

Tudo o que explique
a lagartixa da esteira
e a laminação dos sabiás
é muito importante para a poesia

O que é bom para o lixo é bom para a poesia

Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
sabe a destroços

as coisas jogadas fora
têm grande importância
- como um homem jogado fora

Aliás é também objeto de poesia
saber qual o período médio
que um homem jogado fora
pode permanecer na terra
sem nascerem em sua boca as raízes da escória

As coisas sem importância são bens de poesia

Pois é assim que um chevrolé gosmento chega ao poema,
e as andorinhas de junho.

[Manoel de Barros]

^^

Flor em Livro Dormida

Fechado, espalmado num missal é que eu me vejo,
como peça de herbário dum comércio amoroso
que há um século se travou entre Dom Brotoejo
e Dona Amélia Joana Cisneiros Monterroso.

Antepassados meus? Qual quê! Antepassados nossos,
que ao santo sacrifício levavam floretas,
trocavam os missais (Deus meu!,hoje são ossos...)
olhos nos olhos(...ossos nos ossos das comuns valetas?)

Mais que a letra ,é o espírito que no livro procuro,
mesmo que seja só o levante da carne
duns pobres queridos que transformavam tudo
-missa, missal, flor-em mensagem e secreto alarde!

Consumidores de livros, se quiserdes salvar
vossas almas-lombadas de bárbaros prosaicos,
tereis que, furtivos, procurar, folhear
uns quantos alfarrábios e, neles, encontrar
o herbário-mensagem dos amantes heróicos!


[Alexandre O'Neill]

^^

Matemática


"Lewis Carroll era um matemático que não tinha os algarismos todos. Do zero ao dez faltavam-lhe talvez quatro. Para preencher o espaço dos algarismos ausentes Lewis usava histórias (como os canalizadores usam uma substância gelatinosa para preencher buracos nos canos ou nas paredes).
Claro que uma história pode ou não ter pescoço. Se não o tiver, entre a cabeça e os pés é um segundo. Daí que existam história rápidas e histórias lentas. O que não há é números rápidos e números lentos.
Na matemática, portanto, a velocidade é constante, o que facilita os cálculos e a monotonia."

[Gonçalo M. Tavares]

^^

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Do que pode ser perfeito


Não não é isso
nada que eu tenho feito
nada
que eu tenho feito

é feito de
nada
e o ditongo

eu

seguido da
primeira pessoa
do singular
do indicativo

do verbo
auxiliar
ter

tudo
que eu tenho feito
dá no mesmo

se fazer
é capaz
de uma
infinidade de
combinações
envolvendo os
códigos

morais
físicos
e religiosos

pois tudo
e nada
são sinônimos
quando

a energia in vacuo
tem o poder
de confusão

que só
nada ter feito
pode fazer
perfeito.


[William Carlos Williams]

^^

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Katia Chausheva

"Os dias cinzentos. Eles vêm, eles insinuam-se com o tempo. Deixas de vislumbrar os matizes que desaparecem como ténues, cintilantes flocos na memória. Ficar sentado e pensar de repente. Que está mais cinzento, que queres libertar-te, mas continuas sentado, em completo silêncio, imaginas-te dentro do cinzento porque há nele uma leveza, porque ele é algo de fortuito que se ajusta bem aos dias, e quando queres sair dele, estás deitado indefeso no meio do caminho, como um animalzinho, destrutível, mesmo com o mais ligeiro toque."

[Aasne Linnesta]

^^

terça-feira, 9 de junho de 2009

O que é o espaço?

Photobucket

"O que é o espaço
senão o intervalo
por onde
o pensamento desliza
imaginando imagens?

O biombo ritual da invenção
oculta o espaço intermédio
o interstício
onde a percepção se refracta

Pelas imagens
entramos em diálogo
com o indizível."


[Ana Hatherly]

^^

[...]

Photobucket

I
Somos duros um com o outro
e chamamos-lhe honestidade
escolhendo as nossas verdades dentadas
com cuidado e apontando-as através
da mesa neutra

As coisas que dizemos são
verdadeiras: é o nosso alvo
retorcido, são as nossas escolhas
que as tornam criminosas.

II
Claro as tuas mentiras
são mais divertidas:
porque as fazes novas de cada vez

As tuas verdades, dolorosas e chatas
repetem-se continuamente
se calhar porque és dono
de tão poucas

III
Uma verdade deveria existir
não deveria ser usada
assim. Se eu te amo

é isso um facto ou uma arma?

O corpo mente
ao mover-se assim, são estes
toques, cabelos, o mármore
macio e húmido que a minha língua percorre
mentiras que me estás a dizer?

O teu corpo não é uma palavra,
nem mente
nem fala a verdade

Apenas
está aqui ou não está.


[Margaret Atwood]

^^
Books

"As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras."

[Jorge Sousa Braga]

^^

segunda-feira, 8 de junho de 2009

[...]

Ilusion of an Zealous Heart

"A solidão
despe
mais fundo
que o amor.

______________________________O amor
______________________________inventa
______________________________sempre
______________________________novas
______________________________vestes

novos disfarces
novas fantasias
O corpo

é mais nu."



[Teresa Rita Lopes, A fímbria da fala]

^^

Rumor de água

RecadosAnimados.com

"Rumor de água
na ribeira ou no tanque?
O tanque foi na infância
minha pureza refractada.
A ribeira secou no verão
Rumor de água
no tempo e no coração.
Rumor de nada."

[Carlos de Oliveira]

^^

Uma Arte

Photobucket

"A arte de perder não é difícil de se dominar;
tantas coisas parecem cheias da intenção
de se perderem que a sua perda não é uma calamidade.

Perder qualquer coisa todos os dias. Aceitar a agitação
de chaves perdidas, a hora mal passada.
A arte de perder não é difícil de se dominar.

Então procura perder mais, perder mais depressa:
lugares e nomes e para onde se tencionava viajar.
Nenhuma destas coisas trará uma calamidade

Perdi o relógio da minha mãe. E olha! a última, ou
a penúltima, de três casas amadas desapareceu.
A arte de perder não é difícil de se dominar.

Perdi duas cidades encantadoras: E, mais vastos ainda,
reinos que possuía, dois rios, um continente.
Sinto a falta deles, mas não foi uma calamidade.

- Mesmo o perder-te (a voz trocista, um gesto
que amo) não foi diferente disso. É evidente
que a arte de perder não é muito difícil de se dominar
mesmo que nos pareça (toma nota!) uma calamidade."

[Elizabeth Bishop]

^^

Esta Casa

Photobucket

"Gosto dela assim: ainda vibrante dos passos
que a deixaram a sós comigo
desobrigada
de abrigar seus moradores
Comigo é
diferente:
não me limito a usá-la
a habitá-la:
namoro com ela
Comigo
abandona-se a seus mais íntimos rumores
e cheiros
e aliviada do dever de ser útil
em silêncio
canta."


[Teresa Rita Lopes]

^^