Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

Redes Sociais

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domingo, 21 de junho de 2009


"Folha que desceste à minha alma,
não regresses para
de onde vieste sem outra folha."
.
.
[Maria Gabriela Llansol, Finita]
^^

- Zapping -

Uma mulher que espera.
Um homem que contempla a sua mortalidade.
As estagnadas vendas no imobiliário.
A nuvem atómica sobre recifes de corais.
O imprevidente regresso à casa da tortura.
Amazonas insaciáveis raptam guerreiros feitos escravos.
O metal como delírio erótico.
A aniquiliaçao do mundo num enorme desastre automóvel.
6 de Junho a partir das 19 Jazzanova e outros que tais.
O índice Dow Jones como fetiche.
O sangue insurrecto ou inocente mancha o asfalto.
O vibrafone mais cool do século.
A estranha vida do senhor Musaranho.
O cântico das baleias em águas tropicais.
A torre de aço e vidro que arde por dentro e desaba.
O negro-vinil do corvo.
Sete palmos de terra.



A TV radical não será vista por ninguém de bom nome.


[Luís Quintais]


^^

sábado, 20 de junho de 2009

Photobucket

(...)"a rapariga que escreve vê o homem que fala
fecha os olhos e brinca com as manchas de luz
traça histórias de papel indiferentes ao tempo
ritualiza gestos em palavras e responde com
perguntas onde os pássaros se encostam

nos olhos fica o silêncio do outro corpo

afinal bastava rasgar os dias dos rostos
e usar a voz como um percurso

as palavras estão sempre entre
o som e a noite."

[eue]


^^

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Explicação da Ausência

(...) o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o avir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer – fosse abertura –
E a saudade é tudo ser igual.

[Daniel Faria]




Não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes. (In)felizmente é recorrente. Em mim. Não imagino um Inverno sem uma voz murmurada e familiar. Não imagino alegria maior do que uma cumplicidade secreta partilhada. Depois, resta esperar que a paz nos sorria as boas-noites num céu estrelado (que nem sempre se vê). Talvez seja difícil de entender: as frases de luz não são para todos. O silêncio interrompido naquela voz antiga de fazer crescer os sonhos: cheiros e cores de uma vida ao sol – roubar ao mundo um pedaço de vida. Deixar a alma respirar, intacta, por entre destroços de tempestades e certezas. Não é para todos – suster o tempo. É por isso que não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes. Fingir que está tudo bem. Livros espalhados pelo chão do quarto – Daniel Faria? – e ideias simples a rondarem o tecto da imaginação. Com que sonhas? Confusão. O que sentes agora? Confusão. Falta-me um tempo tranquilo. Porque há certezas que substituem outras certezas. Os dias de chuva e as saudades escondidas por detrás de uma armadura pesada – o meu peito – vieram para ficar. Mas isso não se diz a ninguém. Sente-se. E as folhas de um dourado tão triste acompanham a melancolia do vento. Há lugares, dentro de nós, perdidos para sempre. Resgatam-se, assim de repente, em acordes furiosos que reclamam algum gesto irreflectido. Não se compreende. Aqui pensa-se tudo. Os corpos enganam muito e escurece cada vez mais cedo. As mãos ficam abandonadas à procura de braços abertos que as recebam. Novo silêncio. O tempo, curador de feridas, entretém-se no relógio e agora já não apetece dormir. Passamos pelos minutos – lentamente – invisíveis, alheados e estranhos. Será que há quem nos traduza? Não são precisas palavras. E o inesperado acontece: matamos coisas na vida. Assim, numa linguagem própria de quem tem medo de insistir, de magoar, ou de arder. Matamos ou morremos. Pior: sobrevivemos. Longe de tudo. E não há grito nenhum que nos salve. Ninguém nota o fio de voz – quase silêncio – que nos vai costurando o tempo. Essa certa maneira de procurar trazer à tona algumas palavras que se escondem no olhar. A dor insuportável de não mais saber agarrar a doçura de um abraço dado há tanto tempo. Não é para todos – suster o tempo. É por isso que não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes. Eu conheço um desses lugares. Acredito que essa voz também conhece(u) um lugar assim. Falta-me um sítio onde pousar a cabeça. Sobra-me a almofada. E resta esperar que a vida esqueça certos lugares que não morrem. As frases de luz não são para todos. Muito menos o rasto mágico de alguns momentos feitos, mais tarde, de ausências.

Porque em seu peito nunca tive aberta
A veia exacta para lhe ser sangue.

[Daniel Faria]
^^

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Enquanto isso, em Portugal...

Sweetcharade

"Os meus contemporâneos falam muito
e dizem: «Então é assim»,
com o ar desenvolto de quem se alimenta
do som da própria voz, quando começam
a explicar longamente as actuais tendências
das artes ou das letras ou das sociedades
a pouco e pouco iguais umas às outras
neste primeiro mundo em que nascemos,
agora que o segundo deixou de existir
e que o terceiro, mais guerra, menos fome,
continua abstracto, em folclore distante.


Parece que está morta a metafísica
e que a verdade adormeceu, sonâmbula,
nos corredores vazios onde, às escuras,
se vão cruzando alguns milhões de frases
dos meus contemporâneos. Todavia,
falam de tudo com o entusiasmo
de quem lança «propostas» decisivas
e percorre as «vertentes» de novos caminhos
para a humanidade, enquanto saboreiam
a cerveja sem álcool, o café
sem cafeína e sobretudo
o amor sem amor, pra conservarem
o equilíbrio físico e mental.


Os meus contemporâneos dizem quase sempre
que não são moralistas, e é por isso
que forçam toda a gente, mesmo quem não quer,
a ser livre, saudável e feliz:
proíbem o tabaco e o açúcar
e se por vezes sofrem, tomam comprimidos
porque a alegria é uma questão de química
e convém tê-la a horas certas, como
o prazer vigiado por preservativos
e outros sempre obrigatórios cintos
de segurança, pra que um dia possam
sentir que morrem cheios de saúde.


Quando contemplo os meus contemporâneos
entre as conversas trendy e os lugares da moda,
«tropeço de ternura», queria ser
pelo menos tão ingénuo como eles,
partilhar cada frémito dos lábios,
a labareda vã das gargalhadas
pela madrugada fora. No entanto,
assedia-me a acédia de ficar
assim, mais preguiçoso do que um Oblomov
à escala portuguesa - ó doce anestesia
a invadir-me o corpo, a libertar-me
desse feitiço a que se chama o «espírito
do tempo
» em que vivemos, sob escombros
de um céu desmoronado em mil pequenos cacos
ainda luminosos, virtuais
estrelas que se apagam e acendem
à flor de todos os écrans
que os meus contemporâneos ligam e desligam
cada dia que passa, nunca se esquecendo
de carregar nas teclas necessárias
para a operação save
e assim alcançarem a eternidade.


[Fernando Pinto do Amaral]

^^

Desabafo


O bom de falarmos com estrangeiros é a economia nas palavras. Gosto disso. E toda a gente nos percebe - parece magia. Treinamos um inglês quase sempre enferrujado e até falamos por gestos. Aprendemos tradições e hábitos novos. Porque o desenrasque é uma coisa linda.
Nada mais triste (e frequente também) do que sermos estrangeiros na nossa própria língua: esgotar todos os argumentos para depois escutar só o silêncio do outro lado.
Das duas uma: ou eles (os estrangeiros) são muito simpáticos comigo ou eu estou mesmo a morrer de vontade de sair daqui. Preciso urgentemente de um cenário diferente. Quero fazer um piquenique perto de um castelo qualquer na Escócia, por exemplo.
Já ficava às portas da alegria por isso... ai,ai....
É por estas e por outras que o desabafo nunca foi o meu forte.


^^

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Entendes o que digo?

Photobucket

"Os meus dedos seguem_te. Nas tuas palavras.
Vibro contigo. Quando te_encantas e quando me_encantas.
Perco a razão quando me_foges. Quando te_esquivas.
E continuas ali, dentro. De mim.

Semeio as tuas palavras na minha boca. digo_as em voz alta. Para te_ouvir.
E resvalo pelo tempo. Procurando_te. E achando_te dentro. De mim.

E não serei igual a ninguém.
Porque eu sou_te."

^^

terça-feira, 16 de junho de 2009

Retrato





A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.
Há quem, tendo-a metida
num cofre até às mais fundas raízes,
simule não ter pele, quando
de facto ela não está
senão um pouco atrasada em relação ao coração.
Com ele porém não era assim.
A pele ia imitando o céu como podia.
Pequena, solitária, era uma pele metida
consigo mesma e que servia
de poço, onde além de água ele procurara proteção.


[Luís Miguel Nava]

^^

Domingo no Mundo

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"Nós vivemos na cidade quase sempre perdidos
nas nossas pequenas razões. Estas ruas
ainda prometem mais do que podem cumprir?
A breve epifania do amor ou simplesmente
um cúmplice que nos diga, à mesa de um café,
que não faz mal, que pouco importam
as perdas e danos que sofremos.

De qualquer modo o mundo continua.

Entre o medo e a esperança
procuramos a nossa incerta morada
e enquanto isso envelhecemos mais um dia,
colhidos pelo tempo em plena queda. Nas praças,
nos quintais, a noite aparece depois do jantar
cheia de boas promessas, mas já vem condenada
ao tropel dos crentes, ao cego movimento da manhã."

[Rui Pires Cabral]


^^

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Que a palavra seja o Erro

Photobucket


"Que a palavra te redima do erro. Que a palavra seja o erro.
Deslizas sobre a terra. Deslizas sobre as águas.
Tudo é veloz e extremo. Pó em torno da tua dor. Pó em torno do teu choro.
O que te atinge em pleno voo. A cegueira que te atinge em pleno voo.
Ergues-te para a mais secreta alegria de abandonares o teu corpo.
Que a palavra te redima do erro. Que a palavra seja o erro.
A tua história, onde escreveste o indefinível do teu nome. Eras criança.
Estendias as tuas asas. E as tuas asas
faziam a imensa sombra sob a qual se abrigava
o que era reconhecível e amável.
Deslizas sobre a terra. Deslizas sobre as águas.
Tens o talento antigo de estenderes as tuas asas. Agora quebradas,
para sempre quebradas. Já sem a amplitude do início,
é no ocaso que escondes a tua vergonha.
Por tua vontade, desejo e mágoa
exumas a palavra do passado, a inocência que o não era.
Que a palavra te redima do erro. Que a palavra seja o erro."


[Luís Quintais]

^^

[...]


... ________«Ler-te
Mansamente. Amar-te mansamente. Inverter-te a química
Da intensidade e nela repousar o pensamento...
..., lamber-te o fulgor em que
Me abismo __________________________________.»


[Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso]


^^

domingo, 14 de junho de 2009

O Profundo Silêncio das Flores


"O profundo silêncio das flores
é um lugar de ausência. Vazia moldura
para o vôo das aves, linha oscilante
de ligeira névoa
que nada revela do que talvez esconda."

[Égito Gonçalves]


^^

Matéria da Poesia

4

3

Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para poesia

O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia

Terreno 10x20, sujo de mato – os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia

Um chevrolé gosmento
Coleção de besouros abstémios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia

As coisas que não levam a nada
têm grande importância

Cada coisa ordinária é um elemento de estima

Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral

O que se encontra em ninho de joão-ferreira:
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia

As coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia

As coisas que os líquenes comem
- sapatos, adjectivos –
têm muita importância para os pulmões
da poesia

Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia

Os loucos de água e estandarte
servem demais
O traste é ótimo
O pobre-diabo é colosso

Tudo o que explique
o alicate cremoso
e o lodo das estrelas
serve demais da conta

Pessoas desimportantes
dão pra poesia
qualquer pessoa ou escada

Tudo o que explique
a lagartixa da esteira
e a laminação dos sabiás
é muito importante para a poesia

O que é bom para o lixo é bom para a poesia

Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
sabe a destroços

as coisas jogadas fora
têm grande importância
- como um homem jogado fora

Aliás é também objeto de poesia
saber qual o período médio
que um homem jogado fora
pode permanecer na terra
sem nascerem em sua boca as raízes da escória

As coisas sem importância são bens de poesia

Pois é assim que um chevrolé gosmento chega ao poema,
e as andorinhas de junho.

[Manoel de Barros]

^^

Flor em Livro Dormida

Fechado, espalmado num missal é que eu me vejo,
como peça de herbário dum comércio amoroso
que há um século se travou entre Dom Brotoejo
e Dona Amélia Joana Cisneiros Monterroso.

Antepassados meus? Qual quê! Antepassados nossos,
que ao santo sacrifício levavam floretas,
trocavam os missais (Deus meu!,hoje são ossos...)
olhos nos olhos(...ossos nos ossos das comuns valetas?)

Mais que a letra ,é o espírito que no livro procuro,
mesmo que seja só o levante da carne
duns pobres queridos que transformavam tudo
-missa, missal, flor-em mensagem e secreto alarde!

Consumidores de livros, se quiserdes salvar
vossas almas-lombadas de bárbaros prosaicos,
tereis que, furtivos, procurar, folhear
uns quantos alfarrábios e, neles, encontrar
o herbário-mensagem dos amantes heróicos!


[Alexandre O'Neill]

^^

Matemática


"Lewis Carroll era um matemático que não tinha os algarismos todos. Do zero ao dez faltavam-lhe talvez quatro. Para preencher o espaço dos algarismos ausentes Lewis usava histórias (como os canalizadores usam uma substância gelatinosa para preencher buracos nos canos ou nas paredes).
Claro que uma história pode ou não ter pescoço. Se não o tiver, entre a cabeça e os pés é um segundo. Daí que existam história rápidas e histórias lentas. O que não há é números rápidos e números lentos.
Na matemática, portanto, a velocidade é constante, o que facilita os cálculos e a monotonia."

[Gonçalo M. Tavares]

^^

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Do que pode ser perfeito


Não não é isso
nada que eu tenho feito
nada
que eu tenho feito

é feito de
nada
e o ditongo

eu

seguido da
primeira pessoa
do singular
do indicativo

do verbo
auxiliar
ter

tudo
que eu tenho feito
dá no mesmo

se fazer
é capaz
de uma
infinidade de
combinações
envolvendo os
códigos

morais
físicos
e religiosos

pois tudo
e nada
são sinônimos
quando

a energia in vacuo
tem o poder
de confusão

que só
nada ter feito
pode fazer
perfeito.


[William Carlos Williams]

^^

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Katia Chausheva

"Os dias cinzentos. Eles vêm, eles insinuam-se com o tempo. Deixas de vislumbrar os matizes que desaparecem como ténues, cintilantes flocos na memória. Ficar sentado e pensar de repente. Que está mais cinzento, que queres libertar-te, mas continuas sentado, em completo silêncio, imaginas-te dentro do cinzento porque há nele uma leveza, porque ele é algo de fortuito que se ajusta bem aos dias, e quando queres sair dele, estás deitado indefeso no meio do caminho, como um animalzinho, destrutível, mesmo com o mais ligeiro toque."

[Aasne Linnesta]

^^

terça-feira, 9 de junho de 2009

O que é o espaço?

Photobucket

"O que é o espaço
senão o intervalo
por onde
o pensamento desliza
imaginando imagens?

O biombo ritual da invenção
oculta o espaço intermédio
o interstício
onde a percepção se refracta

Pelas imagens
entramos em diálogo
com o indizível."


[Ana Hatherly]

^^

[...]

Photobucket

I
Somos duros um com o outro
e chamamos-lhe honestidade
escolhendo as nossas verdades dentadas
com cuidado e apontando-as através
da mesa neutra

As coisas que dizemos são
verdadeiras: é o nosso alvo
retorcido, são as nossas escolhas
que as tornam criminosas.

II
Claro as tuas mentiras
são mais divertidas:
porque as fazes novas de cada vez

As tuas verdades, dolorosas e chatas
repetem-se continuamente
se calhar porque és dono
de tão poucas

III
Uma verdade deveria existir
não deveria ser usada
assim. Se eu te amo

é isso um facto ou uma arma?

O corpo mente
ao mover-se assim, são estes
toques, cabelos, o mármore
macio e húmido que a minha língua percorre
mentiras que me estás a dizer?

O teu corpo não é uma palavra,
nem mente
nem fala a verdade

Apenas
está aqui ou não está.


[Margaret Atwood]

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Books

"As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras."

[Jorge Sousa Braga]

^^

segunda-feira, 8 de junho de 2009

[...]

Ilusion of an Zealous Heart

"A solidão
despe
mais fundo
que o amor.

______________________________O amor
______________________________inventa
______________________________sempre
______________________________novas
______________________________vestes

novos disfarces
novas fantasias
O corpo

é mais nu."



[Teresa Rita Lopes, A fímbria da fala]

^^

Rumor de água

RecadosAnimados.com

"Rumor de água
na ribeira ou no tanque?
O tanque foi na infância
minha pureza refractada.
A ribeira secou no verão
Rumor de água
no tempo e no coração.
Rumor de nada."

[Carlos de Oliveira]

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Uma Arte

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"A arte de perder não é difícil de se dominar;
tantas coisas parecem cheias da intenção
de se perderem que a sua perda não é uma calamidade.

Perder qualquer coisa todos os dias. Aceitar a agitação
de chaves perdidas, a hora mal passada.
A arte de perder não é difícil de se dominar.

Então procura perder mais, perder mais depressa:
lugares e nomes e para onde se tencionava viajar.
Nenhuma destas coisas trará uma calamidade

Perdi o relógio da minha mãe. E olha! a última, ou
a penúltima, de três casas amadas desapareceu.
A arte de perder não é difícil de se dominar.

Perdi duas cidades encantadoras: E, mais vastos ainda,
reinos que possuía, dois rios, um continente.
Sinto a falta deles, mas não foi uma calamidade.

- Mesmo o perder-te (a voz trocista, um gesto
que amo) não foi diferente disso. É evidente
que a arte de perder não é muito difícil de se dominar
mesmo que nos pareça (toma nota!) uma calamidade."

[Elizabeth Bishop]

^^

Esta Casa

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"Gosto dela assim: ainda vibrante dos passos
que a deixaram a sós comigo
desobrigada
de abrigar seus moradores
Comigo é
diferente:
não me limito a usá-la
a habitá-la:
namoro com ela
Comigo
abandona-se a seus mais íntimos rumores
e cheiros
e aliviada do dever de ser útil
em silêncio
canta."


[Teresa Rita Lopes]

^^

domingo, 7 de junho de 2009

Deus

RecadosAnimados.com

^^

Alívio Imediato

Sarah Wilmer

"O melhor esconderijo, a maior escuridão
Já não servem de abrigo, já não dão proteção
A Líbia é bombardeada, a libido e o ví­rus
O poder, o pudor, os lábios e o batom

Há espaço pra todos, há um imenso vazio
Nesse espelho quebrado por alguém que partiu
A noite cai de alturas impossí­veis
E quebra o silencio e parte o coração

Há um muro de concreto entre nossos lábios
Há um muro de Berlim dentro de mim
Tudo se divide, todos se separam
Duas Alemanhas, duas Coreias
Tudo se divide, todos se separam

Não ha nada de concreto entre nossos labios
Só um muro de batom e frases sem fim
holofotes nos meus olhos cegam mais do que iluminam
nem caiu a ficha e já acabou a ligaçao

Que a chuva caia
Como uma luva
Um diluvio
Um delírio
Que a chuva traga
Alivio imediato

Que a noite caia
De repente caia
Tão demente
Quanto um raio
Que a noite traga
Ali­vio imediato"

[Composição: Humberto Gessinger]


^^

sábado, 6 de junho de 2009

Não tem Volta

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"Se você vai por muito tempo
Você nunca volta
Você retorna, você contorna
Mas não tem volta
A estrada te sopra pro alto
Pra outro lado
Enquanto aquele tempo vai mudando
Aí, de quando em quando você lembra

Aquele beijo
Aquele medo
Mas você sabe que tudo ficou antigo
E você não volta
Nem com escolta
Nem amarrado, porque o passado já te perdeu

E o perigo muda mesmo de endereço.
Não existe pretexto, o dia mudou
O carteiro não veio
O princípio é o meio
E você retorna, mas não tem volta."

[Composição: Christian Oyens / Zélia Duncan]


^^

(...)

Graça
"De muitas formas se diz a minha luz
De muitos modos me visita o meu anjo
Vem devagarinho...
... molda-me com
esperas...
... enfeita de estrelas os espelhos onde
me deito
...
por fim, numa pausa de murmúrios, numa paleta de cheiros bem fortes
deixa o meu corpo feliz"(...)


[Victor Oliveira Mateus, A noite e a voz]

^^

Quer me enxergar?

Graça Photobucket

O pouco já não me contenta. Dispenso pedaços. Sou inteira. E quero caminhos inteiros também. Nada de me deixar em partes pelo caminho. Nada de tentar te levar comigo. Eu me insisto. Persisto. Prossigo. Sigo - meus pés, passos, traços e coração. Não ache você, que sou - quem quer que eu seja - pra quando você quiser. O tempo é meu, apesar de nosso. Minha vida não tem ponteiros, nem medidas. Eu voo e vou, até chegar, até mudar. Desenho no pensamento minha imensidão. Não me largo. Mesmo que ás vezes doa, me agarro com minhas unhas pintadas e não me deixo - mesmo quando deixo o vento me levar. Leve eu voo e vou, até chegar, até mudar de humor quando eu achar que você não está certo ou eu estou errada. Depois volto a sorrir. Porque na verdade a gente vive brincando de levar tudo a sério. E nada é para sempre. Nem a gente. Não sou pra sempre, mas sou inteira. Pra quando eu me acabar, 'poder dizer' que eu fui tudo que poderia ser. Faces que ultrapassam a visão e o sentido. Na luz, um espelho. Quer me enxergar? Seja. Se você não for, eu voo - partindo dos seus olhos e os deixando com migalhas. Retribuindo pequenos gestos. No escuro, a intuição. Você arrisca e eu vou com os braços e coração abertos, ao encontro da vida ilimitada que habita meus sonhos. Afinal, nossos mundos são grandes demais para sermos pequenos!
^^

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Boa Noite!

RecadosAnimados.com


XXXI - Se às Vezes Digo que as Flores Sorriem

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"Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma."


[Fernando Pessoa]


^^

quinta-feira, 4 de junho de 2009

[...]

Honey

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"Entre gestos e baloiços entram-me
pelas palavras dentro as horas onde a infância
dorme na sombra do horizonte

algures, perdida entre uma sílaba
antecipada pelo som do riso
perco-me dos dias

a verdade? A verdade é um livro com imagens feitas de restos
e o tamanho das palavras, letra a letra
é o tamanho de quando o silencio era feito de gargalhadas

mas as letras não têm sabor
e com frio nos dedos, folheio as paginas
onde palavra a palavra a infância se perde
quando me devolvo ao dia, as gargalhadas apagam-se
ficando os baloiços cobertos pela transparência das lágrimas."

[eue]

^^

Danças com minh'alma?

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"Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas terras do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração."


[Fernando Pinto do Amaral]

^^

Inquietude

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... "Sou o corpo __________________________ o incêndio
só o fogo
______________________________________ me acalma"


[Maria Teresa Horta, Inquietude - Poesia Reunida]

Homens que são como lugares mal situados


"Homens que são como projectos de casas
Em suas varandas inclinadas para o mundo
Homens nas suas varandas voltadas para a velhice
Muito danificados pelas intempéries
Homens cheios de vasilhas esperando a chuva
Parados à espera
De um companheiro possível para o diálogo interior

Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens tão impreparados tão desprevenidos
Para se receber

Homens à chuva com as mãos nos olhos
Imaginado relâmpagos
Homens abrindo lume
Para enxugar o rosto para fechar os olhos
Tão impreparados tão desprevenidos
Tão confusos à espera de um sistema solar
Onde seja possível uma sombra maior."

"Um coração de sangue
Um coração de xisto e aço
Um coração angular e redondo
Como a pedra que te abre
Do interior do chão

Um coração solar
De granito
De carne
Curado da noite de nascença

Um coração de homem
Um coração de homem vivo
Um coração de criança ao colo
Interior
– Mais interior do que o sangue no coração que me darás –

Peço um coração
Nuclear."


Daniel Faria [Poesia]

^^


quarta-feira, 3 de junho de 2009

A casa do Mundo

2
"Aquilo que às vezes parece:
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.

Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.

Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirinéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.

Luzindo cheguei à porta.
interrompo os objetos de família, atiro-lhes
a porta
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente me lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.

Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins, nos tecidos sangúíneos.
É a casa do mundo:
desaparece em seguida."

[Luiza Neto Jorge]

Os Girassóis

Alina Manolache
"Às vezes ouves-me chorar
não é fácil deixar a tua mão
De quarto em quarto
quem espera
o terror de não haver ninguém
As paisagens alteram-se sem resolução
narrativas imortais desaparecem
e os girassóis assim
vulneráveis a desconhecidas ordens


Tu estás tão perto
mas sofro tanto
porque não vejo
como possa falar de ti
entre dois ou três séculos."

[José Tolentino Mendonça]


^^

Versos Soltos...

I guess I'm floating
"A noite acendeu as estrelas porque tinha medo
da própria escuridão."

"... O luar é a luz do sol que está sonhando..."

"A maior dor do vento é não ser colorido."
"Às vezes tudo se ilumina de uma intensa irrealidade
E é como se agora este pobre, este único,
este efêmero instante do mundo
Estivesse pintado numa tela,
Sempre..."

[Mário Quintana]

^^

Quando os pássaros são imagens
inquietas do frio, e as sombras
movimentos onde as despedidas
se repetem.
.
Desperto de diálogos que desfazem o sono
sei que para além da noite
há um inverno a dançar
nos meus medos.

[eue]

^^

Não sei


Não sei se era aqui que era suposto chegar, se era este o lugar, se era este o tempo. Cheguei à esquina onde a vida dobra, à foz dos atalhos onde os caminhos novos se fazem e sei que tenho pouco tempo para dar o primeiro passo, o derradeiro, aquele que fará com que tudo o que fica para trás faça sentido, mesmo que sejam só atalhos menores. Não tenho tempo para pensar e o precipício que se adivinha em cada passo errado faz-me engolir em seco, faz-me fechar os punhos com muita força, faz-me inspirar lentamente para conseguir manter convicções.

[Felisbela Fonseca]
^^