Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

Redes Sociais

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quinta-feira, 23 de abril de 2009

E quanto a mim

"Escutei alguém abrir os portões
Encontrei no coração multidões.
Meu desejo e meu destino brigaram como irmãos
E a manhã semeará outros grãos.
Você estava longe, então
Por que voltou?
Seus olhos de verão
Que [não] vão entender?!
E quanto a mim, te quero, sim
Vem dizer que você não sabe?
E quanto a mim, não é o fim
Nem há razão pra que um dia acabe...
Cada um terá razões ou arpões
Dediquei-me às suas contradições, fissões, confusões...
Meu desejo, seu bom senso, raivosos feito cães
E a manhã nos proverá outros pães.
Somos dois contra a parede e tudo tem três lados
E a noite arremessará outros dados...

E quanto a mim, te quero, sim
Vem dizer que você não sabe?
E quanto a mim, não é o fim
Nem há razão pra que um dia acabe.
Você estava longe, então
Por que voltou?"
.
Seus olhos de verão
Já me entenderam...


^^

quarta-feira, 22 de abril de 2009

[...]

"Para os lugares que me faltam no interior do sono
tenho metáforas
ao falar do sabor que o vento deixa nos lábios
quando a voz tropeça nas sílabas
eu serei sempre a que abre as palavras na garganta."
[Maria sousa]

^^

Everybody's Fool

...
...
...
"Perfeita por natureza
Ícones de indulgência própria
Exatamente o que todos nós gostaríamos de ser...
Veja, aí vem ela agora
Curvando-se e com os olhos pensativos
[Oh! Como nós a amamos]
Sem defeitos quando você está fingindo...
Nunca foi e nunca será.
Você não tem vergonha,
você não me nota aqui na sua frente?
Você sabe que faz todo o mundo de tolo.
Sem a máscara
Onde é que você vai se esconder?
Não consegue encontrar a si mesma,
Perdida em suas próprias mentiras
Nunca foi e nunca será.
Você não sabe o quanto nos traiu
Você sabe que fez todo mundo de idiota.
O dinamismo dos modelos sociais pode se unir
nas grandes manifestações populares e assim esses modelos tornam-se apenas registros
e tudo é reduzido à idéia do Uno."
.
.


[Composição: Amy Lee / Ben Moody / David Hodges]
^^

segunda-feira, 20 de abril de 2009

A Vida Bate


"Não se trata do poema e sim do homem
e sua vida
- a mentida, a ferida, a consentida
vida já ganha e já perdida e ganha
outra vez.
Não se trata do poema e sim da fome
de vida,
o sôfrego pulsar entre constelações
e embrulhos, entre engulhos.
Alguns viajam, vão
a Nova York, a Santiago
do Chile. Outros ficam
mesmo na Rua da Alfândega, detrás
de balcões e de guichês.
.
Todos te buscam, facho
de vida, escuro e claro,
que é mais que a água na grama
que o banho no mar, que o beijo
na boca, mais
que a paixão na cama.
Todos te buscam e só alguns te acham. Alguns
te acham e te perdem.
Outros te acham e não te reconhecem
e há os que se perdem por te achar,
ó desatino
ó verdade, ó fome
de vida!
.
O amor é difícil
mas pode luzir em qualquer ponto da cidade.
E estamos na cidade
sob as nuvens e entre as águas azuis.
A cidade. Vista do alto
ela é fabril e imaginária, se entrega inteira
como se estivesse pronta.
Vista do alto,
com seus bairros e ruas e avenidas, a cidade
é o refúgio do homem, pertence a todos e a ninguém.
Mas vista
de perto,
revela o seu túrbido presente, sua
carnadura de pânico: as
pessoas que vão e vêm
que entram e saem, que passam
sem rir, sem falar, entre apitos e gases. Ah, o escuro
sangue urbano
movido a juros.
São pessoas que passam sem falar
e estão cheias de vozes
e ruínas . És Antônio?
És Francisco? És Mariana?
Onde escondeste o verde
clarão dos dias? Onde
escondeste a vida
que em teu olhar se apaga mal se acende?
E passamos
carregados de flores sufocadas.
Mas, dentro, no coração,
eu sei,
a vida bate. Subterraneamente,
a vida bate.
.
Em Caracas, no Harlem, em Nova Delhi,
sob as penas da lei,
em teu pulso,
a vida bate.
E é essa clandestina esperança
misturada ao sal do mar
que me sustenta
esta tarde
debruçado à janela de meu quarto em Ipanema
na América Latina."
.
[Ferreira Gullar]
^^

domingo, 19 de abril de 2009

[Humanos]


"Acabara por fazer concessões: «Tem um certo quê…» Seria a boca? Não. A boca era grande e de desenho comum. O nariz? Também não. Era comprido e delgado. Eram, então, os olhos. Pretos e serenos, não se distinguiam pela vivacidade, pela mobilidade ou por algum brilho raro. Eram os olhos para os quais ao cabo de algumas reflexões Eugénio só achou um qualificativo: humanos. Envolviam mornamente a pessoa ou objecto em que se fixavam, davam uma ideia de profundidade insondável e principalmente de compreensão. Pareciam enxergar além das coisas com uma penetração que nada tinha de indiscreto ou agressivo."

[In Olhai os Lírios do Campo - Erico Veríssimo]

^^

The Look Of Love


"O olhar do amor está nos seus olhos
O olhar que seu sorriso não consegue disfarçar
O olhar do amor está dizendo muito mais coisas
Que qualquer palavra poderia dizer
E o que o meu coração ouviu
Bem, tira o meu fôlego
.
Mal posso esperar pra te abraçar
Sentir meus braços ao seu redor
Quanto tempo esperei
Esperei só pra te amar
Agora que te encontrei
.
Você tem o olhar do amor
Está na sua cara
Um olhar que o tempo não pode apagar
Seja meu essa noite
Deixe isso ser apenas o começo
De muitas noites como essa
Vamos fazer um juramento de amantes
E então selar com um beijo
I can hardly wait to hold you."
.
[Diana Krall]
.
^^

Desenvolvimento Humano - ao pé da letra

Nascer Respirar Chorar Sugar Dormir Comer Defecar Urinar Sorrir Palrar Rir Gatinhar Berrar Brincar Andar Bater Correr Olhar Perguntar Falar Dançar Cantar Gritar Ler Escrever Mentir Fugir Enganar Namorar Acreditar Beijar Sofrer Sonhar Desesperar Tocar Revoltar Expressar Pintar Sentir Apaixonar Odiar Amar Tocar Arrepiar Beber Ver Apalpar Gozar Conduzir Casar Partir Juntar Trabalhar Viajar Resmungar Preocupar Ralhar Saborear Passear Apreciar Ouvir Contar Recordar Suspirar Descansar Doer Perder Contemplar Morrer Desaparecer.

Eu sei, eu quis...

"Eu fui matando os meus heróis aos poucos
Como se já não tivesse
Nenhuma lição pra aprender
Eu sou uma contradição e foge da minha mão
Fazer com que tudo que eu digo faça algum sentido...
Eu quis me perder por aí fingindo muito bem
Que eu nunca precisei de um lugar só meu.
Eu dou sempre o melhor de mim
E sei que só assim é que talvez
Se mova alguma coisa ao meu redor."

Absurdo!

"Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não."
[Manuel Bandeira]

Saber o motivo das coisas é uma tortura que sempre quero respirar. Até porque respirar a mágica dos absurdos sempre me tirou todo e qualquer resquício de ar. Apetece-me quebrar todos os relógios, perder totalmente a dimensão temporal de tudo. Enfim, as palavras escapam de qualquer vã tentativa de captura. Eu fico aqui com as músicas que me deixam no chão branco, enquanto as horas morrem lentamente.

E já é domingo. É um absurdo existirem tantos domingos em um ano [e em uma vida] quando não se tem o que fazer, quando não se tem com quem fazer...

^^

Domingo

Deve existir alguma teoria filosófica - metafísica - astrológica - histórica - cultural que explique o porquê de os domingos serem tão chatos e solitários. O cinema e a música nunca me servem de companhia nesses dias. Não sei porque eu ainda insisto.

^^

Estudo

Porque estudar Epistemologia de madrugada tem lá suas vantagens. E eu entendo a angústia inerente ao ser-no-mundo. Fato que mais uma noite em claro não me permite prolongar. Acho que estudar Comte (Positivismo), Kant e Husserl (Fenomenologia), me faz muito bem, obrigada.

^^

sábado, 18 de abril de 2009

O amor no Tempo do Cólera


"Coisa bem diferente teria sido a vida para ambos se tivessem sabido a tempo que era mais fácil contornar as grandes catástrofes matrimoniais do que as misérias minúsculas de cada dia. Mas se alguma coisa haviam aprendido juntos era que a sabedoria nos chega quando já não serve para nada.

É claro que o incidente lhes deu a oportunidade de evocar outros arrufos minúsculos de outras tantas manhãs perturbadas. Uns ressentimentos mexeram em outros, reabriram cicatrizem antigas, transformaram-na em feridas novas, e ambos se assustaram com a comprovação desoladorade que em tantos anos de luta conjugal não tinham feito mais do que pastorear rancores.

Mesmo quando já velhos e apaziguados, evitavam evocá-la, porque as feridas mal cicatrizadas voltavam a sangrar como se fosse de ontem."
[Gabriel García Márquez - O amor no tempo do cólera]
^^

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Adolescência

Quando cheguei à praça do Liceu, me aproximei de um grupo de adolescentes que estava no intervalo de uma aula e outra. Observei a maneira que esses adolescentes se vestiam: estavam de uniformes, entretanto, os meninos estavam diferenciados com bonés coloridos, Pircing no nariz e orelhas. As meninas utilizavam de beijuterias coloridas, como: pulseiras, argolas e anéis para essa diferenciação. Usavam também, esmaltes coloridos nas unhas das mãos e duas delas tinham os cabelos pintados. Estilos iguais e cores e detalhes diferentes.
Outro fato curioso, era a maneira em que conversavam. Estavam deitados na calçada no colo um dos outros, sem a menor cerimônia. Usavam a mochila como travesseiro. Conversam abraçados entre si, alisando os cabelos. Num determinado momento, aproximou-se do grupo um casal de adolescentes. Estes por sua vez, perguntou-lhes se iriam ao show de uma banda local. O grupo todo respondeu a tal pergunta, utilizando diversas gírias. Depois da resposta, o casal que estava em pé, sentou-se ao chão e ficou interagindo a este grupo.
Quando me aproximei ao grupo, todos eles me olharam dos pés a cabeça, e me receberam com certo receio seguido de hostilidade. Perguntei-lhes o nome e expliquei sobre a pesquisa. No começo ficaram resistentes, mas como comecei a conversar utilizando o vocabulário deles, relaxaram e ficaram extremamente simpáticos. Parecia que já me conheciam a longas datas. Perguntei o que eles fazem nas horas vagas. Todos eles responderam que quando não estão estudando suas lições, estão em bate papo virtual ou em sites de relacionamentos. Gostam de ficar em casa vendo tv, jogar vídeo-game e ouvir músicas. Aí eu perguntei se eles não preferem conversar pessoalmente. Eles falaram que utilizam essa ferramenta para marcar encontros no shopping e ir ao cinema nos finais de semana. Perguntei se nesses encontros existe um grupo fixo ou eles chamam mais amigos para interagir. Eles responderam que além deles, chamam vizinhos, irmão, primos, etc.
Notei que existia neste grupo uma adolescente, em especial, que na maioria das vezes, respondia por todos. Era uma espécie de líder. E quando ela falava, os outros repetiam suas respostas ou ficavam calados, consentindo. No final, perguntei sobre namoro. Neste momento, percebi que havia um interesse implícito entre dois jovens, que, naturalmente, o grupo todo sabia. Mas estes, por sua vez, ficaram sem graça com as indiretas do grupo e começaram a entregar um ao outro, de quem era apaixonado por quem. Não houve brigas, muito pelo contrário, levaram a situação na brincadeira e gargalhadas.
Agradeci a atenção e me retirei.



Análise das entrevistas à luz de três teóricos:


- Stanley Hall: Hall elaborou sua teoria optando pela hereditariedade versus ambiente. Ele pensava que o desenvolvimento durante a meninice era um tipo de desenrolar passivo, ordenado pela natureza. Ao entrar na puberdade ele supunha que o desenvolvimento se tornasse mais fluído. Ainda sobre as influências inatas, no que diz respeito a sexualidade, o adolescente é mais sensível as influências externas, e capaz de ser moldado por elas. Segundo Hall, Os adolescentes além de adquirir capacidade reprodutora, eles se tornam abruptamente conscientes de todas as instituições que no futuro, moldarão sua vida adulta (religião, forças políticas econômicas e morais). Seus poderes intelectuais aumentam, tornando-os mais aptos a escolarização. É um período particularmente vital na promoção do esquema evolutivo da natureza para a humanidade. Os impulsos sexuais adormecidos durante a infância em função de um poderoso estímulo dado pela natureza, de repente são despertados, ocorrendo uma invasão de sentimentos que são desconhecidos por eles. É um período de romances repentinos e amizades apaixonantes. [“Estavam deitados na calçada no colo um dos outros, sem a menor cerimônia. Usavam a mochila como travesseiro. Conversam abraçados entre si, alisando os cabelos.”] Verdadeira capacidade de raciocinar e de tirar proveitos. [“...e começaram a entregar um ao outro, de quem era a fim de quem.”]

***

- Anna Freud: Para Anna Freud a “lendária’’ turbulência da adolescência deve ser atribuída “ao confronto entre o ID relativamente, forte e, um EGO (eu) relativamente fraco”. As resoluções dos conflitos irão depender do equilíbrio que o Ego estabelecerá entre as proibições morais do Superego e as demandas do Id. O Id com força crescente, pode vencer o ego e daí perderá qualquer traço do caráter prévio do indivíduo, ou o ego pode sair vitorioso e o caráter do indivíduo se declarará para sempre. A recapitulação seria dos impulsos sexuais infantis, ou seja, a construção da identidade do adolescente vem após a repetição dos eventos da infância. O tumulto se da através do reflexo das fases do desenvolvimento da própria historia do individuo. E uma fase onde se capaz de intensos auto-sacrifícios e devoção. São capazes de travar relação amorosas mais apaixonantes e termina-las tão abruptamente quanto começaram. Introduzem entusiasticamente na vida Social e Comunitária , e repentinamente optam pelo isolamento e solidão. [...“quando não estão estudando suas lições, estão em bate papo virtual ou em sites de relacionamentos. Gostam de ficar em casa vendo tv, jogar vídeo-game e ouvir músicas.”] Oscilam entre uma submissão cega a um líder eleito, porem, rebelam-se desafiantemente contra a qualquer autoridade. [“Notei, que existia neste grupo, uma adolescente, em especial, que na maioria das vezes, respondia por todos. Era uma espécie de líder. E quando ela falava, os outros repetiam suas respostas ou ficavam calados, consentindo.”] São egocêntricos e materialistas, ao mesmo tempo são cheios de ideias e ideais elevados. Para com alguns são extremamente grosseiros e sem consideração, para com outros são extremamente sensíveis. [“Quando me aproximei ao grupo, todos eles me olharam dos pés a cabeça, e me receberam com certo receio seguido de hostilidade.”] Oscilam do otimismo esfuziante ao pessimismo absurdo.

***

- Harry Stack Sullivan: Para Sullivan, os seres humanos são os únicos animais que se comunicam de forma extremamente complexa (símbolos verbais, não verbais, da linguagem falada...). Atribui as crises da adolescência ás necessidades que eles tem em superar a identidade infantil, às características da idade infantil( em todos os aspectos) e a necessidade de consolidar uma idade adulta ajustada, normal. Não atribui aos conflitos sexuais infantis – oriundos do id. Sullivan dizia que, A pré-adolescência, idades de 8 a 12, marca o movimento da criança da cooperação e da competição dos grupos de pares embasada em regras para intimidade genuína com um camarada. Sullivan viu a fase como um estágio particularmente importante no qual o dar e receber com um amigo especial pode reparar e desfazer distorções causadas por ansiedade excessiva em estágios anteriores. A criança dirige-se verdadeiramente para fora da família pela primeira vez e se engaja em um dar e receber livre com uma outra pessoa não afetada pela dinâmica da mesma família. [“Perguntei se nesses encontros existe um grupo fixo ou eles chamam mais amigos para interagir. Eles responderam que além deles, chamam vizinhos, irmão, primos, etc.”] A grande mudança em direção ao pensamento sintático ocorre embora, algumas distorções possam persistir até a adolescência. Uma capacidade para apego, amor e colaboração emerge ou falha em desenvolver-se em face da ansiedade excessiva. Embora exploração sexual possa ser uma parte do relacionamento de camaradagem, Sullivan não viu a sexualidade como um elemento central na pré-adolescência. [“Estavam deitados na calçada no colo um dos outros, sem a menor cerimônia. Usavam a mochila como travesseiro. Conversam abraçados entre si, alisando os cabelos.”] Na adolescência anterior, considerada adolescência propriamente dita, é um período de tempestade e tormenta, devido a presença de desafios novos e perturbadores. São desafios que surgem em função de sentimentos que até então nunca haviam sido experimentado. Como resultado das mudanças fisiológicas que ocorrem em seu corpo, o adolescente desenvolve uma nova necessidade a de segurança (manter-se livre da ansiedade) onde estão presentes as atividades de caráter masturbatório. Muitos dos conflitos da adolescência decorrem da necessidade oposta de gratificação sexual, de segurança e de intimidade. Para Sullivan, muito do que se supõe ocorre durante a adolescência (os altos e baixos, as grandes paixões e a inconstância) como um resultado de dificuldade inter-pessoais. [“...percebi que havia um interesse implícito entre dois jovens, que, naturalmente, o grupo todo sabia. Mas estes, por sua vez, ficaram sem graça com as indiretas do grupo e começaram a entregar um ao outro, de quem era apaixonado por quem.”] Portanto, a adolescência é um estágio repleto de “choques de necessidades” e esses é que tornam a adolescência problemática. Para Sullivan, a adolescência posterior se estende a padronização da atividade genial para o estabelecimento de uma série de relacionamentos interpessoais completamente humanos ou maduros. Engloba os anos que antecedem e seguem à idade dos 20 anos. Sullivan concentra-se quase que exclusivamente sobre as mudanças intelectuais e os aspectos educacionais da adolescência posterior.

^^

O se olhar


"O seu olhar lá fora
o seu olhar no céu
o seu olhar demora
o seu olhar no meu
.
o seu olhar seu olhar melhora
melhora o meu
.
onde a brasa mora
e devora o breu
como a chuva molha
o que se escondeu
.
o seu olhar seu olhar melhora
melhora o meu
.
o seu olhar agora
o seu olhar nasceu
o seu olhar me olha
o seu olhar é seu
.
o seu olhar seu olhar melhora
melhora o meu."
.
.
[Arnaldo Antunes]

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Justificável

Porque há momentos em que precisamos:



.

.

.

"refrescar as ideias"...

^^

Verdade, Mentira

X

"Verdade, mentira, certeza, incerteza...
Aquele cego ali na estrada também conhece estas palavras.
Estou sentado num degrau alto e tenho as mãos apertadas
Sobre o mais alto dos joelhos cruzados.
Bem: verdade, mentira, certeza, incerteza o que são?
O cego para na estrada,
Desliguei as mãos de cima do joelho
Verdade mentira, certeza, incerteza são as mesmas?
Qualquer cousa mudou numa parte da realidade — os meus joelhos
e as minhas mãos.
Qual é a ciência que tem conhecimento para isto?
O cego continua o seu caminho e eu não faço mais gestos.
Já não é a mesma hora, nem a mesma gente, nem nada igual.
Ser real é isto."

[Alberto Caeiro]
^^

Se

Se ao menos eu soubesse ouvir-te...
Se ao menos eu pudesse ler-te...
Se fosses uma melodia cujas notas te conhecem...
Se fosses um livro cujas páginas te descrevem...
Se ao menos eu conseguisse
Ver-te... Para além do que os olhos vêem...


^^

De Volta...

Depois de uma semana de provas e dedicação total ao estudo... estou de volta às palavras.
.
.
.

Se eu fizesse do meu corpo poema,

Saberias ler-me com as tuas mãos?

.

^^

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Partida

"Não aprenda a leveza das nuvens
Não quero negociar meus sentimentos com o vento
Iria chover muito neste dia
Mesmo que meu mundo estivesse começando a secar
Enquanto as flores de meu pequeno jardim se tornariam areia colorida
Lavadas pelo fluxo da corrente
De dentro para fora
Pelo profundo invisível que se esforça em mostrar o essencial
Gritando sem voz própria
Arranhando sem traços
Não lance minhas estrelas no escuro
Sinto que elas ainda não tem luz suficiente
Somente preciso de mais tempo para mostrar que ainda há espaço no universo
Tenho corrido para encontrar as coordenadas do infinito
Mas ainda preciso respirar
Um pouco desse cheiro alivia minha ansiedade
Não quero que o inverno dissolva o calor
Minha pulsação já tem um som diferente
Não me ensine
Não agora
Mentiras atrasadas não são necessárias em meus pensamentos
Estou tentando encontrar a chave de todas as portas
Só para pintar alternativas no horizonte
E te fazer sentir o brilho das jóias escondidas
Antes que o concreto e o papel lhe tragam o outono
Antes que o silêncio dissolva minha voz
E os jogos humanos devorem a beleza de tudo
Antes que o vento comece a soprar
Queria que pudesse vestir meus olhos um instante
Tocar minha pele por dentro
Queria que pudesse dormir meu sono
Mas essa empatia é demasiadamente surreal
Antes de deixar sua sombra e levá-la
Entenda o incompreensível
Não lhe desejo minhas escolhas
E embora desejasse escolher
Apenas seríamos atingidos de formas diferentes
Sua concretude e minha abstração
Formando conseqüências ambivalentes
Nesse deslocamento de ar
Vá andando
Nuvens não são tão pesadas
Não sou amante do vento."

[Ghost Grey]

^^

domingo, 12 de abril de 2009

A Verdade


A porta da verdade estava aberta,
Mas só deixava passar
Meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
Porque a meia pessoa que entrava
Só trazia o perfil de meia verdade,
E a sua segunda metade
Voltava igualmente com meios perfis
E os meios perfis não coincidiam verdade...
Arrebentaram a porta.
Derrubaram a porta,
Chegaram ao lugar luminoso
Onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
Diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual
a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela
E carecia optar.
Cada um optou conforme
Seu capricho,
sua ilusão,
sua miopia.
[Carlos Drummond de Andrade]
^^

sexta-feira, 10 de abril de 2009

A Palavra Forte

"Minhas palavras não são tão doces
Eu tenho uma conversa esquisita
Meu vinho não é tão suave
Eu tenho um gosto sutil
Minha maçã não é tão vermelha
Eu tenho uma cor discreta
Eu falo baixo
Coisas pequenas
Mas procuro sempre
A palavra forte!"

[Composição: Paula Toller/ George Israel]

^^

[...]

"(...) Quando querem transformar
Dignidade em doença
Quando querem transformar
Inteligência em traição
Quando querem transformar
Estupidez em recompensa
Quando querem transformar
Esperança em maldição:
É o bem contra o mal
E você de que lado está?"
...
[Composição: Dado Vila-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá]

^^

quarta-feira, 8 de abril de 2009

O Haver

"Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura.
Essa intimidade perfeita com o silêncio.
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo.
.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos.
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito.
.
Essa gagueira infantil de quem quer
exprimir o inexprimível.
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte.
Essa curiosidade pelo momento a vir, quando,
apressada, ela virá me entreabir a porta
como uma velha amante
mas recuará em véus ao ver-me junto ao bem amado...
.
Resta esse constante esforço
para caminhar dentro do labirinto.
Esse eterno levantar-se depois de cada queda.
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha.
.
Resta essa terrível coragem diante do grande medo,
e esse medo infantil de ter pequenas coragens."

[Vinícius de Moraes]


^^

Procura-se:

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimento, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.
.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.


[Vinicius de Moraes]

^^

(...)

"Estou mesmo a precisar
de uma injeção
de essência de rosas."
.
[Jorge de Sousa Braga]
^^

Como saber a hora?


Debrucei-me na grande varanda sobre o tempo. Com cinco dedos de sonho em cada mão. E como dizer as horas quando os ponteiros insistem em parar - uma greve infinita de segundos abafados? Mergulhar na vida sem medo do sol – essa laranja esmagada – que me escolhe os pensamentos. Seguem-se dias seguidos de indecisões, ócio e mansidão. Os olhos para sempre perdidos em deslumbramento como duas borboletas em busca de luz. A curiosidade em recuperar palavras antigas e o apelo da coragem para atravessar os dias sonolentos. Há um estranho encanto naquilo que os olhos não querem ver – estão embaciados e não sei o que procuram. Magia? Só dias sem história: para aprender a viver aventuras que ensinam a força imensa das ilusões. As palavras traem-nos. E sem elas, como nos aproximamos dos outros? Como dizer as horas? Está indeciso, o tempo. Entre o temor e a entrega, uma cumplicidade em conflito feita de riscos. O tempo é escasso, disse ele – o relógio. Um devorador atento de solidões.
^^

terça-feira, 7 de abril de 2009

Sentimento

"Os sentimentos são cristais brilhantes.
.
Dou apenas um exemplo do modo como isto se passa:
Onde Vais?
À Rua.
Para Quê?
Não Quero Perder o Encontro Que se Vai Dar.
.
Onde Vais?
À Memória.
Porquê?
Procurar o Excerto Dessa Possibilidade.
.
Onde Vais?
A Um Encontro de Amor.
Com Quem?
Com a Minha Condição de Vaso Quebrado."
.

[Maria Gabriela Llansol]
^^

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A Menina



"Esta menina tão pequenina quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré mas sabe ficar na ponta do pé.
Não conhece nem mi nem fá mas inclina o corpo para cá e para lá.
Não conhece nem lá nem si, mas fecha os ohos e sorri.
Roda, roda, roda com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.
Põe no cabelo uma estrela e um véu e diz que caiu do céu.
Esta menina tão pequenina quer ser bailarina.
Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças."
[Cecília Meireles]
^^

Across The Universe

"Palavras flutuam como uma chuva sem fim dentro de um copo de papel. Elas se mexem selvagemente enquanto deslizam pelo universo. Um monte de mágoas, um punhado de alegrias estão passando por minha mente me possuindo e acariciando. Imagens de luzes quebradas que dançam na minha frente como milhões de olhos. Eles me chamam para ir pelo universo. Pensamentos se movem como um vento incansável dentro de uma caixa de correio. Elas tropeçam cegamente enquanto fazem seu caminho pelo universo. Sons de risos, sombras de amor estão tocando meus ouvidosa bertos. Me excitando e convidando. Um amor incondicional sem limites que brilha em minha volta como milhões de sóis. E me chamam para ir pelo universo."
[Composição: Lennon / McCartney]


^^

O Caminho


"Para saber de amor,
para aprenderle,
haber estado solo es necesario"


^^

Verdadeiro jeito de Ser...

Gostava de acreditar que sim. Que posso deixar a máscara de lado e contentar-me com o que sou. Mas preciso de me esconder por detrás de palavras que não são minhas, outras ainda são, para conseguir dizer o que sinto. Ou quero – ou devo – sentir. Sou mais uma mulher um indício de tempestade que nunca acontece. E vou-me calando, e escondendo o quanto posso, até não aguentar mais. E depois grito um basta – única prova da vontade de ir de mão dada com os perigos – mas logo volto atrás, com uma desculpa qualquer. E assim se vão passando os dias, acumulados como pó a pesar-me nas costas.
E eu gostava de não calcular nada, de seguir desbravando caminho sem pensar em consequências maiores que não me deixam dormir, às vezes. Quase sempre. E o cansaço de ser como sou cá está. E lá vou eu buscar a máscara – sempre otimista – dos discursos bonitos. Porque há que não ficar calada. Porque só se vive uma vez. Porque a vida não é fácil mas é mais difícil quando se nos turva a vista com lágrimas e não se vê um palmo à frente. Porque há quem esteja pior – e há, pois há. E depois de palavras tão sábias e tão puras – que ficam sempre bem na boca dos outros – fica um nó na garganta por tudo aquilo que eu disse ou não.
E quem é que eu quero enganar?
Não chega para mim também – se me deito e levanto a pensar nisto. Já não basta o sorriso caiado na cara para dizer que está tudo bem. Mas, lá está, aqui todos usam máscara e acham bem, muito bem. Eu, se calhar, nunca cresci. E este mundo não me chega, como não iria chegar outro qualquer.
Posso inventar novos sonhos, outras vidas, novas máscaras. Há, ainda assim, alguma verdade nisto. Os outros são hábeis mas eu não. Porque mesmo calada – sem que nenhum movimento se faça adivinhar em mim – não me revejo noutros gestos. E prefiro assim, ficar quieta. Mas depois chega a vida rotineira de quem se diz assim e o que mais se quer é fugir de tanto tédio. O que fazer? Pois bem, não se sabe. Pede-se ajuda aos astros e videntes mas os signos não percebem nada das coisas que nos abalam o coração. Vai-se à procura de conselhos mas não apetece falar sobre o assunto, que chatice. Sai-se para a rua com uma música no ouvido e canta-se a alto e bom som para enganar o silêncio que se faz cá dentro. E é assim, vamos vivendo com a cabeça entre as orelhas. A sonhar com dias melhores e com o mundo lá em cima, mas sempre com medo das vertigens do espelho. Com medo de não saber decifrar. Mas, dependendo da máscara, dá pra saber o que se pode encontrar - geralmente, é aquilo que nunca conseguiu ser.
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O que se faz às palavras que ficam por dizer?
^^