Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

1.5.11

O Quarto Interior



Os países estrangeiros, a música e os planos e projectos pertenciam ao Quarto Interior. E as canções em que ela pensava também. E a Sinfonia. Quando ela estava sozinha no Quarto Interior voltava-lhe à memória a música que tinha ouvido durante a noite da festa. Era como uma grande flor que se abria dentro dela. Durante o dia, por vezes, ou quando acabava de acordar, pela manhã, vinha-lhe de repente à lembrança um novo trecho da Sinfonia. Então tinha que ir para o Quarto Interior e escutá-la muitas vezes para tentar juntar esse trecho aos que já tinha de memória. O Quarto Interior era um lugar inteiramente privado, só dela. Podia estar no meio duma sala de gente e ainda assim fazer de conta que estava fechada à chave por dentro.



[Carson McCullers]



^^

2 comentários:

Paulo Tamburro disse...

OLÁ,

é por esta razão que escolhi uma chave na fechadura, para meu logotipo de perfil.

Numa situação destas, fatalmente ela iria funcionar e desvandar os segredos dos lugares mais recônditos daquele interior que, deve ser muito interessante.

E como dizem as mulheres, atualmente: Afff! (rs).

Um abração carioca.

Daniel Savio disse...

Interessante, mas apesar de ser privado, com certeza não é só para ela...

Fique com Deus, menina xará Danielle.
Um abraço.