Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

11.8.09

*Chuva que te Lava os Olhos


Os olhos cheios de escuridão. Olhos cegos de silêncio. Olhos de quem grita calado. O peso enorme arrastado atrás de cada palavra. Os passos zangados de quem tem tudo a dizer e a tristeza colada à cabeça. Lágrimas cobertas de chuva. E um Bom Dia, menina. E depois todas as lágrimas contidas num sorriso. Não me lembro das caixas de cartão (cama improvisada ao relento), não me lembro dos cobertores encharcados (castanhos e friorentos), nem sequer das poucas moedas (em forma de esmola) caídas no chão molhado como uma bênção qualquer. Lembro-me que, por fim, já não havia silêncio entre nós. Alguma coisa o tinha levado dali. Talvez o Bom Dia, menina. E o sorriso. Sim, aquele sorriso de quem já não tem mais nada a perder.
O sol espreitou, depois foi embora, e a vergonha escondida nos olhos do silêncio viajou para outro lugar. Ouvi cada suspiro teu, cada passo apressado dos senhores sem tempo e cada tentativa perdida para roubares outro sorriso a quem passasse por ti. Ouvi muitos Bom Dia sussurrados e nenhuma resposta feliz. Vi todos os olhos cegos, falsamente despercebidos, ocupados por preocupações inquietas e fúteis. Na verdade, gostava de ajudar-te a levantar. Gostava que ficasses com os olhos cheios de céu e de mar. Porque podíamos ser irmãos. E eu podia sentir-me pequena e protegida outra vez. E pedir abraços, muitos abraços (daqueles que também precisas), e cócegas e segredos e queixas e gargalhadas cúmplices. Porque o teu céu aqui, no meio deste chão, a apontar-te para o fundo da alma, é menos azul que o meu. Quase sem sonhos. O céu aqui não tem telhado de cores. Só árvores antigas que servem de abrigo ao corpo cansado da falta de oportunidades. Debaixo dele será que és feliz? Bom Dia, menina. E tu, da minha idade, quase aposto. E eu, menina, pelo menos para ti.
Apetece-me agarrar-te a mão. E perguntar Como estás? Não sou menina. (Serei?) Reconheço-te os olhos doces, doridos e livres. Sim, talvez sejamos todos meninos perdidos (por algum capricho ou força do destino) na encruzilhada das nossas vidas. E quem nunca se sentiu assim? Até os tiranos dos relógios e das obrigações, quase que aposto. (Gostas de apostas?)
Queria saber abraçar-te, queria que deixasses de tremer ao frio, queria aconchegar-te os sonhos à mesinha de cabeceira. E queria parar o tempo num momento assim. Dar-te a esperança – só porque alguém (algum dia) ta tirou. Quando foi isso? Queria ter a certeza de que poderás chegar a casa, depois de mais um dia de loucos (exactamente como hoje – com chuva e vento à mistura) e vestir um pijama lavado para dormires descansado. Num tecto teu. Sem olhares reprovadores que acusam subtilmente os erros que te trouxeram até aqui. Sem medo e sem vergonha de seres tu. E que possas dizer vezes sem conta Bom Dia, menina. E que, de facto, te respondam com vontade. E te desejem um futuro melhor. Pelo menos igual ao deles.
Porque eu tenho o teu sorriso na cabeça. Porque me roubaste os olhos e me mostraste os teus, cheios de palavras por dizer. Como os meus. Sabes, todos olham para mim em silêncio e ninguém respira. A escuridão é gigante. E dentro dos teus ouvidos (quase aposto) também descem soluços sem nome. E fechas os olhos, escondes-te debaixo desses cobertores sujos e esqueces que o mundo é sempre o mesmo. Pesado porque só gira para alguns. Pesado para quem se fez sozinho. E os outros passam. Passam e falam e tropeçam em ti sem sequer dar conta. Calcam-te o orgulho e não dizem nada. Desculpe, não o vi de vez em quando. Raramente. Não abrem a boca. Só os olhos cobertos de escuridão a apontar para ti em silêncio. Nem uma palavra bonita. Nem um Bom Dia igual ao teu. E tu ouves o que não dizem com a paz que têm as árvores que te servem de tecto. E fazes de conta que não vês, que não sentes esse desprezo vulgar a roer-te os ossos. Para todas as coisas é preciso fazer de conta. Assim, faz de conta comigo. Faz de conta que te dei mesmo a mão quando me aproximei. Deixei-te um Bom Dia. A minha moeda foi o meu abraço. Bom Dia, menino. Porque no fundo também és como eu, até aposto. E amanhã (de manhã cedo) volto para mais um Olá. Mesmo com chuva. Daquela chuva que só te lava os olhos. Daquela chuva que não te deixa triste.

[Vanessa Sousa]

^^

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