Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Desespero


Quem é ele?
Um carril de comboios em direcção ao inferno?
Partindo-se como um pau de mobília?
A esperança que subitamente transborda da fossa?
O amor que vai pelo cano abaixo como cuspo?
O amor que disse para sempre, para sempre
e depois te atropela como um camião?
És tu uma oração que flutua para um anúncio de rádio?
Desespero,
não gosto muito de ti.

Não ficas bem com a minha roupa e os meus cigarros.
Porque te instalas aqui
tão grande como um tanque
apontando para metade duma vida?
Não podias apenas flutuar para uma árvore
em vez de te alojares aqui nas minhas raízes,

forçando-me para fora da vida que levei
quando tem sido a minha barriga por tanto tempo?

Está bem!
Eu levo-te comigo na viagem
onde por muitos anos
os meus braços têm estado mudos



[Anne Sexton]


^^

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