Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

12.1.11

Fraldiqueiros


Coitarados!
Meninos, tiveram pouca mamã.
Carências afectivas afunilaram-nos psiquicamente
desde a impoética infância até este corrimento sentimental
em que, grandinhos, se compensam, comprazem.
Continuam a gotejar.

Coitarados!
Gulosos de pontas de dedos,
perdem-se em beijoqueirices, diminutivas ternurinhas.
Têm sempre rebuçadinhos d'alma para as mulheres.
Falam freud ao colo das amigas.

Fraldiqueiros. . .
Vailevar-lhes isso a nojo, machão?
MuIheres gostam. Riem, prazidas.
«Venha cá à mamã!»

O golpe do coitadinho (não confundir com o golpe
do irmãozinho, esse na base do esquema da alma gémea)
é o que estás a ver: saltar para o regaço e pedir nhém
nhém
em nome do Sigismundo, daquele que dizia, salvo erro:
A alma? Geme-a...

Fraldiqueiros
a mandarem beijinhos por teleférico!
de saliva
Engatinhantes, tiram do estojo complexos em forma
de saxofone
e tocantam-lhes a pingona freudista canção do bandido

Fraldiqueiros. . .
Mulheres gostam. Até onde?



[Alexandre O´Neill - Poesias Completas - 1951/1981]

^^

2 comentários:

Malu disse...

Gostei muito dos neologismos...
Brincar com as palavras de forma tão sensível assim...
Abraço

Daniel Savio disse...

Interessante, mais ri um pouco com o trocadilho de alma gemea...

Mas as vezes o conhecimento só serve para manipular o outro (pensando um pouco mais profundo no texto).

Fique com Deus, menina xará Danielle.
Um abraço.