Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

11.1.11


Estou reclinado na poltrona, é tarde, o Verão apagou-se...
Nem sonho, nem cismo, um torpor alastra em meu cérebro...
Não existe manhã para o meu torpor nesta hora...
Ontem foi um mau sonho que alguém teve por mim...
Há uma interrupção lateral na minha consciência...
Continuam encostadas as portas da janela desta tarde
Apesar de as janelas estarem abertas de par em par...
Sigo sem atenção as minhas sensações sem nexo,
E a personalidade que tenho está entre o corpo e a alma...


Quem dera que houvesse
Um terceiro estado pra alma, se ela tiver só dois...
Um quarto estado pra alma, se são três os que ela tem...
A impossibilidade de tudo quanto eu nem chego a sonhar
Dói-me por detrás das costas da minha consciência de sentir...


[Álvaro de Campos]


^^

3 comentários:

Valquíria Oliveira Calado disse...

Algumas descobertas, de emoções em nós, nos fazem melhor, crescer, e fortalecer.
bjinhos amiga.

Por que você faz poema? disse...

Álvaro de Campos sabia das coisas.

Daniel Savio disse...

Possibilidade, possibilidade infinitas até se procurarem a sua realização...

Hua, kkk, ha, ha, fiquei pensando em algo que não tem nada haver.

Fique com Deus, menina xará Danielle.
Um abraço.