Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

29.4.10

***

Não, não quero este decassílabo.
O que eu queria dizer era:
O segundo, não o tempo é implacável.
Tolera-se o minuto. A hora suporta-se.
Admite-se o dia, o mês, o ano, a vida,
A possível eternidade.
Mas o segundo é implacável.
Sempre vigiando e correndo e vigiando.
De mim não se condói, não para, não perdoa.
Avisa talvez que a morte foi adiada
Ou apressada
Por quantos segundos?

[Carlos Drummont de Andrade]

^^

2 comentários:

Daniel Savio disse...

Engraçado que neste texto se dá tanta importância a parte que é o segundo do que o conjunto que ele faz parte, seja na hora, nos dias e na eternidade, como se fosse no meio a outros perdesse a importância...

Fique com Deus, menina Danni.
Um abraço.

Insana disse...

Lindo. o texto esta em perfeota armonia com a imagem.

Bjs
Insana