Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

6.3.10


Fiz a minha casa aqui
tu sabes porquê

Escolhi construí-la sobre um rochedo
não para que perdure
mas para que não desabe quando o vento soprar
e por aqui o vento sopra sempre

Sabes que não te evito
trago os bolsos cheios dos teus poemas


Quando era pequeno trazia nos bolsos
pedras que apanhava no caminho

Os poemas são cheios de palavras por dentro
e as palavras que há nas pedras perduram ao vigor dos cinzéis
são como casas construídas sobre rochedos
falam de nós se na infância as levámos nos bolsos
falam de nós como se fossem poemas
e nós escutamos a sua voz
porque expomos as nossas mãos ao silêncio

As pedras estão cheias de silêncio por dentro
como se fossem poemas


As palavras habitam o coração do silêncio
e se eu não sei contar as palavras que há dentro dos teus poemas
como posso saber quantas habitam o coração do teu silêncio?

[José Rui Teixeira]


^^


2 comentários:

Daniel Savio disse...

Talvez não exista nenhuma palavra em meio ao silêncio, as vezes por isto que doe mais...

Fique com Deus, menina xará Danni.
Um abraço.

Luna Sanchez disse...

Silêncio é poesia pura! E eu adoro...desde sempre.

xoxo

ℓυηα