Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

4.1.10

A mão Feliz


Há palavras que têm no poema uma função teatral
como as palavras com que se sai de cena.
É então que a mão pousa a caneta
pensando ser capaz de pegar na chávena
ou regar as plantas
nua.
A mão feliz está rodeada por palavras até à ponta dos dedos.
Sentamo-nos à mesa com elas
o nosso modo de amar depende delas
e os nossos beijos são a língua delirante do poema.
Depois da cena inútil da caneta pousada sobre a mesa
em que a mão sente que sofre um sofrimento
que não é de ninguém
um milagre acende o gesto que se perde na distância
de um "lá" que ninguém olha,
maravilhosa palavra com que saio do poema.

[Rosa Alice Branco]

^^

2 comentários:

Daniel Savio disse...

Menina, não concordo que o ato de escrever (sobre amor) seja inutil, mas com certez é mais prazeroso viver este amor...

Fique com Deus, menina xará Danni.
Um abraço.

Luna Sanchez disse...

Amo as palavras, mesmo aquelas aparentemente vazias...sempre encontro uma razão para elas.

Beijo, Danni. ^^

ℓυηα