Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

12.12.09

Vastos Jardins do meu Silêncio


Recordo o itinerário das sombras quando o chão
apresenta sua harpa mortal e nos muros eclode
o desejo de música. A minha vocação lírica
demora-se nos teus dedos, existe e regressa
com o sal das noites. Três luas ensaiam
uma estratégia no invisível.

Há uma lâmina
de frio encostada ao meu pescoço.

Posso recolher o mel da inesperada estação,
amar os teus lábios. Posso ver cair
os frutos, na distância, aspirar ao sentido ardente
dos cometas, entrever o poema que
oscila por trás das cortinas. As três luas são
um enigma, e os enigmas sabe-se
que são sinais trágicos.

O meu nome é hoje um sol despedaçado
no corpo inocente da primavera.

Abro os portões, o hausto dos campos
atravessa uma faca na garganta, mas talvez
eu possa cantar. As luas arrebatam o sono
inquieto das cancelas terrestres, comboios
avançam sobre pétalas, queimam a geada,
derrubam o eterno das montanhas.
Chega-se tarde ao que se ama.

Eu digo, eu canto, tu danças, levitada,
nos vastos jardins do meu silêncio.

[Vasco Gato]

^^

Um comentário:

Daniel Savio disse...

Poesia bonita, mas me lembro os momentos que nos declaramos ao amado, sabe aquele sentimento que tudo depende de um único momento "mortal"...

Apesar de não paneas o inicio encerrar um momento mortal para o relacionamento...

Fique com Deus, menina xara Danni.
Um abraço.