Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

13.10.09


Faltas-me. Se aqui estivesses isto não seriam
palavras. Um trinco por dentro, essa ilusão
de voltar a ti olhando os papéis, desconheço
o que de mim resta quando as horas quase trazem
o silêncio e a boca se abre, faz a passagem
do teu corpo a um corpo que aproveita
a substituição que não sabe. Mudaremos o tempo
para nenhuma exigência, faltas-me quando estás
a caminho, já oiço os teus passos subindo
no fundo da escada. Amanhece. Nos sonhos
que não sou capaz de lembrar vens tocar-me
nos ombros e dizer ainda não são horas, ainda
não é alba. As palavras faltam-me, vou
calar-me nas duas voltas da chave, este papel
apagado, sujo da ausência dos teus gestos.

[Helder Moura Pereira, De novo as sombras e as calmas]

^^

3 comentários:

Abstrata disse...

Falta ...
quem pode preencher a falta que nosso amor nos faz.
Só ela pode.

beijos

Luna Sanchez disse...

"...vou calar-me nas duas voltas da chave..."

Nossa, já me senti assim várias vezes.

Beijos, Dannizinha.

ℓυηα

O Profeta disse...

A meiguice dos teus olhos
Enternece a alma mais dura
Sei-te em cada batida de coração
Na verdade da água pura

Voa pelo celeste no seio de uma nuvem branca
A água que beija a ilha
Apaixonou-se pela sua sublime beleza
De emoção chorou perante a maravilha

Doce beijo