Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

12.9.09



Tinhas a pele arrepiada pelo sentimento. Os olhos rasos de contentamento. A vida trazias nas mãos abertas. E o fruto do nosso encontro era uma alma cheia de presente, sem medo do futuro e sem necessidade de olhar o passado.
Querias-me assim como eu te queria. Eternamente. Que era o mesmo que dizer, enquanto durasse. O nosso eterno era o momento, pleno, e não havia promessas feitas ao entardecer. O que dávamos estava em todos os gestos, em todos os olhares, no encontrar dos corpos. Nada de planos para o futuro, nada de palavras vãs para encher o vazio. Não existia o vazio.
Mas quando olhávamos para nós sentimo-nos cheios de mais. A sonhar o que não podíamos ter uma vida inteira. Não acreditávamos que a vida se desse assim, como uma fruta fresca em pleno verão. Estranho o destino humano. Tudo o que é bom demais faz-nos afastar, evitar. Nem sequer tocamos com o medo de estragar. Para que nada mude, não chegamos a viver tudo o que se oferece aos nossos olhos. E partimos antes mesmo de chegar.

[Ana Teresa Silva]

^^

2 comentários:

Luna Sanchez disse...

Ah, como isso é complicado...abrir mão de provar por receio de gostar e ter que, quem sabe, por infelicidade, ficar sem.

Mas proteger-se de tudo é desperdiçar vida, então, um viva à ousadia...e uma pitada de sorte, para regar.

;)

Bom sábado, Dannizinha.

ℓυηα

°•~ ∂ąnnι °•~ disse...

Luninha e bota desperdício nisso... às vezes esse abrir mão, chega à ser um pouco egoísta.
E como vc mesma disse: "Um viva à ousadia com muita, muita sorte pra regar!"

Bjs!

=)