Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

1.9.09

*Em setembro


Há muito tempo, no começo de uma noite de árvores já despidas, agitadas pelo vento de setembro, imaginei a tua vinda. Havia uma indefinida inquietação na natureza, como se estivesse para se aproximar uma grande tempestade, e o horizonte colorira-se de tons assustadores. A electricidade tinha faltado, e havia velas tremelicando sobre as mesas, um certo sentimento de frio que nos fazia aproximar-nos das camas, enrolarmo-nos dentro das camisolas, como se esse fosse o preciso começo de mais um inverno, com tudo o que de irremediavelmente perdido ficava para trás, sobretudo os rostos iluminados pela intensa exaltação da luz. Eu aquecia as mãos na fornalha do cachimbo, acariciava as folhas do livro que me tinha acompanhado durante todo esse mês, sentia-me lavado e com uma indescritível paz na alma. Pela primeira vez na vida sabia-me completamente entregue a mim próprio, tal como as colinas que vira ao fim da tarde, espalhadas ao sol, amarelas e solitárias, sem qualquer sentido que não fosse multiplicarem-se até aos confins da minha retina, redondas e sempre iguais a si mesmas, perdurando de dia para dia e de século para século.
Mas, dizia-te, nesse momento prenunciei a tua vinda. Julguei mesmo saber quando me chamaste pela primeira vez, talvez num desses muitos sons ambíguos que tem o estalar de uma casa, e me disseste: prepara o caminho para o meu rosto. Abre-te de par em par, como se fosses uma enorme folha de uma planta carnívora, distende-te todo como um animal dócil e devorador, apresta-te a teres os meus pés nus sobre o teu peito, os meus lábios elevando-se ao longo do teu sexo como as pétalas de uma flor vermelha de sangue.
Assustas-me por me quereres assim, e por te acercares tão inesperadamente neste fim de dia de outono, como se uma nudez indecisa se aproximasse do meu leito sem eu lhe poder definir os contornos do olhar, pensei. Sabes, nesta altura do ano os patos bravios migratórios já se encontram todos sobre o lago, e um tal anúncio pode causar-lhes a morte, ou pelo menos uma partida precipitada, e o sangue das suas asas ficar espalhado no meu peito. Interrompes um pacto antigo que fiz com esta vida cómoda: a de poder sobreviver em troca de um pouco de ternura, das refeições às horas, do meu cachimbo pousado sobre o estirador, entre a elegância das lombadas dos meus livros, na certeza de estar construindo a obra que esperam de mim. Tu vens de súbito tratar-me como um rapaz, abrir-me as cortinas de veludo do teu púbis com um sorriso azul, dizer-me que tudo começa agora, que deixaste crescer os cabelos para mim, e que eles te provocam uma sensação de crina nas nádegas, que queres correr.
Como pudeste saber que era eu a pessoa certa? E sê-lo-ei? Como intentas possuir a minha alma, assim por antecipação? Como pudeste adivinhar que atravessei desertos, que no meu palato tenho a secura de cactos cujos espinhos se me enterram nas gengivas quando sorrio? Não receias a minha voracidade, este apetite por te sugar toda, desde a saliva ao sangue, esta vontade de morte que me acomete, de te cortar pelo sexo, de te abrir como a um brinquedo, atirando as peças para os quatro cantos do quarto?
Eu sei, (...) chegarei sem bagagem. Não teremos música, nem uma chávena de chá, nem interessará se lá fora chove ou se no passeio passa a figura da pessoa que outrora foi minha mãe. É suposto eu ter crescido, e não estou aqui nem para me explicar nem para finalmente te conhecer. Estou aqui porque tu me insinuaste que querias possuir o meu olhar, com uma determinação clandestina. Não te esqueças de fechas os vidros, porque estamos numa cave, e pode ser que lá fora seja veneza, que as vagas se agitem e venham entornar-se aqui dentro.
Pode acontecer que a cama se transforme numa jangada e tu consigas matar-me, dar-me descanso no alto mar, quando chegar a hora em que o sol ruboresce as asas dos anjos que trepam, expeditos, às cúpulas das igrejas.
Partir assim deste sítio terá de ser forçosamente inesquecível.

[Vítor Oliveira Jorge, As arquitecturas sazonais]
^^

Nenhum comentário: