Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

31.8.09

*Onde o Corpo Termina



Começa na cabeça, não termina nos pés, nem na ponta dos cabelos ou dos dedos, dos pés ou das mãos, nem sequer na ponta do nariz. Não. O corpo começa na cabeça e termina onde o olhar encontra a luz. (...)

É como se. Quanto mais pequeno o espaço, mais me espraiasse. Daqui agora até a mais pequena janela ali em frente; de lá agora até ao bosque, voando, planando, até aos ramos mais altos, até às árvores. É como se. Quanto maior o espaço, mais me aconchegasse. (...)

Pode existir dentro do silêncio, o corpo, e viver assim, fora do tempo, eterno.

Pode crescer e ser coração, músculo de mãos e abraços, pés e caminhos, o corpo, e assim, fora do espaço, apagar distâncias e outros fogos.

Pode ser margem buscando a luz no trilho da sede, o corpo, e assim, fazer-se e refazer-se, constantemente, na vida.

Às vezes é maior. É quando é todo. É quando é mundo, casa, sonho, voz, alimento, coração, presença, chão, flor, céu, olhar. É quando se cumpre. Onde o corpo se cumpre é onde termina.

O corpo só termina onde o olhar encontra a luz.

[Joana Jacinto]

^^

3 comentários:

A.S. disse...

"O corpo só termina onde o olhar encontra a luz."

Lindooooooooo........


Beijos!

Luna Sanchez disse...

E como se determina os limites do corpo, quando tudo o que se vê é a luz?

Ai,ai...rs

Beeeeijo,

ℓυηα

°•~ ∂ąnnι °•~ disse...

É uma luz que não produz sombra...

Muito lindo!

=)