Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

30.8.09

De: "O ciclo Menstrual da Noite"





Vacila e treme o homem que entra neste verso. Não usa roupa ou adereços, não corta as unhas dos pés, e sai-lhe do queixo uma cauda de pêlo comprido que lhe tapa o sexo. Mantém o braço esquerdo erguido e fala com a mão. Articula um diálogo perfeito, faz duas vozes, a dele próprio e outra feminina e doce. E na sua diz nunca te deixarei, na outra diz serei sempre tua. Quando se cansa de falar, leva a mão à testa e pestaneja sobre ela.
O poeta que tem um homem nu num verso, não sabe o que há-de fazer. Fica paralisado enquanto ouve a conversa dele com a sua mão
na sua voz diz:

Dá-me por esta noite a carne ainda quente de um beijo,
uma pedra de fogo que possa incendiar outra pedra,
dois remos para navegar águas escuras,
águas tão densas como as que nascem da montanha,
um rio, meu amor, dá-me por esta noite um rio
que comece no teu corpo de neve,
atravesse o tempo, a luz vertiginosa,
e se afogue nos meus olhos.

Na outra voz responde:

Eu dou-te o nome do silêncio, uma
casa onde possas habitar até que
a morte nos restitua, um livro para
me escreveres o sol claríssimo, as
azeitonas fazendo o virgem óleo.

O poeta chora. Lê a biografia do homem e compreende. Foi ele quem guardou o último suspiro da amada na mão que lhe amparava o rosto. Desde então, conversa com ela para suportar.

[Alice Macedo Campos, o ciclo menstrual da noite]

^^

Um comentário:

Luna Sanchez disse...

Essa imagem me causou uma inquietação, uma vontade de pular para dentro dela...não exatamente por conta do moço, mas para tentar sentir um pouco do que ele parece estar sentindo...

Beijo,

ℓυηα