Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

19.6.09

Explicação da Ausência

(...) o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa não irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o avir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer – fosse abertura –
E a saudade é tudo ser igual.

[Daniel Faria]




Não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes. (In)felizmente é recorrente. Em mim. Não imagino um Inverno sem uma voz murmurada e familiar. Não imagino alegria maior do que uma cumplicidade secreta partilhada. Depois, resta esperar que a paz nos sorria as boas-noites num céu estrelado (que nem sempre se vê). Talvez seja difícil de entender: as frases de luz não são para todos. O silêncio interrompido naquela voz antiga de fazer crescer os sonhos: cheiros e cores de uma vida ao sol – roubar ao mundo um pedaço de vida. Deixar a alma respirar, intacta, por entre destroços de tempestades e certezas. Não é para todos – suster o tempo. É por isso que não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes. Fingir que está tudo bem. Livros espalhados pelo chão do quarto – Daniel Faria? – e ideias simples a rondarem o tecto da imaginação. Com que sonhas? Confusão. O que sentes agora? Confusão. Falta-me um tempo tranquilo. Porque há certezas que substituem outras certezas. Os dias de chuva e as saudades escondidas por detrás de uma armadura pesada – o meu peito – vieram para ficar. Mas isso não se diz a ninguém. Sente-se. E as folhas de um dourado tão triste acompanham a melancolia do vento. Há lugares, dentro de nós, perdidos para sempre. Resgatam-se, assim de repente, em acordes furiosos que reclamam algum gesto irreflectido. Não se compreende. Aqui pensa-se tudo. Os corpos enganam muito e escurece cada vez mais cedo. As mãos ficam abandonadas à procura de braços abertos que as recebam. Novo silêncio. O tempo, curador de feridas, entretém-se no relógio e agora já não apetece dormir. Passamos pelos minutos – lentamente – invisíveis, alheados e estranhos. Será que há quem nos traduza? Não são precisas palavras. E o inesperado acontece: matamos coisas na vida. Assim, numa linguagem própria de quem tem medo de insistir, de magoar, ou de arder. Matamos ou morremos. Pior: sobrevivemos. Longe de tudo. E não há grito nenhum que nos salve. Ninguém nota o fio de voz – quase silêncio – que nos vai costurando o tempo. Essa certa maneira de procurar trazer à tona algumas palavras que se escondem no olhar. A dor insuportável de não mais saber agarrar a doçura de um abraço dado há tanto tempo. Não é para todos – suster o tempo. É por isso que não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes. Eu conheço um desses lugares. Acredito que essa voz também conhece(u) um lugar assim. Falta-me um sítio onde pousar a cabeça. Sobra-me a almofada. E resta esperar que a vida esqueça certos lugares que não morrem. As frases de luz não são para todos. Muito menos o rasto mágico de alguns momentos feitos, mais tarde, de ausências.

Porque em seu peito nunca tive aberta
A veia exacta para lhe ser sangue.

[Daniel Faria]
^^

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