Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

10.12.08

Confissão - [Adriana Medeiros]

Acabei de "garimpar" este poema do blog do Fábio Siqueira, e, faço dele as minhas palavras:
"Como delicioso aperitivo, este poema premiado da Adriana Medeiros:"


CONFISSÃO

"Preciso confessar...
Tenho uma amante.
Brigamos as vezes
Mas somos presenças constantes
Uma na vida da outra.
Não me lembro de há quanto tempo
nos encontramos
íntimas assim...
Não contei os minutos,horas,
dias ou ano
sem que ela descansou por século
sem minha cama.
Gosto de tê-la comigo,
gosto de senti-la em mim.
Não me envergonho
de ter meus olhos
presos aos dela
nem de subitamente
encontrar-me rindo ou
chorando,
frente a sua verdade ou
mentira.
Capciosa ela se deita comigo ou
se deita em mim?
Quando nos fartamos,
às vezes atrevidamente
de nosso cotidiano...
Nos afastamos.
Ela, porem,
me vela, quieta,
postada à minha cabeceira
como uma coruja
louca e mística...
virando olhos e cabeça
se voltando pro azul
azul...nosso encontro é
inexplicavelmente
azul...
como a terra é azul...
como o céu é azul.
É bom amar nas nuvens,
é bom amar azul
E nos retornarmos
nesse universo...
Quando deitamos as duas juntas
ela acaba acolhida
sempre nos meus braços,
apertada em meus seios
e nas madrugadas
tenho sonhos com a esperança,
arrogância, ventania, coerência,
palavras e hierógrafos
que ela semeia em mim...
Ela é louca!!
Se me sento em um balanço
ela vem brisamente... me ventar
Se penso em algum mergulho
nas espumas beijando meus pés,
ela me vem marear.
Preciso confessar que passo horas,
tempos, milímetros de segundos
de mãos dadas com ela e
ninguém me entende!!
Acham que sou insana.
Não ligo !!
Ela despertou no meu infinito
o pedaço melhor do meu mim.
Toca-la só é possível
quando tocada por ela.
Numa dessas tardes
em que me embriagava
fiquei me desejando como ela
Mas sou inconstante demais...
Não consigo me perpetuar.
Tenho uma pressa enorme de juntar
as letras e não me preocupar
com absurdo que poderei causar...
Mas...
Prefiro ser Maria a sem vergonha
e não ter vergonha nenhuma
a ir com as outras e não poder
te mirar.
Preciso confessar que
a noite passada com uma
tubulosa insônia
me atirei uma vez mais em tua alma
(não será a últimareceio e não quero).
Meus ouvidos ficaram
enternecidos com o que
me davas
lavando e percorrendo meu ser.
Nas imagens ,
sons e viagens
te fazias presente,
se vestia de Deus
pra embalar essa ereje
que no meio da madrugada
gozava as melodias
e, sussurrando seu nome
espreguiçava, chorava, dizia, pedia:
Toma-me agora.
Toma-me neste dia.
Eleva-me e deixe-me
engolir-te por inteiro
e depois...depois
saia pela minha boca...
minha amante.
POESIA."

Poema vencedor do X FestCampos de Poesia Falada-2008.


^^

Um comentário:

Milena disse...

Dani, amei essa poesia...
Tem um final surpreendente!
Muito lindo!
Não é de se admirar que ela é vencedora do X FestCampos de Poesia Falada-2008

Bjs!


Milena